Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Planta carnívora com risco de extinção 'invade' Nova York

Além de vítima ecológica, Aldrovanda vesiculosa também pode representar ameaça ambiental

Marion Renault, The New York Times

30 de agosto de 2019 | 06h00

Nos seus caiaques, os homens passaram pelos ramos verdes, inspecionando a planta carnívora. Até o fim do dia, o grupo encheu oito frascos com Aldrovanda vesiculosa, vegetal também conhecido como roda d'água. A planta não deveria estar nesse pequeno lago de Orange County, Nova York, e representa um enigma ecológico.

Em todo o mundo, a roda d'água está se extinguindo. Mas, entre o verão e o fim do inverno, essa planta sem raízes é encontrada em grandes números nesse lago pantanoso. “Não sei se é o marco zero da salvação de uma espécie", disse o biólogo Michael Tessler, do Museu Americano de História Natural, que pilotava um dos caiaques, “ou o marco zero de um imenso problema".

A roda d'água se alimenta de ostracoda, crustáceos sem casca, larvas de insetos, girinos e pequenos peixes. Quando uma presa toca em uma das armadilhas da planta, esta se fecha. Até recentemente, a planta era encontrada flutuando em lagos e reservatórios da Austrália, Ásia, África e Europa. Nos 150 anos mais recentes, quase 90% do seu habitat desapareceu, e seu status de sobrevivência aparece como extinto ou sem verificação em pelo menos 32 dos 43 países onde a espécie é encontrada naturalmente.

Em 2013, o ecologista Adam Cross, da Universidade Curtin, na Austrália, viajou até a Virgínia para estudar uma população recém-estabelecida de mais de 25 milhões de rodas d'água, que na época representavam mais do que toda a população restante no mundo somada. Na Virgínia, a roda d’água é listada entre as espécies mais invasivas, uma potencial ameaça para peixes e plantas locais. Em Nova Jersey a espécie está na lista de espécies invasivas perigosas, e é considerada invasiva também em Nova York.

Alguns botânicos enxergam as rodas d'água da região como sinal de esperança para a sua sobrevivência global. Outros especialistas tentam entender como uma espécie ameaçada pode ser também uma ameaça. A roda d'água não está sozinha na vida dupla de vítima ecológica e ameaça ambiental. No Sudeste Asiático, a píton birmanesa foi quase eliminada, mas, na Flórida, para onde foram importadas como animais de estimação, as autoridades lutam para impedir que as cobras dizimem as populações locais de animais. 

Nos Grandes Lagos dos Estados Unidos, os preservacionistas combatem a invasiva lampreia-marinha, pescada até o fim no sudoeste da Europa, seu hábitat original. E uma grande mamangava que está desaparecendo da Grã-Bretanha começou a vencer os rivais nativos na polinização na Argentina. Será possível reconciliar a ideia aparentemente paradoxal de uma espécie que está ao mesmo tempo na lista das ameaçadas de extinção e na de espécies invasivas? “É como um paradoxo perfeito", disse Cross. 

A roda d'água fez sua estreia americana em meados dos anos 1970, após trocas entre cultivadores japoneses e americanos. Cultivadores da Virgínia introduziram plantas japonesas aos lagos. Já no fim dos anos 1990, as rodas d'água transplantadas para a Virgínia tinham se consolidado em populações bem estabelecidas. Mais ou menos nessa época, Richard Sivertsen, cultivador de plantas carnívoras, decidiu trazê-la a Nova Jersey e Nova York. O filho dele, Kevin, disse, “Ele temia muito uma extinção da planta, que desapareceria da face da terra".

Os biólogos não sabem como a roda d'água se difunde. Tampouco sabem do que exatamente ela se alimenta nas águas locais, algo que ajudaria a quantificar a ameaça representada por ela, se é que existe alguma. Em um estudo de 2013 na Virgínia, os pesquisadores identificaram que as rodas d'água conseguem caber à razão de 1.260 fios por metro quadrado.

Mas a equipe concluiu que elas não estavam concorrendo com plantas aquáticas nativas. Entretanto, Cross destacou que uma população de milhões de fios poderia ameaçar invertebrados e outros animais. Em 2015, outro estudo na Virgínia alertou que, em um único ano, a espécie saiu do sítio de 27 acres e passou para os 155 acres de pântano abertos para atividades recreativas de pesca e navegação, atividades que podem levar a espécie a se espalhar ainda mais.

Em 10 países europeus, os cientistas tiveram sucesso ao reintroduzir a Aldrovanda em locais de onde a planta tinha desaparecido, disse o ecologista Lubomír Adamec, do Instituto de Botânica da Academia Checa de Ciências. Os cientistas também transplantaram a roda d'água para quatro países onde ela não aparecia naturalmente: Suíça, Alemanha, República Checa e Países Baixos.

Adamec disse que ele e outros pesquisadores europeus acreditam que o resgate de espécies ameaçadas vai depender cada vez mais de transplantes desse tipo. Isso ainda parece uma aposta para as autoridades que administram a vida silvestre nos EUA, para quem a prevenção antecipada é mais barata do que administrar uma invasão.

Depois que a roda d'água se estabelece, as opções de gestão são limitadas. Ainda que a coleta manual seja possível, basta um ou dois indivíduos para dar início a uma nova população. A alternativa é um herbicida que mata todas as plantas da área. Os especialistas sugeriram que a planta seja acompanhada, mas deixada em paz. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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