Bryan Denton / The New York Times
Bryan Denton / The New York Times

Plantações de dendezeiro ameaçam espécie de orangotango na Indonésia 

Em toda a ilha de Sumatra, no sudeste asiático, paisagens carbonizadas e terra chamuscada demonstram a devastação provocada pelos humanos

Hannah Beech, The New York Times

06 de julho de 2019 | 06h00

BUNGA TANJUNG, INDONÉSIA - Os homens avançaram contra Hope e seu filhote armados com lanças e pistolas. Mas ela se recusava a fugir. Não tinha para onde ir. Quando os estilhaços da munição da espingarda perfuraram os olhos de Hope, cegando-a, ela subiu tateando pelos troncos, com os dedos cobertos de pelo vermelho procurando frutos tropicais para seu sustento.

No fim, o torso de Hope sofreu cortes profundos. Múltiplos ossos foram quebrados. Setenta e quatro estilhaços ficaram alojados no seu corpo. O filhote de poucos meses foi levado. Hope, batizada em um centro de reabilitação, é um orangotango de Sumatra - espécie extremamente ameaçada que, de acordo com cientistas, pode ser a primeira dentre os hominídeos a se extinguir. 

Conforme selvas e pântanos são arrasados para dar lugar às plantações de dendezeiro, os orangotangos, cujo nome significa “povo da floresta” no idioma malaio, estão perdendo o hábitat que lhes confere sua identidade. Em toda a ilha de Sumatra, na Indonésia, paisagens carbonizadas de troncos enegrecidos e terra chamuscada demonstram a devastação provocada pelos humanos. “Cinquenta mil acres são desmatados, restando apenas algumas árvores; o orangotango olha ao redor e pensa: ‘O que houve com a minha floresta?’”, lamentou Ian Singleton, diretor do Programa de Preservação do Orangotango de Sumatra.

Indonésia e Malásia produzem mais de 80% do azeite de dendê do mundo, usado como biocombustível óleo de cozinha e ingrediente de artigos como batom e chocolate, entre muitos outros. Em setembro do ano passado, em meio a preocupações com a redução do hábitat das espécies ameaçadas e as perigosas emissões de carbono das grandes queimadas, a Indonésia parou de emitir novas licenças para plantações de dendezeiro.

“Dizem que há uma moratória, mas vejo com meus próprios olhos que terras são perdidas diariamente", afirmou Krisna, coordenadora da Unidade de Resposta a Conflitos entre Humanos e Orangotangos, grupo com sede em Sumatra que já resgatou mais de 170 orangotangos feridos desde 2012 (como muitos na Indonésia, Krisna não usa sobrenome).

Os orangotangos habitam duas ilhas, Bornéu e Sumatra. De 1999 a 2015, a população de orangotangos na ilha de Bornéu teve queda superior a 100 mil espécimes, de acordo com pesquisadores. Restam cerca de 100 mil orangotangos em Bornéu. Em Sumatra, onde mais da metade da cobertura florestal foi perdida desde 1985, há atualmente menos de 14 mil orangotangos.

Como as fêmeas deixam passar muito tempo entre os nascimentos dos filhotes - oito ou nove anos são dedicados à criação de cada filhote - os cientistas temem que a população já esteja em uma espiral decadente definitiva. Os orangotangos de menos sorte morrem nas queimadas iniciadas para limpar os terrenos para a plantação do dendezeiro. Os mais sortudos acabam isolados em pequenas ilhas de árvores em meio aos dendezeiros. Desesperados em busca de alimento, eles acabam invadindo áreas ocupadas pelos humanos. “Eles comem alguns frutos e acabam fuzilados", disse Singleton. “Nada é feito a respeito disso. Não há policiamento”.

Quando Hope apareceu no início do ano nos arredores do vilarejo de Bunga Tanjung, na província de Aceh, em Sumatra, parte da terra ainda estava fumegando. Organizadas fileiras de mudas de dendezeiro se estendiam até o horizonte. Confinada a uma faixa de mata secundária, Hope comia frutos dos pomares da vila. A maioria dos moradores de Bunga Tanjung é formada por imigrantes pobres de outras partes da Indonésia, atraídos pela demanda pelo azeite de dendê. “Sem o azeite de dendê, não podemos sobreviver", pontuou Sanita, prefeito de um dos distritos de Bunga Tanjung.

Mercado ilegal

Durante semanas, os aldeões atiraram contra Hope, tentando afugentá-la. Não deu certo. Ela era considerada uma praga de 45 quilos, mas o filhote dela era promissor. Ainda que a venda de espécies ameaçadas seja ilegal, filhotes de orangotango são frequentemente capturados para o mercado de animais de estimação, ou para zoológicos em busca de uma atração de peso. No cativeiro, os macacos aprendem a linguagem de sinais, e o exuberante som de seus “beijos" lembra um flerte.

Um filhote de olhos grandes e tufos de pelos cor de cobre pode valer até US$ 70 para os aldeões, de acordo com preservacionistas que rastreiam o comércio de espécies ameaçadas. Quando são vendidos a zoológicos ou proprietários particulares, os animais valem até 100 vezes mais.

A idade adulta desvaloriza os orangotangos cativos: parecem menos fofos e são mais fortes. Poucas pessoas dispõem de tempo e energia suficientes para dedicar a criaturas tão inteligentes. “Não pensamos em colocar humanos em jaulas tão pequenas que eles nem conseguiriam se mexer", comparou Harista, cuidador de um centro de resgate. “Por que fazemos isso aos orangotangos?”.

Em março, um adolescente de Bunga Tanjung rumou para um conjunto de árvores. Seu objetivo era tirar o filhote de Hope dos braços da mãe. Ainda que os estilhaços a tivessem privado da visão, Hope lutou para proteger o filhote, deixando arranhões nos braços do rapaz. Mas o adolescente finalmente conseguiu capturar o filhote, mantendo-o em um cesto do lado de fora de sua casa. Quando as autoridades florestais locais foram alertadas para a presença de Hope e prepararam uma operação de resgate, o filhote mal respondia, lembrou Krisna. 

Sanita apresentou uma versão diferente dos acontecimentos. Ele disse que Hope só esteve no vilarejo por poucos dias, contrariando as evidências de semanas de ninhos de orangotango construídos nas árvores próximas. Ninguém no vilarejo tinha atirado nela. “Jamais faríamos algo para ferir os orangotangos, ainda que eles nos incomodem", respondeu o prefeito.

Com Hope sedada na parte traseira de um veículo, com o filhote devolvido aos seus braços, Krisna correu até o centro de reabilitação de Singleton, perto da cidade de Medan, a 10 horas de distância. O filhote morreu no caminho. Um cirurgião suíço foi trazido para operar Hope, que está se recuperando. Por meio do toque, ela aprendeu a aceitar mamões e mamadeiras de leite.

Perto dali, orangotangos órfãos choram e grunhem. Quando ouve o barulho deles, Hope deita em posição fetal e grita. Os orangotangos partilham conosco quase 97% do seu DNA. Ainda assim, Hope estava de luto por causa da morte do filhote, e seu corpo ainda produzia leite. “O corpo de Hope foi quebrado, ela perdeu a visão e o filhote, e agora é apenas um animal selvagem em uma jaula", disse a veterinária Yenny Saraswati, do centro. “Não consigo imaginar uma situação mais estressante”.

Em Bunga Tanjung, a memória de Hope perdura. O adolescente que roubou o filhote foi interrogado pela polícia, mas, por ser menor de idade, não se sabe se ele será acusado formalmente. Nenhum adulto assumiu a responsabilidade pelo caso. O adolescente desistiu do sonho de se tornar mecânico e, agora, raramente volta para casa, de acordo com o pai, Aliong Sitepu. “Está sempre de mau humor. Não sei como conversar com ele”.

Aliong se indagou se seria hora de deixar este lugar, onde a aposta no fruto de uma palmeira africana não tinha produzido a fortuna esperada. Ele disse que uma fera laranja amaldiçoou sua família. “É um mundo muito injusto", indignou-se, “no qual a vida do meu filho vale menos que a de um orangotango”. / MUKTITA SUHARTONO CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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