Minzayar Oo para The New York Times
Minzayar Oo para The New York Times

Plástico ou barro? O melhor recipiente para água divide cidade de Myanmar

“Meu negócio está desaparecendo, mas nunca tomarei água de uma garrafa plástica. O sabor é ruim”, diz vendedor de potes de barro

Hannah Beech, The New York Times

19 de outubro de 2019 | 06h00

TWANTE, MYANMAR - Sempre que as carroças puxadas por bois transportavam passageiros e produtos para Yangon, uma cidade coberta da poeira no interior, as pessoas podiam contar com um refresco. Em muitas esquinas frequentemente à sombra de uma árvore, havia uma espécie de casa de boneca sobre estacas de pau. No seu interior, era possível encontrar um pote em formato de cúpula de barro coberto por um triângulo de folhas. O pote continha água potável.

Fresca sem a necessidade de refrigeração, doce com o gosto da terra, nada matava melhor a sede nos trópicos, segundo os moradores de Yangon, a maior cidade de Myanmar. “Eu só bebo água de um pote de barro”, disse Ma Aye Aye Them. “Quando tomo água de um recipiente plástico continuo com calor”.

A água costumava ser também uma indicação da hospitalidade para as pessoas de fora em um período em que a confiança era escassa. No ápice da ditadura militar que governou Myanmar por cerca de 50 anos, não precisava muito para a Divisão Especial, a polícia secreta, tornar um vizinho um informante.

E mesmo enquanto a cidade se desintegrava sob a junta, com pedaços de reboco caindo de edifícios outrora grandiosos rachando o crânio dos transeuntes, os potes de água continuaram a postos para os sedentos. Isto fazia parte de uma tradição de atos louváveis arraigados na cultura majoritariamente budista de Myanmar; aposentados, donas de casa ou quem quer que buscasse um crédito cármico com uma boa ação cuidavam para que os potes estivessem sempre cheios.

“Oferecer água a quem tem sede é um ideal budista de bondade para com o próximo”, explicou o abade budista U Candana Sara. Agora, muitos destes potes de barro desapareceram, substituídos, em alguns casos, por garrafas de plástico com canecas de lata presas por uma pequena corrente.

Algumas destas casinhas para quem necessita refrescar-se estão cheias de lixo ou abandonadas. Os potes de barro, pesados, mas frágeis, não são feitos para estilos de vida em movimento. O plástico está se tornando uma praga cada vez mais difundida. Garrafas de plástico descartáveis boiam nos rios de Irrawaddy e Yangon, ou acabam esmagadas sob as rodas dos carros de bois, assustando os animais.

U Nyunt Khin vive no distrito de Twante, nos arredores de Yangon, onde o Delta do Irrawaddy produz um barro rico, ideal para a fabricação de potes. Ele faz potes para água há 40 anos. Há uns dez, o seu negócio começou a degringolar. Naquela época, ele e a esposa faziam 400 potes por dia. Hoje, terá sorte se conseguir vender dez. “O meu negócio está desaparecendo, mas nunca tomarei água de uma garrafa plástica”, disse. “O sabor é ruim”.

“Em alguns lugares, as pessoas nunca oferecem água”, acrescentou Nyunt Khin. “Perdemos a nossa moral. Parece que voltamos à Idade da Pedra”. À noite, em Twante, na luminosidade do aparelho de televisão onde está passando uma novela, as mulheres trabalham, despejando água fervida em garrafas de plástico recuperadas. As garrafas cheias de água vão para uma geladeira.

Quando clientes mais jovens vêm apreciar a cerâmica de U Kyaw Soe, em Twante, já na quarta geração, ele precisa servir garrafas de plástico de água refrigerada. “Eles não estão acostumados com o gosto dos potes de barro”, disse. “Acham que têm gosto de terra”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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