Tony Cenicola/The New York Times
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Anahad O’Connor, The New York Times - Life/Style

08 de maio de 2021 | 23h30

Depois de um longo ano e muita expectativa, tomar a vacina contra a covid-19 é motivo de comemoração, o que para alguns pode significar beber muito para celebrar sua nova imunidade. Mas o álcool interfere na reação imunológica? A resposta breve é que vai depender da quantidade de álcool que você ingerir.

Não há evidências de que um drinque ou dois pode tornar qualquer das vacinas sendo aplicadas menos eficaz. Alguns estudos até concluíram que num prazo mais longo, quantidades pequenas ou moderadas de álcool beneficiam o sistema imunológico, reduzindo a inflamação.

Mas o consumo exagerado de álcool, particularmente a longo prazo, reprime o sistema imunológico e interfere na resposta do seu corpo à vacina, afirmam especialistas. Como são necessárias algumas semanas depois da vacina para o corpo gerar níveis de anticorpos que irão proteger contra o coronavírus, qualquer coisa que interferir na resposta do sistema imunológica é causa para preocupação.

“Se você bebe moderadamente, então não há riscos”, disse Ilhem Messaoudi, do Centro de Pesquisa da universidade da Califórnia, em Irvine, que realizou uma pesquisa sobre os efeitos do álcool sobre a resposta imunológica. “Mas o que importa realmente é saber o que é beber moderadamente. É arriscado beber muito álcool porque os efeitos sobre todos os sistemas biológicos, incluindo o imune, são graves e ocorrem muito rápido quando você passa do limite”.

Beber moderadamente, em geral, é definido como não passar de dois drinques por dia, no caso dos homens, e um drinque por dia, para as mulheres. Tenha em mente que consideramos um drinque “padrão” 5 onças (147,87 ml) de vinho, 1,5 onça (44,35 ml) de bebida destilada e 12 onças (354,88 ml) de cerveja.

Algumas das primeiras preocupações no tocante ao álcool e a vacina começaram a circular depois de uma autoridade de saúde russa alertar em dezembro que as pessoas deviam evitar o álcool durante duas semanas antes de serem vacinadas e se abster por outros 42 dias após a vacinação.  De acordo com artigo da Reuters, a autoridade afirmou que álcool impede a capacidade do corpo de desenvolver uma imunidade contra o coronavírus. Seu alerta provocou uma forte reação contrária na Rússia, país que registra uma das maiores taxas de consumo de bebida do mundo.

Nos Estados Unidos, alguns especialistas dizem ter ouvido preocupações similares quanto a beber na época de ser vacinado. “Temos recebido muitas perguntas dos nossos pacientes sobre isso”, disse a Dra. Angela Hewlett, professora de doenças infecciosas que dirige a equipe que estuda a covid-19 no Centro Médico da Universidade de Nebraska. “Compreensivelmente, as pessoas que estão recebendo a vacina querem ter certeza de que estão fazendo tudo o que é correto para maximizar sua resposta imunológica”.

Os ensaios clínicos das vacinas que foram aprovadas pela agência americana FDA não examinaram especificamente se o álcool tem algum impacto sobre a eficácia do inoculante, disse a professora. É possível que no futuro teremos mais informações a respeito. Mas, no momento, o máximo que sabemos vem de pesquisas anteriores, incluindo estudos que examinaram como o álcool afeta o sistema imune nos humanos e se ele inibe a resposta imunológica em animais que receberam outras vacinas.

O que está claro com base nos estudos é que o consumo exagerado de álcool debilita a resposta imunológica e aumenta sua suscetibilidade a infecções bacterianas e virais. Impede as células de viajarem para os locais infectados e realizarem seu trabalho, como destruir vírus, bactérias e células infectadas; e torna mais fácil para os patógenos invadirem suas células, além de causar uma série de outros problemas.

Beber moderadamente, pelo contrário, não parece ter esse efeito. Num estudo, 391 pessoas foram expostas a cinco vírus respiratórios diferentes e a conclusão foi de que os que consumiram bebida moderadamente estavam menos propensos a desenvolver resfriados, mas não no caso dos fumantes.

Em outro estudo, Messaoudi e seus colegas forneceram bebidas alcoólicas a macacos rhesus durante sete meses e, em seguida, examinaram como seus corpos reagiram a uma vacina contra o poxvirus. De modo muito similar aos humanos, alguns macacos gostaram da bebida e beberam muito, outros mostraram menos interesse e se limitaram a uma pequena quantidade. Os animais que ingeriram muita bebida tiveram uma resposta fraca à vacina. “Praticamente, não havia nenhuma resposta imunológica”, disse Messaoudi.

Os animais que consumiram uma quantidade moderada de álcool geraram uma forte resposta à vacina, mesmo em comparação com os que não ingeriram nenhuma bebida. Em estudos em ratos, o padrão foi similar. Os que consumiram muito álcool tiveram uma resposta imunológica fraca a infecções em comparação com os que ingeriram uma quantidade moderada e os que se abstiveram de qualquer bebida. Outros estudos concluíram que, quando as pessoas bebem de maneira moderada, apresentam marcadores inflamatórios menores no sangue.

Outra razão para moderar o álcool é que o consumo exagerado, juntamente com a ressaca posterior, potencialmente amplifica os efeitos colaterais da vacina contra a covid, incluindo febre, mal-estar ou dores no corpo, disse Hewlett, do Medical Center da universidade de Nebraska. Mas segundo ela, essas pessoas podem se sentir livres para beber desde que bebam com moderação.

“Uma taça de champanhe provavelmente não inibe uma resposta imunológica. Acho que beber para comemorar, mas moderadamente, é ótimo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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