The New York Public Library, Fundações Astor, Lenox e Tilden
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Pode ser um anúncio, mas não deixa de ser arte

Apesar do destaque da fotografia e da moda na roda cultural, eles permanecem marginalizados em alguns museus - realidade que o Getty espera mudar

Vanessa Friedman, The New York Times

08 Julho 2018 | 10h45

Nas colinas acima de Los Angeles, no museu J. Paul Getty, o filho bastardo do mundo das belas artes está finalmente recebendo a atenção que lhe é devida.

“Ícones do estilo: um século de moda na fotografia, 1911-2011” pode ser o maior levantamento do tipo feito nas décadas mais recentes, apresentando 198 obras (fotografias, capas de revista, campanhas publicitárias).

“Dovima com elefantes", de Richard Avedon, foto de 1955 mostrando um vestido de gala Dior em meio aos paquidermes, que se tornou a fotografia de moda mais cara já vendida num leilão ao ser arrematada por mais de US$ 1 milhão na Christie’s em 2010, está na exposição. 

A foto de Erwin Blumenfeld mostrando Lisa Fonssagrives num vestido Lucien Lelong pendurada na lateral da Torre Eiffel, cuja reprodução pode ser vista nas paredes de muitos quartos, também está. E o mesmo vale para o anúncio de Bruce Weber de 1982 para a Calvin Klein com a silhueta de Tom Hintnaus de cuecas contra uma estrutura branca em forma de falo. Houve uma época em que essa imagem parou o tráfego em Times Square.

Ainda assim, a exposição não é abrangente: seu foco são obras das quatro capitais tradicionais da moda: Nova York, Paris, Londres e Milão. E vai até 2011, quando Instagram e Snapchat transformaram fotógrafos em “criadores de imagens", disse o curador Paul Martineau, do museu Getty, que organizou a exposição.

A exposição é um lembrete do quanto ainda restam dúvidas quanto ao lugar deste tipo de obra num museu, apesar de todo o crescente prestígio tanto da fotografia quanto da moda.

“A fotografia teve que lutar para ser levada a sério, e a fotografia de moda ainda mais", disse Nick Knight, fundador do site de filmes de moda SHOWStudio, que tem três obras no museu.

São fotos que, na maioria dos casos, foram vistas pela primeira vez nas páginas de revistas (publicações mensais descartáveis). Representam o oposto do eterno, um valor que, em tese, está no coração do universo da arte.

Embora haja pouca dúvida do quanto nomes como Avedon, Penn e Newton transcenderam suas raízes, o que a exposição propõe é que não havia raízes a transcender. Ao tirar as fotos da página e pendurá-las na parede, Martineau as liberta das associações que fazemos inconscientemente com a ideia das revistas de moda e campanhas publicitárias.

Martineau nos permite vivenciar o poder de colocar uma mulher de paletó e salto alto em meio aos destroços do bombardeio a Londres, como fez Cecil Beaton em 1941; ou a distorção numa foto de Neal Barr feita a partir de uma perspectiva baixa, que reflete a revolução nos costumes vivida nos anos 1960.

Mas são as fotos mais difíceis de reconhecer que parecem atrair mais o olhar.

Temos um anúncio de Anton Bruehl para a Bonwit Teller de 1932 criado para mostrar “roupas esportivas feitas sob medida”: vemos uma mulher usando uma espécie de meia-calça de corpo inteiro, com a cabeça sombreada por um braço erguido, uma silhueta que lembra estátuas da Grécia.

E temos uma foto de Louise Dahl-Wolfe de 1945 mostrando uma modelo vestindo um maiô Claire McCardell, deitada na areia, com a cabeça oculta num lenço. Ninguém repara no maiô, que desaparece com o efeito da perspectiva.

“É uma composição que chama a atenção de todos", disse Martineau. “É como se dissesse: ‘Aproxime-se de mim, venha me examinar’.” Ele poderia acrescentar: trate-me com o respeito que mereço.

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