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Tish Harrison Warren, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00

Neste verão (no hemisfério norte), por diversão, fiz um curso de poesia direcionado a líderes cristãos. Doze de nós nos encontramos pelo Zoom para ler poemas e discutir a interseção entre nossa fé, vocações e a poesia.

Comparamos de Prayer, de George Herbert, a Prayer, de Christian Wiman. Discutimos Island, de Langston Hughes, Yet Do I Marvel, de Countee Cullen e Musée, de Scott Cairns para analisar o sofrimento e o problema do mal. Lemos sobre o medo da morte de Philip Larkin e o que ele vê como as falhas da crença religiosa em seu poema “Aubade”. Foi a parte favorita do meu verão.

Em nossa primeira aula, nos revezamos para compartilhar o que nos levou a dedicar tempo à poesia. Desajeitadamente tentei explicar meu anseio por versos: Eu tenho fome de uma realidade transcendente – o bom, o verdadeiro, o belo, essas coisas que, de alguma forma, estão além de uma mera discussão. Frequentemente, como escritora, pastora, ou simplesmente uma pessoa no mundo online, acho que minha vida é dominada pelo debate, pela controvérsia e praticamente por estranhos discutindo sobre política ou a doutrina da igreja. Esse ano que passou, particularmente, foi marcado por animosidades e divisões. Estou exausta com tanto rancor.

Neste lugar cansado e vulnerável, a poesia sussurra verdades que não podem ser confinadas à mera racionalidade ou experiência. Em um mundo aparentemente destruído, sou atraída por Autumm, de Rainer Maria Wilke e me lembro que “há Alguém que segura essa queda/ Infinitamente suave em Suas mãos.” Quando as escrituras parecem estagnadas, James Weldon Johnson prega através de The Prodigal Son e ouço a velha parábola novamente. Em domingos cansativos, eu desabo sobre os Sabbath poems de Wendell Berry e encontro descanso.

Não estou sozinha em meu interesse nessa forma antiga de arte. A poesia parece estar voltando. De acordo com uma pesquisa de 2018 da National Endowment for the Arts, o número de adultos que leem poesia quase dobrou em cinco anos, atingindo o maior número registrado nos últimos 15 anos. A poeta Amanda Gorman roubou a cena na cerimônia presidencial de posse este ano, e sua coleção The Hill We Climb chegou à lista dos mais vendidos na Amazon.

Não há uma razão simples ou única para esse ressurgimento. Mas eu acho que um dom particular da poesia em nosso momento é que bons poemas recuperam o poder e a graça das palavras.

As palavras parecem onipresentes agora. Carregamos um mundo de palavras conosco a todo momento em nossos smartphones. Interagimos com nossa família através da palavra escrita em e-mails, textos e posts do Facebook. Mas com nossa recém-descoberta habilidade de transmitir qualquer palavra, a qualquer momento, podemos desvalorizá-las.

"Como qualquer outro recurso de manutenção da vida", Marilyn Chandler McEntyre escreve em seu livro Caring for Words in a Culture of Lies, “a linguagem pode estar esgotada, poluída, contaminada, erodida e cheia de estimulantes artificiais". Ela argumenta que a linguagem precisa ser resgatada e restaurada, e nos direciona para a prática da leitura e da escrita poética como um meio de fazer isso. Os poemas, ela diz, “treinam e exercitam a imaginação” para “promover paz” porque “o amor da beleza está profundamente ligado ao amor à paz”.

De fato, em nossa era de redes sociais, as palavras são constantemente usadas como armas. A poesia, ao contrário, trata as palavras com cuidado. Elas são lentamente trabalhadas como lanternas – coisas que podem iluminar e guiar. O debate certamente tem importância. As opiniões importam. Mas quando as controvérsias urgentes do dia parecem ser tudo que se pode dizer sobre a vida, a morte, o amor ou Deus, a poesia me lembra dessas verdades misteriosas que não podem ser reduzidas apenas a um pensamento linear.

A própria poesia pode levar a um debate inteligente, é claro. Mas mesmo a poesia didática – a poesia que traz uma opinião – faz isso de uma maneira mais criativa, meticulosa e atraente do que geralmente vemos em nossos acalorados discursos públicos.

Também acho que somos atraídos pela poesia por outra razão: os poemas diminuem nosso ritmo. Meu professor de poesia neste verão, Abram Van Engen, um professor de inglês na Washington University em St. Louis, me lembrou que a poesia é a “arte de prestar atenção”. Em uma época em que nossa atenção está mercantilizada, quando as corporações fazem dinheiro capturando nosso olhar e segurando-o pelo maior tempo possível, muitos de nós nos sentimos sobrecarregados pelas notificações, ocupações e barulhos de nossas vidas. A poesia nos chama de volta para observar e participar do mundo ao nosso redor e para nossas vidas internas.

Dessa forma, a poesia é como a oração, uma comparação que muitos já fizeram. Tanto a poesia como a oração nos lembram de que há mais a dizer sobre a realidade do que o que pode ser dito em palavras, embora, em ambos os casos, utilizamos palavras para vislumbrar o que está além delas. E ambas abrem espaço para nomear nossos anseios, lamentações e amores mais profundos. Talvez seja por isso que a poesia dos Salmos se tornou o primeiro livro de orações da igreja.   

Estou tentando trazer mais leitura de poesia para minha vida diária. Ler novos poemas pode ser intimidador, mas imagino que a única forma de entender poesia de maneira errada é evitá-la completamente. O que ajuda é que as poesias são geralmente curtas e rápidas de ler, então as coloco nas brechas do meu dia – alguns minutos antes de dormir ou na calmaria de uma tarde de sábado.   

Durante o último ano escolar, com meus filhos em casa por causa das precauções contra a Covid, empilhávamos livros de poesia em nossa mesa uma vez por semana (Shel Silverstein, Shakespeare, Nikki Grimes, Emily Dickinson), comíamos biscoitos e líamos poesia em voz alta. Agora sempre tento manter alguns livros de poesia por perto.

Em um de meus poemas favoritos, “Pied Beauty”, Gerard Manley Hopkins escreve sobre uma beleza que está “além da mudança”. Neste mundo onde nossa paisagem política, tecnológica e social muda em uma velocidade acelerada, muitos de nós ainda anseiam silenciosamente por uma beleza além da mudança. A poesia é, então, uma espécie de grito coletivo nos chamando para além daquilo que mesmo nossas melhores palavras podem dizer. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

*Tish Harrison Warren (@Tish_H_Warren) é bispa na Igreja Anglicana na América do Norte e autora de “Prayer in the Night: For Those Who Work or Watch or Weep.” Tem algum feedback? Escreva para HarrisonWarren-newsletter@nytimes.com.

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