Ruth Fremson The New York Times
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Vivendo 'presos' em uma cidadezinha com fronteiras fechadas pela pandemia

Moradores costumavam participar da cena cultural diversificada de Vancouver, mas agora com as fronteiras fechadas, eles estão presos em sua pequena cidade

Ruth Fremson, The New York Times – Life/Style

18 de setembro de 2020 | 05h00

POINT ROBERTS, WASHINGTON - Uma casa que por muito tempo parecia um paraíso, começa a ficar mais parecida com Alcatraz. A cerca de 1.300 metros quadrados na parte sul da Columbia Britânica, com a visão do Monte Baker e seu cume coberto de neve a leste, e as Ilhas San Juan ao sul, Point Roberts está desligado do restante do estado de Washington.

Não muito distante do sul de Vancouver, a cidade é uma relíquia do Tratado do Oregon de 1846, que estabeleceu a fronteira setentrional do então Território do Oregon no 49º paralelo. Para ir de Point Roberts até o restante dos Estados Unidos é preciso cruzar duas fronteiras internacionais com cerca de 40 quilômetros de automóvel entre uma e outra. O isolamento é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição durante uma pandemia.

Apesar de não ter sido registrado nenhum caso de coronavírus até o momento, Point Roberts será talvez o último lugar dos Estados Unidos a retornar ao normal porque o governo canadense estendeu o fechamento de sua fronteira internacional mês a mês desde que fechou, no dia 21 de março. Somente as pessoas com motivos considerados essenciais têm permissão para atravessar a fronteira, e a ordem deve ser cumprida rigorosamente. Os poucos negócios em Point Roberts dependem do comércio com o outro lado da fronteira.

Os turistas canadenses e os moradores sazonais geram 90% da sua receita anual. Alguns dos cerca de 1.300 moradores fixos, temem que, se o fechamento continuar, nunca mais possam reabrir. Brian Calder, de 79 anos, cuja família chegou à região em 1895, prevê que “Point Roberts se tornará uma cidade fantasma até meados do próximo ano”. Há parques nos quatro cantos da região.

As crianças perambulam entre os cedros ao longo da Trilha da Floresta Encantada decorada com figuras de gnomos e fadas. Da praia, avistam-se baleias, e cabritos monteses vagueiam entre os bangalôs enfeitados de flores e protegidos por arbustos de amoras silvestres cobertos de espinhos. As pessoas se cumprimentam com acenos de mão ao passar de automóvel, dirigindo-se para o único supermercado do lugar.

Há gerações, os canadenses viajam para o sul onde têm casas de veraneio. Ancoram seus barcos na marina, jogam golfe nos campos públicos e jantam nos restaurantes. Outros cruzam a fronteira para comprar gasolina e leite mais baratos em Point Robert. Recolhem pacotes, em geral da Amazon, que entregam a uma das sete lojas de despachos – evitando as dispendiosas taxas internacionais.

Allan White, um dos poucos canadenses que passam o verão em Point Roberts, estava no Parque Maple Beach olhando para o norte, tentando avistar o seu edifício em condomínio na distância. Ele acha que a fronteira deveria ser fechada e está disposto a cumprir os 14 dias de quarentena quando voltar para casa.

“Acho que os canadenses lidaram com a covid muito melhor do que os americanos, o que é muito estranho de se dizer, porque são o país mais poderoso e mais inteligente do mundo que conhecemos, e eles apoiam o Brasil”, ele disse. A maioria dos canadenses ficou longe. A marina está com menos da metade da sua capacidade normal; quando a fronteira fechou, muitos proprietários canadenses tiraram seus barcos da marina.

Os coiotes perambulam pelas trilhas escuras do campo de golfe. No meio do cascalho, nas entradas das casas fechadas, o mato já cresceu uns 60 centímetros. Somente o Café Saltwater está aberto durante a semana, mas isto talvez não dure muito, segundo a proprietária, Tamra Hansen, que continua trabalhando e perdendo dinheiro.

Se todas as empresas fecharem, ela disse, “os jovens não terão onde trabalhar e irão embora. Esta acabará se tornando uma comunidade de aposentados”. Point Bob, como os moradores a chamam, sempre se sentiu transcultural. Muitas crianças vão para a escola do outro lado da fronteira, em Tsawwassen, a 10 minutos de carro, ou com o ônibus escolar para Baine, Washington, a cerca de 40 quilômetros de distância.

Os moradores participam da vida cultural de Vancouver que é mais variada, vão ao teatro ou assistem aos concertos da orquestra sinfônica. Eles agradecem pelo fato de o vírus não os terem molestado. De início, eles riam quando o noticiário descrevia a cidade como o lugar mais seguro dos EUA.

Mas como o fechamento da fronteira foi sendo estendido repetidamente, este conceito começa a se desgastar. Quando foi anunciado que as crianças não poderiam mais cruzar a fronteira para ir à escola, os pais se uniram em uma campanha e escreveram uma carta, assim como outros da comunidade que já estavam pedindo às autoridades que reconhecessem a situação peculiar da área.

Recentemente, o governador Jay Inslee entrou na campanha, e enviou uma carta ao primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, na esperança de encontrar uma solução para os moradores de Point Roberts. Daryl Marquette, proprietário da TSB Shipping Plus com sua esposa, Bobbie, disse: “Noventa e nove por cento dos nossos clientes são canadenses, por isso dependemos da abertura da fronteira. Sem eles, não temos movimento algum”.

O casal estava tão orgulhoso quando se tornou tão bem-sucedido a ponto de oferecer seguro saúde aos funcionários. Depois que a fronteira fechou, dez deles saíram. “Com absolutamente nenhuma receita não poderíamos continuar pagando isso”, afirmou Marquette. “Quando dissemos aos nossos funcionários que teriam de pagar o seguro saúde dos seus bolsos foi um dos piores dias para nós”.

Bobbie se preocupa por eles, sabendo que terão de apelar para o banco de alimentos para conseguir ajuda. Scott Ellinston, de 44 anos, ex-funcionário do TSB Shipping, fica furioso quando ouve os políticos dizerem que o seguro-desemprego constitui um desincentivo para trabalhar. Está muito difícil agora que os US$ 600 de benefício federal semanal estão sendo gradativamente reduzidos. Ele e sua esposa esvaziaram suas poupanças e tiveram de pedir dinheiro emprestado da família.

“Não posso encontrar outro emprego porque cruzar a fronteira para trabalhar também não é essencial”, escreveu em um e-mail. “Por isso, vou ficar parado aqui até a fronteira abrir. A situação está ficando assustadora. “Tento não deixar minha esposa perceber como esta coisa está me corroendo. Tento me fazer de forte. Mas até as pedras quebram. “/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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