Esther Horvath para The New York Times
Esther Horvath para The New York Times

Um navio à deriva para estudar o gelo ártico e as mudanças climáticas

O mar, o vento e a neve guardam segredos a respeito do aquecimento global

Henry Fountain, The New York Times

07 de outubro de 2019 | 06h00

TROMSO, NORUEGA - O Polarstern, um navio quebra-gelo alemão de 120 metros de comprimento carregado com mais de 450 toneladas de equipamentos científicos, deixou o porto em 20 de setembro.

A embarcação navegou na direção leste por duas semanas, até o Mar de Laptev, ao norte da Sibéria Central, na maior e mais ambiciosa expedição de pesquisa da mudança climática já vista no Ártico. Lá, o Polarstern atracou ao lado de uma geleira - uma vastidão de gelo intacto, escolhida após análises de imagens de satélite -, desligou os motores e se deixou congelar.

Se tudo correr bem, o Polarstern vai flutuar com a geleira ao longo de uma rota impulsionada pelos ventos conhecida como correnteza transpolar, que toma a direção do polo, atravessando-o e rumando, finalmente, em direção ao sul, chegando ao Estreito do Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago de Svalbard, cerca de 12 a 14 meses após a partida.

“Vamos simplesmente seguir o rumo do gelo”, afirmou Markus Rex, um dos líderes da expedição de US$ 155 milhões e pesquisador de física atmosférica do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha. Organizada pelo instituto, a expedição envolve cientistas de 19 países e foi planejada por cinco anos.

O Polarstern se tornou um centro de pesquisas, o Observatório Flutuante Multidisciplinar para o Estudo do Clima do Ártico, ou Mosaico, conforme a sigla em inglês. Especialistas em ciências do Ártico - mais de 60 sempre a bordo, além dos 40 tripulantes - utilizarão instrumentos instalados no navio e no gelo, com alguns equipamentos autônomos instalados a cerca de 50 quilômetros.

Os estudos - envolvendo atmosfera, oceano, gelo, neve e as interações entre esses elementos - serão todos focados em um objetivo: um melhor entendimento de como o aquecimento global afetará a região, atualmente e no futuro.

Enquanto o mundo inteiro está se aquecendo, o Ártico está esquentando em um ritmo cerca de duas vezes mais rápido do que outras regiões. Entre os impactos, a camada de gelo sobre o mar está se transformando, ficando menos extensa e mais fina, conforme o Ártico se aquece.

“Precisamos entender o que está provocando essa rápida mudança climática”, afirmou Rex, “e temos de ter uma base sólida para nossos modelos científicos”. 

A incerteza é resultado da falta de dados, afirmou Allison Fong, uma oceanógrafa do instituto e líder da equipe da expedição que estudará o ecossistema do Alto Ártico, das bactérias e vírus presentes na água e no gelo até os peixes.

A região polar do Ártico é uma das partes mais remotas do planeta, acessível para embarcações somente em poucos meses do verão, quando grande parte do gelo derrete.

Ao flutuar com a geleira, a expedição deve ser capaz de obter dados ao longo de todo o ciclo anual do crescimento e do derretimento do gelo no mar. “Essa é uma das grandes qualidades do Mosaico - ficaremos aninhados lá por um ano”, afirmou a Dra. Fong.

Permitir que a embarcação de pesquisa flutue pelo Alto Ártico por um ano - o que só foi realizado uma vez na história, pelo explorador Fridjof Nansen, a bordo do navio de madeira Fram, na década de 1890 - representa enormes desafios, e o pior não é o fato de, por algumas semanas, a expedição ser obrigada a operar em meio à total escuridão polar.

Mesmo sob a luz do dia, porém, as explorações sobre o gelo serão estritamente controladas e, em razão da possibilidade de visitas de ursos polares, seguranças armados estarão presentes, para serem acionados como último recurso. Muitos dos integrantes da expedição passaram por treinamento de sobrevivência e outras técnicas.

A maioria dos cientistas trabalhará por períodos de dois meses a bordo do navio antes de sua substituição, e toda a equipe será trocada na metade da expedição. A troca de pessoal e o reabastecimento do Polarstern exigirão longas viagens de outros quebra-gelos vindos da Rússia e da China e, em algum momento do ano que vem, quando uma pista de pouso tiver sido construída na geleira, próximo ao navio, serão realizadas viagens de avião. 

A expedição tem de ser capaz de lidar com a maioria dos problemas que aparecerem - exceto emergências médicas que envolvam risco de vida - por conta própria. Em uma visita ao navio, um primeiro-oficial apontou para um contêiner para dar um exemplo. Dentro do compartimento havia peças de reposição para os aviões que servirão à expedição, para que as aeronaves não fiquem presas em razão de eventuais problemas mecânicos.

Jessie Creamean, pesquisadora da Universidade Estadual do Colorado, levou peças de reposição para seus instrumentos. “Temos que estar preparados de verdade”, disse a Dra. Creamean. “Por lá não podemos simplesmente encomendar algo pela Amazon.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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