Brett Gundlock para The New York Times
Brett Gundlock para The New York Times

Polícia conquista a confiança de uma cidade mexicana

Em Morelia, capital do violento Estado de Michoacán, novo tipo de vigilância baseia-se em ouvir as queixas da população

Paulina Villegas, The New York Times

12 Setembro 2018 | 15h00

MORELIA, MÉXICO - A policial Marcela Muñoz foi à reunião de moradores preocupados, reunidos na calçada de um bairro de classe média, em Morelia, com uma missão inusitada: ouvir.

“Então, o que está acontecendo?”, perguntou ao grupo de mais de 20 pessoas que haviam sido convidadas para conversar com ela. Em seguida, cada uma falou dos seus temores, como a venda de drogas na área, a ação dos vândalos e as bebedeiras em locais públicos, enquanto a policial tomava nota das queixas.

Quando foi embora, com a promessa de enviar viaturas para patrulhar a área, recebeu aplausos e o convite para voltar para comer tamales, um tipo de pamonha.

“Estamos aqui para ajudar”, ela disse, e pediu à população que continuasse em contato por meio dos grupos de WhatsApp.

No México, o povo não costuma confiar na polícia, mal paga e mal treinada, ou tem medo dela. E acha que não só é incapaz de fazer frente à violência, mas também é a própria causa dela - na melhor das hipóteses, é cúmplice das infrações rotineiras, por exemplo, ao exigir propinas nos pontos de tráfico, e, na pior, é cooptada pelas gangues criminosas. Isto é particularmente evidente no Estado de Michoacán, o centro da guerra da droga do país.

A reunião da policial Muñoz faz parte de uma iniciativa de Bernardo León, professor e escritor que se tornou comandante da polícia. O seu plano é transformar os policiais de Morelia em uma força qualificada, bem-recebida pelos moradores.

Iniciado há três anos, o programa apresentou resultados. Em 2017, o ano em que foi registrado o maior número de mortes das últimas décadas no México, os assassinatos também aumentaram em Michoacán. Mas em Morelia, a capital do Estado, o número de homicídios caiu 18% em comparação ao ano anterior. Os especialistas afirmam que a experiência de Morelia com o policiamento da comunidade deveria fazer parte de uma estratégia abrangente em âmbito nacional.

Casos emblemáticos, como o desaparecimento, em 2014, de 43 estudantes atacados por policiais ligados a uma gangue da droga traumatizaram os mexicanos e mancharam sua imagem de um povo respeitador da lei.

Uma força policial local como a de Morelia “não pode, evidentemente, solucionar a questão dos cartéis”, disse León, que foi nomeado para o cargo em 2015. “O que nós podemos fazer é tratar dos problemas que as pessoas comuns enfrentam no seu dia a dia”.

León contratou psicólogos, advogados e assistentes sociais para intermediar o conflito. Também inaugurou centros que oferecem assistência médica e psicológica às vítimas. A policial Muñoz dirige esses centros, em que as mulheres constituem cerca da metade da sua equipe. As que sofrem abusos domésticos sentem-se mais à vontade falando com outras mulheres.

León criou novos tribunais civis para contravenções. Ali, cidadãos acusados de crimes menores podem pagar multas e receber sentenças que incluem a realização de serviços para a comunidade ou participar das reuniões dos Alcoólicos Anônimos.

Mas a inovação mais importante é talvez o fato de oferecer aos cidadãos a possibilidade de apresentarem suas queixas criminais ao policial de serviço, em lugar de ter de falar com o promotor local, o que faz com que muitos deixem de denunciar os crimes. Segundo o governo, 92% dos crimes não são denunciados no México. Entretanto, o número dos crimes denunciados à polícia de Morelia subiu de 435, em 2016, para 5 mil, em 2017.

León usou recursos federais para aumentar a força de 120 policiais para 614, e para oferecer benefícios. Mas o dinheiro foi insuficiente para aumentar os salários, que começam em US$ 500 por mês.

Segundo alguns especialistas, parte do sucesso de Morelia é consequência da atuação dos militares na proteção da cidade das poderosas gangues da droga. A operação foi ampliada no ano anterior a nomeação de León.

“A maioria dos chefes de polícia herda grandes forças que sofrem de consideráveis problemas, e muitos deles já trabalham para as gangues de narcotraficantes locais”, afirmou Eduardo Guerrero, analista de segurança da Cidade do México. “Morelia não é o México”.

Mas os policiais são pessoas determinadas. Quando Jessica Gutiérrez disse à família que queria ir para a academia de polícia, eles rejeitaram e ridicularizaram a ideia.

“Agora, eles me chamam toda hora para ajudá-los a solucionar todo tipo de problemas”, disse a policial Gutiérrez, uma psicóloga de 26 anos. “Eu me dei conta de que, se posso mudar a perspectiva da minha família, também posso mudar a do restante da sociedade”.

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