Sarah Pabst para The New York Times
Sarah Pabst para The New York Times

Crise econômica argentina pode trazer populismo de volta ao poder

Fracasso do governo Macri abre as portas para a volta do populismo no país

Peter S. Goodman, The New York Times

02 de junho de 2019 | 06h00

GREGORIO DE LAFERRERE, ARGENTINA - A tinta azul turquesa está se descascando das paredes da casa de Claudia Veronica Genovesi. Há goteiras no teto, mas ela e o marido - ambos faxineiros de escritório - não têm dinheiro para o conserto. Nas ruelas da favela do outro lado da rua, onde latrinas jazem ao lado de barracos feitos com pedaços de chapas de zinco enferrujadas, famílias desistiram de esperar que o saneamento básico chegue até elas.

Não é difícil encontrar uma explicação para a piora na sua qualidade de vida: depois de assumir o governo, há mais de três anos, o presidente Mauricio Macri rompeu com o populismo que pesava no orçamento e dominou a Argentina por boa parte dos 100 anos mais recentes, adotando a ortodoxia econômica.

Macri cortou os subsídios à eletricidade, ao combustível e ao transporte, provocando uma explosão nos preços, o que levou Claudia Veronica, 48 anos, a cancelar recentemente o serviço de gás. Como a maioria de seus vizinhos, ela usa uma instalação clandestina para acessar a rede elétrica. "É um governo neoliberal", disse. "Um governo que não favorece a população".

Os desafios enfrentados sob os tetos dos pobres são uma dimensão previsível do rompimento de Macri com o populismo de esquerda dos governos anteriores. Ele prometeu reduzir os déficits da Argentina encolhendo a generosidade do estado. O problema é que os argentinos ainda não foram beneficiados pela esperada retomada econômica que se seguiria ao momento doloroso.

Os defensores de Macri caracterizaram a eleição dele em 2015 como o início de um período de normalidade em um país conhecido pelo histrionismo. Ele acabaria com os gastos irresponsáveis que tinham conferido à Argentina a má reputação de um país que declarou moratória oito vezes. A austeridade conquistaria a confiança dos financistas internacionais, trazendo investimentos que resultariam em empregos e novas oportunidades.

Mas enquanto Macri busca a reeleição este ano, a economia está em contração. A inflação passa dos 50%, e o desemprego não cai abaixo da marca de 9%. A pobreza afeta um terço da população, e essa proporção está aumentando.

Em boa parte da América do Sul, governos de esquerda assumiram o poder nas décadas mais recentes como um furioso corretivo contra as receitas dogmáticas do Fundo Monetário Internacional, que consideravam a confiança dos investidores globais a chave para o desenvolvimento.

O populismo de esquerda buscou redistribuir o lucro dos ricos para o restante da população. Isso ajudou os pobres, mas gerou seus próprios problemas - corrupção e depressão econômica no Brasil, inflação descontrolada e desastre financeiro na Argentina. Na Venezuela, o gasto desenfreado transformou o país dono da maior reserva mundial de petróleo em uma terra onde crianças passam fome.

O mandato de Macri deveria proporcionar uma fuga desse desastre dos gastos descontrolados e, ao mesmo tempo, abrir um caminho alternativo para os países que enfrentam a ascensão mundial do populismo. Agora, a presidência dele corre o risco de se tornar um portal de volta ao populismo.

Para a eleição de outubro, Macri esperava disputar com a presidente que o antecedeu, Cristina Fernández de Kirchner, que enfrenta uma série de acusações criminais por corrupção. Em vez disso, ela anunciou que se candidataria como vice-presidente ao lado de Alberto Fernández. Os gastos descontrolados de Cristina ajudaram a produzir a crise herdada por Macri. Uma derrota de Macri nas urnas soaria como uma recusa de suas reformas voltadas para o mercado, potencialmente arrastando a Argentina de volta ao populismo de esquerda, muito próxima da insolvência.

O peso argentino perdeu metade de seu valor em relação ao dólar no ano passado, levando o banco central a subir os juros acima de 60%, sufocando o comércio. A Argentina foi obrigada a pedir um resgate de US$ 57 bilhões ao FMI.

Para Macri, o tempo parece estar se esgotando. Os cortes nos gastos aprovados por ele atingiram a população imediatamente. Os benefícios prometidos de suas reformas - moeda estável, inflação sob controle, novos investimentos e empregos - podem levar anos para se materializar, o que deixa os argentinos furiosos e saudosos do passado.

Cultivo da riqueza

Há um século, a Argentina estava entre os países mais ricos do planeta. Para o agricultor Roque Tropini, esse status era resultado do trabalho de pioneiros como seu avô, que chegou da Itália ao estado de Entre Rios e obteve sua prosperidade a partir da terra.

Em uma tarde, Tropini, 69 anos, passou de carro pelo moinho de tijolos que o avô ergueu em 1920, perto do que era então uma parada solitária em uma nova estrada de ferro. Deteve-se diante da igreja que o avô construiu na cidade que cresceu em torno do moinho, Viale. Ele seguiu até seus campos, onde a soja se estendia até o horizonte. Uma colheitadeira cruzava o terreno, coletando grãos destinados principalmente à China.

De acordo com Tropini, a cidade de Viale não estaria no mapa se não fosse pelo suor da sua família. Que bom seria se a história terminasse assim, disse. Mas a história produziu os populistas que governaram o país durante a maior parte de sua vida adulta.

No início, havia Juan Domingo Perón, o carismático general que presidiu o país de 1946 a 1955, e novamente de 1973 a 1974. Ele empregou uma mão pesada e o poder do estado para defender os pobres. Com a mulher, Eva Duarte Perón - conhecida por todos como Evita -, dominariam a vida política por muito tempo após a morte deles, inspirando políticos de todo o espectro ideológico.

Entre os peronistas mais ardentes estavam Néstor Kirchner, presidente de 2003 a 2007, e sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner, que assumiu em 2007, permanecendo no cargo até a eleição de Macri. A versão deles do peronismo - que se tornou conhecida como kirchnerismo - era claramente de esquerda, fazendo pouco do comércio global. Eles expandiram os auxílios oferecidos aos pobres e aplicaram impostos às exportações agrícolas em uma tentativa de manter baixo o preço dos alimentos.

Nas palavras dos agricultores do país, o kirchnerismo nada mais é do que um termo para o confisco de sua riqueza e subsequente desperdício na distribuição às massas improdutivas. Eles apontam para o imposto de 35% à exportação da soja criado por Cristina. 

"Nós brincávamos dizendo que, de cada três caminhões que chegavam ao porto, um deles pertencia a Cristina Kirchner", disse Tropini. Assim, ele celebrou a chegada de um novo presidente.

O governo Macri prometeu modernizar a administração e reconstruir a posição da Argentina entre os investidores internacionais. Os tecnocratas cosmopolitas e bem versados no inglês que preencheram os cargos do governo dele se consideravam um antídoto contra as forças destrutivas que estão varrendo o continente.

"Somos um país que luta para escapar do legado de um populismo que falhou", afirmou Marcos Peña, chefe de gabinete de Macri, em entrevista recente. "Aceitamos o desafio de mostrar à região e ao mundo, mas principalmente aos argentinos, que com uma sociedade mais aberta, um sistema político mais aberto e uma economia mais aberta podemos alcançar resultados melhores do que com uma cultura estatista, fechada e populista".

Um dos primeiros anúncios do novo presidente foi uma redução nas tarifas de exportação.

"Finalmente pudemos respirar", disse Tropini. Mas ele também critica o fracasso de Macri em superar a crise econômica.

Uma moeda mais fraca torna a soja argentina mais competitiva, contudo, também aumenta o custo do combustível que Tropini precisa para seu maquinário. Os juros altos impossibilitam para ele a compra de outra colheitadeira, que permitiria a expansão de sua fazenda.

Em setembro, diante de uma queda acentuada na receita do governo, Macri restaurou alguns dos impostos de exportação.

"Esse dinheiro para criar programas sociais voltados para pessoas que não trabalham", queixou-se Tropini. "Tudo serve para sustentar os preguiçosos. Muitos se acostumaram a não trabalhar durante o peronismo. Foram tantos anos levando minha produção. Não levem todo o meu lucro. Deixem um pouco para mim".

O que deu errado?

A razão por trás da economia continuamente moribunda é tema de um debate que pode determinar se Macri terá mais tempo, ou se a Argentina vai voltar ao populismo. Os economistas são enfáticos ao dizerem que os problemas da Argentina eram tão grandes que qualquer governo enfrentaria dificuldades.

Cristina deixou como legado um déficit orçamentário de aproximadamente 8% da produção econômica anual do país, de acordo com o governo. Nos primeiros anos do mandato de Macri, o governo suspendeu a indexação do peso e relaxou as tarifas de exportação. Os mestres das finanças internacionais responderam com uma rodada de investimento. A economia teve expansão de quase 3% em 2017, e acelerou nos primeiros meses do ano passado.

Entretanto, conforme os investidores começaram a desconfiar dos déficits da Argentina, eles abandonaram o barco, derrubando o valor do peso e fazendo a inflação disparar. Agora, a economia está em frangalhos, e há ansiedade nos negócios.

"As pessoas estão com medo", afirmou Roberto Nicoli, 62 anos, que administra uma empresa de talheres, Prinox LLC, nos arredores de Buenos Aires, fundada pelo seu avô em 1942.

Em seu auge, em meados dos anos 1990, a fábrica da Prinox empregava 67 pessoas. Então chegaram produtos concorrentes mais baratos, vindos da China, seguidos por uma terrível crise em 2001 que culminou no maior calote da história moderna. Hoje, 35 pessoas trabalham na fábrica. Quatro das sete linhas de produção estão ociosas, levando em consideração a fragilidade do mercado argentino.

A fábrica compra aço inoxidável importado. O enfraquecimento do peso fez subir o preço do metal, mas Nicoli não pode repassar o custo adicional ao cliente (ele trabalha principalmente com restaurantes), porque este enfrenta uma queda nas vendas. Durante a maior parte do ano passado, a empresa mal conseguiu fechar o mês no azul.

O governo insiste que dias melhores virão. Os cortes dos gastos reduziram o déficit orçamentário para 3% da produção econômica anual. A Argentina voltou a ser integrada à economia global.

"Nossa situação não melhorou, as bases da economia e da sociedade estão muito mais saudáveis", explicou Miguel Braun, secretário de política econômica do ministério do tesouro. "A Argentina está em melhor situação para gerar algo como duas décadas de crescimento".

Nos arredores da cidade de Paraná, no estado de Entre Rios, Ayelen Benitez, 24 anos e mãe de três, revirava o lixão municipal. Ela acabara de perder o emprego como doméstica e, com isso, o salário mensal de 3.000 pesos. Ayelen procurava roupas que pudesse vender em um brechó enquanto a filha de dois anos brincava na terra. Da lama, ela extraiu um par de calçados de couro que podem ser transformados em dinheiro.

"É um jeito de alimentar as crianças", disse. / Daniel Politi contribuiu com a reportagem.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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