Nadia Shira Cohen para The New York Times
Nadia Shira Cohen para The New York Times

Política de imigração divide estudantes em escola na Itália

Crianças imigrantes que deixaram de receber subsídio para alimentação escolar são segregadas de colegas na hora do almoço

Jason Horowitz, The New York Times

24 de outubro de 2018 | 06h00

LODI, ITÁLIA - No início do ano escolar (no hemisfério norte), enquanto a maioria dos alunos do ensino fundamental comia sua macarronada conversando com os colegas no restaurante, cerca de dez crianças filhas de imigrantes abriram os embrulhos de seus sanduíches em uma sala de aulas vazia com móveis velhos. "Eu queria voltar para a lanchonete", disse Khadiga Gomaa, uma menina egípcia de 10 anos.

Khadiga e as outras foram segregadas do restante dos alunos da escola Archinti de Lodi, porque não têm mais o subsídio do almoço diário. E isso porque não atenderam a uma nova exigência, segundo os críticos, punitiva, imposta pela prefeita da cidade, membro da Lega, o partido governista contrário à imigração. Além da documentação normal necessária para ter direito ao almoço e a outros benefícios, agora a prefeita exige que os estrangeiros provem que não possuem rendas ou outros recursos em seu país de origem.

Sem isso, as crianças teriam de pagar cinco euros por dia, que muitos pais afirmam não poder gastar. Em grande parte da Itália, as crianças não podem levar comida de fora para a lanchonete. O que significa que os alunos que não pagaram ou não receberam os subsídios têm de ir para casa almoçar. Para evitar onerar os pais, o diretor da escola permitiu que as crianças levassem sanduíches e comessem em uma sala separada.

As notícias da segregação em Lodi - e a violação do sagrado ritual italiano do almoço comunitário - provocaram uma celeuma nacional. Os italianos levantaram então 80 mil euros para pagar, até dezembro, o almoço e o ônibus escolar de cerca 200 imigrantes estrangeiros, muitos deles nascidos e crescidos na Itália.

Alguns consideram esta coleta um primeiro sinal de resistência à Liga, e a Matteo Salvini, seu líder nacional e vice-primeiro-ministro da Itália, que reprimiu a imigração, endureceu a oposição ao direito de cidadania em razão do nascimento e usou termos duros a respeito dos imigrantes.

Mas em Lodi, muitos moradores têm outra opinião. "Eles estão explorando os filhos e os sentimentos das pessoas para conseguir o que querem", afirmou Adriana Bonvicini, 60, indicando a praça, que estava cheia de mulheres de hijab no comício realizado pelo comitê que levantou o dinheiro para as crianças.

As mulheres que estavam perto de Adriana concordaram. Elas disseram que os estrangeiros aproveitam da bondade da prefeitura e depois se queixam dela. No entanto, as mães de Lodi vindas da Tunísia e do Egito afirmaram que voltaram para casa a fim de procurar os documentos, mas não tinham nada disso.

A prefeita Sara Casanova não quis dar entrevista, mas declarou a “La Verità”, jornal preferido pelo governo, que não exigiu esta documentação de pessoas de outros países. "Nós não somos racistas, aqui não há apartheid", disse.

A dona de casa marroquina Hayat Laoulaoi, 35, tem cinco filhos, todos nascidos na Itália, com exceção de um. Ela disse que, como não tinha a documentação, fazia para o filho Soufiane, 9, sanduíches de atum que ele comia na sala separada. Ela contou que, depois de perder o subsídio do ônibus, caminhou com ele seis quilômetros até a escola quando viram um ônibus se aproximando. O motorista perguntou: "Há um ônibus escolar, por que vocês não o pegaram?".

Eugenio Merli, o diretor da escola Archinti, defendeu sua decisão de colocar as crianças em uma sala separada para comer, afirmando que isso "criava uma espécie de separação, mas era uma maneira de ajudar os pais". Mas este mês, ele pressionou os donos a aceitarem as crianças de volta na lanchonete, onde poderiam comer seus sanduíches em mesas separadas.

"As crianças têm o direito de estar com os amigos, e não ser segregadas", afirmou Merli. "Elas não vão para a escola apenas para aprender. Elas vão aprender também a conviver com os outros".

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