Ksenia Kuleshova / The New York Times
Ksenia Kuleshova / The New York Times

Prefeitos alemães se encontram nas linhas de frente da 'Política do Ódio'

Série de intimidações estão levando gestores municipais a se demitirem; tendência reflete uma fratura da civilidade e do discurso político em uma Alemanha cada vez mais polarizada

Katrin Bennhold e Melissa Eddy, The New York Times

03 de março de 2020 | 15h10

COLÔNIA, ALEMANHA– Na última vez em que Henriette Reker se candidatou a prefeita, quase foi morta. Em 2015, ela estava distribuindo flores aos eleitores em um mercado movimentado de Colônia, quando um homem pegou uma rosa com uma mão e com a outra enfiou uma faca em sua garganta. Ele quis puni-la por sua política favorável aos refugiados.

Cinco anos mais tarde, Henriette volta a se candidatar. Mas ela é uma exceção. Desde que se recuperou do coma e descobriu que havia sido eleita, as ameaças de morte da extrema direita tornaram-se uma realidade diária, não apenas para ela, mas também para um número cada vez maior de prefeitos de toda a Alemanha. O ódio pode ser percebido nos corredores das prefeituras e nas ruas. O efeito é aterrador. Alguns pararam de se manifestar.  Muitos foram embora, procuraram armar-se, ou pediram a proteção da polícia.

Os riscos foram crescendo a tal ponto que algumas cidades alemãs não conseguem apresentar um candidato. “A nossa democracia esta sendo atacada na base”, disse Henriette. “O alicerce da nossa democracia, ela é vulnerável”.

A tendência, afirmam autoridades locais e analistas, reflete uma fratura da civilidade e do discurso político em uma Alemanha cada vez mais polarizada, onde a influência insidiosa de uma extrema direita raivosa está mudando as normas do comportamento. Os prefeitos não são os únicos a sofrer, mas é todo o tecido político e social da Alemanha que está se esgarçando.

A chacina do dia 19 de fevereiro na cidade de Hanau, no lado ocidental do país, perto de Frankfurt, que deixou 11 mortos, foi apenas  o mais recente ataque contra as minorias étnicas. Alemães que apoiam abertamente a imigração também têm sido cada vez mais visados. Mas dada a natureza descentralizada do sistema político da Alemanha, os ataques contra as autoridades locais, como os prefeitos, assumem um significado desmedido. No ano passado, foram registrados 1.240 ataques movidos por motivos políticos contra personalidades da política local e funcionários eleitos na Alemanha, informou a Polícia Federal.

Um estudo realizado pela Associação Alemã de Cidades e Municipalidades mostrou que em 40% dos governos municipais do país ocorreram perseguições, assédios ou ameaças. Dos 11 mil prefeitos do país, pelo menos 1.500 denunciaram ameaças. E cidadãos morreram. Em junho, Walter Lübcke, um funcionário regional, foi morto na varanda da sua casa por um notório extremista, o primeiro assassinato da extrema direita de um político alemão desde a Segunda Guerra Mundial.

Partidários da ideologia de extrema direita foram responsáveis por mais de 33%, quase o dobro dos episódios denunciados, cerca do dobro dos cometidos por partidários da extrema esquerda, segundo dados oficiais. Mas cerca da metade dos ataques não pôde ser vinculada a um grupo específico, o que reflete o que os especialistas definem como a erosão das normas civis. Eles disseram que a violência começou com a crise econômica de 2008, mas assumiu novas dimensões em 2015, depois que a chanceler Angela Merkel abriu as fronteiras a mais de um milhão de pessoas em busca de asilo, a maioria delas muçulmanas, muitas da Síria, Iraque e Afeganistão.

Andreas Zick, o diretor do Instituto de Pesquisas interdisciplinares sobre o Conflito e a Violência da Universidade de Bielefeld, disse ter observado já há mais de dez anos o aparecimento de grupos de pessoas que se denominavam cidadãos preocupados e criticavam os políticos. Uma das preocupações destes cresceu tornando-se uma campanha de ódio contra os políticos locais, ele disse, movida por forças populistas como o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, AfD.

“Os populistas declararam as ‘elites’ suas inimigas, e agora estamos vendo a ascensão desta política do ódio que contamina o próprio centro da sociedade”, disse Zick.

Barbara Lücke, a prefeita de Pulsnitz no estado oriental da Saxônia, foi um dos alvos. “A chegada dos refugiados foi um catalisador”, ela afirmou, “mas teria acontecido independentemente disso". Ela atribuiu o fenômeno a uma cultura  do vale tudo na mídia social, à escassez dos serviços sociais e a uma falta de compreensão sobre a democracia representativa no antigo Leste comunista.

“Nós, enquanto sociedade, perdemos a capacidade de respeitar-nos reciprocamente, ou de respeitar os que estão no governo”, afirmou Barbara, que é independente. “Não existem mais limites e nenhuma compreensão de como reagir quando minha ideia de liberdade  está em conflito com a ideia de liberdade do outro".

Sob certos aspectos, a atmosfera se tornou particularmente tóxica na Alemanha Oriental, onde a AfD ganha em média um em cada quatro votos. Markus Nierth, que foi prefeito da aldeia de Tröglitz, no lado oriental, quis integrar 40 refugiados. As ameaças que recebeu eram dirigidas contra ele, depois à sua esposa. Ele lembra de quando ela abriu uma carta assinada pela “KKK Alemanha”, com o filho de cinco anos no seu colo. “Nós vamos buscar você e pregá-lo na cruz , depois vamos queimá-lo”, dizia a carta. "Você é um estorvo para a raça branca”. 

Quando a sua história se tornou pública, Nierth recebeu telefonemas de outros prefeitos da Alemanha oriental que haviam deixado o cargo depois de ameaças semelhantes. O mais difícil, garantiu, foi o fato de não ter recebido muito apoio da comunidade. “As pessoas disseram que eu estava contribuindo para a má fama da aldeia”, lamentou.

Nierth acabou se demitindo. Agora a família planeja mudar-se. “Existe o perigo de, em algumas partes do país, os democratas literalmente deixarem o campo para a extrema direita”.

A intimidação não se limita ao leste. O prefeito de Kerpen, na Renânia do Norte-Westfália, o prefeito declarou que não se candidatará de novo, temendo pela própria segurança. Na Baviera, os moradores de Breitbrunn terão de apresentar um candidato a prefeito, porque ninguém está concorrendo.

Nos cinco anos desde que foi esfaqueada, Henriette conta que as ameaças de morte não pararam. Depois do assassinato de Lübcke, ela recebeu uma carta assinada: “Sieg Heil und Heil Hitler!”. No documento, estava escrito: “A fase da limpeza começou. Muitos outros o seguirão. Inclusive você. A sua vida acabará em 2020”.

Em janeiro, ela foi ao enterro de um funcionário da prefeitura que fora esfaqueado no emprego. Mas Henriette se recusa a mudar a sua mensagem. Recentemente, ela pediu à Câmara de Colônia que receba mais 100 refugiados que estão bloqueados na ilha grega de Lesbos. A moção foi aprovada. Mas em resposta, um representante da AfD, Sven Tritschler, imediatamente pegou o microfone e disse: “Você tem sangue nas mãos". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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