Maciek Nabradalik / The New York Times
Maciek Nabradalik / The New York Times

Política e religião na Polônia confundem devoção com preconceito

Capaz de produzir divisão em vários setores da sociedade, reverendo Tadeusz Rydzyk é o clérigo mais poderoso do ponto de vista político no país

Marc Santora e Joanna Berendt, The New York Times

02 de outubro de 2019 | 06h00

TORUN, POLÔNIA – Dos mártires da Segunda Guerra Mundial aos heróis que lideraram a luta contra o regime comunista, os sacerdotes da Polônia há muito vêm desempenhando um papel preponderante na formação da vida política deste país profundamente católico. E, hoje, não existe um clérigo mais poderoso do ponto de vista político – ou capaz de produzir divisão – do que o homem que chamam “Pai Diretor”, o reverendo Tadeusz Rydzyk.

O seu poder vem do púlpito e do seu império da mídia. A sua emissora Radio Maryja chega a milhões de pessoas e muitas vezes é a única fonte de informação para os eleitores mais velhos das zonas rurais, ao quais leva histórias de horror sobre um mundo desprovido de fé, onde a comunidade LGBTI+ controla a política, as universidades são corrompidas pelos “neo-marxistas”, e a Igreja Católica romana está sendo mortalmente ameaçada.

Com as eleições nacionais marcadas para o dia 13 de outubro, o padre Rydzyk é, sem dúvida, o político não eleito mais importante da Polônia. O seu apoio ao Partido Lei e Ordem rendeu milhões de votos, permitindo levá-lo ao poder em 2015, graças à promoção de uma mescla de nacionalismo, obras para o bem-estar social e apelos aos fiéis.

Quando Jaroslaw Kaczynski, de 70 anos, o líder do partido, lançou sua campanha em setembro, afirmou que o patriotismo polonês e a Igreja Católica estão indissoluvelmente unidos. “A igreja foi e é a pregadora e a dona do único sistema de valores plenamente conhecidos da Polônia”, afirmou.

Abusos na Igreja

Com um público profundamente dividido e desconfiado da imprensa e dos seus vizinhos do leste e do oeste, os padres mantêm  um lugar de grande autoridade na sociedade polonesa. Quando um documentário revelou que sacerdotes haviam abusado sexualmente de crianças e que altos prelados haviam encoberto o fato, muitos viram isto não como uma prova de uma instituição que se desviara do seu caminho, mas que precisava ser defendida.

Padre Rydzyk, de 74 anos, vem usando isto para garantir o seu lugar de defensor dos que se sentem desorientados em uma Europa cada vez mais secular, e expandir o seu império da mídia, enriquecendo ao mesmo tempo a sua Fundação Lux Veritatis, que controla uma variedade de empreendimentos. Desde que o Partido Lei e Justiça chegou ao poder, em 2015, seus negócios  receberam pelo menos US$ 55 milhões em subsídios.

População católica

Dos 38 milhões de habitantes da Polônia, 87% se declaram católicos. Mas mesmo entre os fiéis, o padre é uma figura que provoca a divisão. Sua Radio Maryja foi uma das primeiras emissoras criadas depois do colapso do comunismo. Desde o início, foi criticada a linguagem usada por aqueles que trabalham para ele. Padre Rydzyk chama a população LGBTI+ de gente “nojenta”, “uma abominação”, taxa a União Europeia de “nova União Soviética”; e reiteradamente insinuou que a Polônia é governada por judeus.

Ireneusz Krzeminski, sociólogo da Universidade de Varsóvia, disse que ele "criou uma ideologia nacionalista-católica, que só faz sentido quando se traduz em ações políticas”. O Partido Lei e Justiça contribuiu em várias questões importantes para o Padre Rydzyk, como o fechamento obrigatório de todas as lojas na maioria dos domingos.

Mas por duas vezes ele tentou fazer aprovar novas restrições ao aborto e foi forçado a recuar diante da resistência das mulheres polonesas. O aborto não foi uma questão fundamental em sua campanha. Em seu lugar, os políticos e sacerdotes conservadores passaram a visar a comunidade LGBTi+ e os líderes da oposição, que eles condenam como moral e politicamente corruptos.

Sua mensagem apela para Kazimierz Bujnowski, um trabalhador aposentado de 60 anos do setor de transportes. Ele teme que o amor patriótico pelo país esteja sendo substituído por um multiculturalismo tóxico. “Ele afirma que os poloneses precisam ser patriotas e livres para se sentirem poloneses”, disse Bujnowski a respeito de Padre Rydzyk. “É o que eu quero”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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