Mary Turner para The New York Times
Mary Turner para The New York Times

Políticas de austeridade enfurecem jovens da esquerda britânica

A alta nos preços dos aluguéis e os baixos salários contribuem para a insatisfação da juventude inglesa e os afastam do capitalismo

Ellen Barry, The New York Times

08 de março de 2019 | 06h00

BRIGHTON, INGLATERRA - Alex McIntyre cresceu em uma época de cortes do orçamento. O centro da juventude que frequentava aos 10 anos de idade depois das aulas foi fechado. Aos 11, o subsídio do aluguel que sua mãe recebia foi cortado, uma das vítimas da Reforma da Previdência. Quando a iluminação da rua perto de casa começou a ser desligada por volta da meia-noite, alguns anos mais tarde, estes fatos juntos já constituíam uma única história a respeito de uma política de governo que havia definido a sua infância.

“Austeridade, essa eu conheço bem, é a minha vida”, disse McIntyre. “Nunca conheci uma Inglaterra que fosse diferente”. Agora, aos 19 anos, com idade suficiente para votar, ele procura recuperar o tempo perdido. Nos últimos seis meses, foi atraído para o centro do movimento Momentum, um mercado ideológico fervilhante de socialismo e sindicalismo de cara nova. 

Seus pais seguramente buscam informações em jornais como The Sun e The Daily Mail, mas ele ouve as reportagens sobre a “crise do capitalismo” da Novara Media, um grupo de mídia independente de esquerda. No Natal, ele começou a ler Marx. McIntyre é o primeiro de sua família a cursar uma faculdade, como o exército de jovens britânicos que deveriam personificar a ascensão social. É um paradoxo que tantos que desfrutam de tais vantagens estejam desistindo do capitalismo de livre mercado, convencidos de que não é por aí que vão oferecer às suas famílias uma vida decente.

As eleições gerais de 2017 escancararam o mais grave fosso geracional da história recente da política britânica. Jovens eleitores decidiram romper com o Partido Trabalhista, cujo líder socialista, Jeremy Corbyn, prometeu reconstruir o Estado do bem-estar e redistribuir a riqueza. Eles rebocaram o partido para a esquerda, abrindo rachaduras que agora estão desmembrando o trabalhismo.

Os jovens também viram as suas opiniões sobre a saída da União Europeia - 75% deles votaram pela permanência - menosprezadas por gente favorável à saída com a mesma idade dos seus pais. McIntyre ainda está furioso porque ainda não tinha idade, por um ano apenas, para votar naquele referendo de 2016. Pálido, magro, discretamente tatuado, engraçado, é tão bem educado que preferiria perder o trem a furar uma fila (“Ser britânico tem suas limitações”, observou).

Não é considerado o representante de uma geração. Mas a sua queixa é a queixa de toda uma geração: o fato de o Estado ter tirado os benefícios de que os seus pais e avós desfrutavam, como habitação subsidiada e educação gratuita. “Nós não somos cegos a este tipo de coisas”, afirmou. “Não somos estúpidos. O motivo pelo qual nos opomos ao que está acontecendo é o que fizeram com a gente”.

Os britânicos que chegaram à idade adulta na esteira da crise financeira global de 2008, em muitos casos, estão em condições piores do que os seus pais. Nascidos do lado errado dos valores dos imóveis extremamente elevados, apenas metade dos jovens de 30 anos provavelmente é dona de uma casa como os ‘baby boomers’ podiam se permitir na mesma idade.

Ao contrário das gerações anteriores, espera-se que eles paguem a conta de uma educação cara. O universitário médio agora deve ao governo mais de 50,8 mil libras esterlinas, ou $ 64 mil, uma dívida a ser paga gradativamente, por um emprego bem-remunerado, segundo o Instituto de Estudos Fiscais. A parcela dos britânicos que cursam a faculdade subiu para 49%, o patamar mais elevado da história,  mas eles se formarão em um período histórico de estagnação dos salários.

Robert Ford, um professor de Política da Universidade de Manchester, disse que Margaret Thatcher permitiu que os britânicos de baixa renda adquirissem as habitações subsidiadas que alugavam, tornando-os partes interessadas do capitalismo de mercado. Mas agora, os seus alunos se dão conta de que provavelmente jamais terão uma casa própria.

“Todos os riscos foram transferidos para eles”. “Vocês tiveram uma geração desde a crise com menos mobilidade e menos seguridade social. O que os torna menos convencidos de que o mercado produz bons resultados”. Só foi com um esforço muito grande que McIntyre chegou à universidade.

Ele vem de um bairro de classe média-baixa de Welwyn Garden City, no norte de Londres, onde a expectativa de vida é inferior à média nacional. Cresceu em uma casa em que o aluguel era subsidiado pelo Estado e estudou em uma escola que foi classificada como “Necessitada de Melhorias” pela agência estatal de inspeção da educação. Sua irmã teve o primeiro filho aos 16 anos.

Naqueles anos, a mobilidade social era o slogan do Partido Conservador. Foi o que David Cameron prometeu em 2010, quando anunciou que triplicaria o custo da educação superior. O aumento do custo da educação, afirmou, abriria novos postos de trabalho, criaria melhores oportunidades e encorajaria a concorrência no mercado de trabalho.

McIntyre foi um caso contemplado para este experimento. Identificado como dotado para um programa de assistência social, a Social Mobility Foundation, foi enviado para Cambridge. Lá, fazia as refeições em um refeitório com as paredes revestidas de painéis de madeira, servido por garçons, experiência que descreveu como “hilariante”. Sua mãe ficou extasiada ao ouvi-lo falar que queria estudar medicina.

Mas ao chegar à universidade em Brighton, sua confiança desabou. Os aluguéis em Brighton subiram mais rapidamente do que em qualquer outro lugar da Inglaterra no ano passado, segundo a agência imobiliária Hamptons International. O quarto que ele achou, no final de uma escada cheirando a mofo, com manchas de infiltração, custava mais do que o empréstimo do governo para manter-se poderia cobrir. 

Somando o custo da universidade e da moradia, a quantia que deveria devolver ao governo assim que tivesse um emprego garantido, chegaria a 46 mil libras, ou $ 61 mil. A sua ansiedade chegou um grau tal que procurou um medicamento. “É aquela sensação de que não há absolutamente nada de que eu queira sequer chegar perto”, ele disse.

O pânico diminuiu quando encontrou um emprego de assistente de cozinha na J.D. Wetherspoon, uma cadeia de restaurantes de baixo preço que estão em todo lugar. McIntyre era o chapeiro. Ele gostava dos clientes da Wetherspoon, inclusive daqueles que fazia fila, trêmulos, por uma bebidinha às 8 horas da manhã. “Os esquecidos”, ele os apelidou.

Mas ficou revoltado com a remuneração e as condições de trabalho. Cinco dias por semana ele trabalhava no turno de meia-noite às 8 da manhã, o que o deixava trêmulo e doente. Era esta a vida de adulto, esta precariedade constante? Seus colegas não lhe ofereciam grande conforto. Muitos deles já tinham diploma universitário.

“Eu estou sempre um salário atrasado para pagar o aluguel”, ele disse. Encontrava-se neste estado de espírito quando um deles se aproximou, e perguntou um tanto misteriosamente: “Você está cansado disso. Está cansado?” Alguns meses mais tarde, McIntyre participou do primeiro protesto na North Street, acompanhado pelo representante sindical do Sindicato dos Padeiros e Trabalhadores na Indústria da Alimentação e Afins, para exigir um salário mínimo de 10 libras a hora.

Os grevistas não eram como os mineiros de carvão dos anos 1980; eram filhos e filhas da classe média, usando calças de pele de leopardo e botas Doc Martens. Mais tarde, a excitação que sentia mal permitia que dormisse. “Estou sentado aqui com uma xícara de café, pensando: 'O que é que acaba de acontecer?’. Isto não é o fim. É o primeiro passo em algo grande".

Ele ingressara no mundo da esquerda jovem que se havia se formado em Brighton, uma cidade universitária boêmia. Ela é um mundo de oficinas anticapitalistas, retiros anarquistas, “red gyms” e greves contra os preços dos aluguéis, e é personificada por Corbyn, um socialista com cara de vovô que era menosprezado como um anacronismo durante a era centrista de Tony Blair e Bill Clinton.

McIntyre disse que agora encontrava novas ideias a cada dia. Conheceu Callum Cant, um doutorando erudito que organizou um grupo de leituras de Marx para os funcionários da Wetherspoons. Cant, 24, que vem de uma aldeia de classe alta em Hampshire, chegou à universidade em 2014 e se deixou levar pelos protestos contra a austeridade e a alta do custo da educação.

“Eu me sinto estimulado por vir de uma escola privada entre camaradas”, disse. “Mas vi como era a vida deles. Eles não estavam felizes”. McIntyre não sabia ao certo onde se situar em relação a Marx, mas se sentia à vontade com os sujeitos dos sindicatos. Em sua mente, um futuro ia tomando forma.

Ele não tinha mais certeza de que iria estudar Medicina. Um dia chamou a mãe para dar a ela a notícia. Ele a ouviu calada e desligou o telefone. Mãe solteira, ela trabalhava em dois ou três empregos enquanto ele crescia, e ainda hoje passa roupa para ganhar um extra. As cartas que o filho enviava às universidades candidatando-se a uma vaga haviam sido entusiasmantes para ela. “Ela quer que eu tenha um futuro melhor”. “Para ela, isto significa cursar a universidade, conseguir um diploma, ganhar montes de dinheiro”.

No dia seguinte, ela telefonou pedindo que continuasse a faculdade. McIntyre começou a contar os meses que faltavam até a formatura para depois atirar-se no ativismo político em tempo integral. Antes do Natal, foi convidado pelo presidente do sindicato dos padeiros, Ian Hodson, para falar aos estudantes em Liverpool, o reduto da esquerda. Ele tomou umas cervejas com os veteranos organizadores, homens que falavam um dialeto agudo do Lancashire sobre Maggie Thatcher e a Revolta dos Camponeses. 

No caminho de casa, teve de parar por causa de um piquete dos operários dos estaleiros das docas de Liverpool, seu primeiro com os operários da velha escola. Então viu o que andara procurando: a massa cinzenta da Cammell Laird, e os operários aquecendo as mãos no fogo em um barril. Eles faziam piquete por causa das demissões, e queixavam-se de ter saído substituídos pelos romenos.

Pegou uma faixa do sindicato e caminhou até a rodovia segurando-a, tentando fazer contato visual com os motoristas. Alguns o viram. Um caminhão da limpeza pública buzinou para ele. E também um caminhão carregado de pallets de madeira. McIntyre sorriu. Estava no seu ambiente favorito. “Adoro isto”, afirmou. Toda uma geração nasceu em uma época de austeridade. “Esta é a minha vida”, disse um adolescente britânico referindo-se à luta.

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