Claudio Reyes / AFP
Claudio Reyes / AFP

Políticas econômicas de Trump favorecem livre comércio na América Latina

As medidas protecionistas dos EUA têm incentivado governos a buscar relações comerciais com a China e a Europa

Ernesto Londoño, Shasta Darlington e Daniel Politi, The New York Times

26 Março 2018 | 10h15

SANTIAGO, Chile - Os líderes da América Latina se deram as mãos no ano passado quando o presidente Donald J. Trump tomou posse prometendo proteger os americanos “dos estragos provocados pelos outros países que fazem nossos produtos, roubam nossas companhias e destroem nossos empregos”. Então, aconteceu algo notável.

Os governos de todo o hemisfério começaram a estreitar laços comerciais entre si, e abrandaram algumas de suas políticas protecionistas, tomando um curso que lembrou o que os Estados Unidos haviam proposto nos anos 1990, mas que não chegou a se concretizar: uma área de livre comércio do Canadá ao Chile.

Agora, Washington decidiu adotar uma postura protecionista no momento em que os líderes da região estão com os olhos voltados para a Ásia, e em particular para a China, com a finalidade de expandir o comércio, conseguir empréstimos e financiar projetos de infraestrutura.

“Inadvertidamente, Trump fez mais para a integração comercial da América Latina do que muitos líderes latino-americanos conseguiram realizar”, afirmou Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York. 

Membros do Mercosul - bloco comercial que inclui Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai - deram início a negociações comerciais com a União Europeia. O Canadá, que está preocupado com a possível dissolução do Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (NAFTA), começou as negociações de um pacto de livre comércio com o Mercosul.

“Nunca houve um momento mais propício para a diversificação”, afirmou François-Philippe Champagne, ministro canadense do Comércio. “Isso significará a abertura de um mercado de cerca de 300 milhões de pessoas com uma classe média emergente: uma potência econômica nesta parte do mundo”.

Em março, foi assinado no Chile um acordo comercial que 11 nações do Pacífico, entre elas México, Peru e Canadá, decidiram preservar quando o governo Trump abandonou o pacto originalmente conhecido como Parceria Transpacífico (TPP).

A Aliança do Pacífico, outro bloco de livre comércio que Chile, Peru, Colômbia e México formaram em 2011, pretende se expandir. Seus integrantes estão negociando uma parceria com o Mercosul e estudam a possibilidade de admitir a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Cingapura como membros associados.

No entanto, economistas e funcionários dos governos observam alguns obstáculos que impedem uma integração comercial substantiva nas Américas: a concorrência entre os exportadores das mesmas mercadorias e uma infraestrutura frágil. Apesar das medidas destinadas a reduzir as barreiras comerciais, as políticas protecionistas continuam firmes em alguns dos maiores países, como Brasil e Argentina.

E os eleitores de várias das principais economias, como Brasil, México e Colômbia, este ano elegerão novos líderes que podem reduzir o anseio pelo livre comércio e pela integração em algumas regiões.

Mas a decisão de Trump de impor novas tarifas sobre o aço e o alumínio, em março, e o fato de ele aparentemente se regozijar com a perspectiva de iniciar uma guerra comercial, o exclui da região.

“Acredito que a região como um todo - mas principalmente Brasil e Argentina - aprendeu que o protecionismo é uma estratégia que não tem saída”, afirmou Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics.

Em março, o governo do presidente Michel Temer lançou um projeto de crescimento econômico afirmando que o crescimento sustentado exige a redução das tarifas e a reciclagem dos trabalhadores. A mudança ocorre no momento em que o Brasil sai de anos de uma devastadora recessão.

Quando as autoridades brasileiras se esforçaram para buscar isenções das tarifas do aço, deram-se conta de que estavam defendendo estranhamente a doutrina do livre comércio.

“Nossa visão é o oposto do que está acontecendo nos Estados Unidos”, disse Marcos Jorge de Lima, o ministro brasileiro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. “Queremos cada vez mais aberturas comerciais”.

Talvez ninguém tenha trabalhado mais intensamente para seduzir a Casa Branca do que o presidente da Argentina, Mauricio Macri, que foi um dos primeiros líderes da América Latina a ser recebido no Salão Oval. Na ocasião, Trump disse que as duas nações seriam “grandes amigas, mais do que nunca”.

Entretanto, um ano mais tarde, os Estados Unidos impuseram tarifas proibitivas sobre o biodiesel, anteriormente o principal produto de exportação da Argentina para os Estados Unidos, e a promessa de Washington de abrir seu mercado aos limões argentinos não foi cumprida.

O presidente chileno, Sebastián Piñera, afirmou recentemente que “os Estados Unidos estão deixando um espaço que será preenchido pela China”. Ele contou que ficou pasmo com as mensagens que os líderes chinês e americano apresentaram em Davos, na Suíça. “O presidente dos Estados Unidos defendia o protecionismo. E o presidente da China defendia o livre comércio”, afirmou. “Tive a impressão de que o mundo estava de cabeça para baixo”.

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