Catalina Martin-Chico para The New York Times
Catalina Martin-Chico para The New York Times

Políticas verdes de cidade francesa visam a conquistar classe trabalhadora

'Políticas ambientais são a melhor resposta para os problemas econômicos e sociais', diz prefeito

Constant Méheut, The New York Times

02 de agosto de 2019 | 06h00

GRANDE-SYNTHE, FRANÇA - Condomínios coloridos com instalações de baixo consumo elétrico substituíram edifícios antigos. Jardins comunitários brotaram no pé de projetos habitacionais públicos. E uma nova frota de ônibus roda movida a gás natural - e a passagem é gratuita.

Não é o que se esperaria de uma desanimada cidade litorânea em uma decadente área industrial da França. Mas Grande-­Synthe, perto de Dunquerque, no norte do país, se destaca como laboratório do ambientalismo voltado para a classe trabalhadora. Essa foi a visão de Damien Carême, do Partido Verde, prefeito da cidade desde 2001, eleito em maio para o Parlamento Europeu, que ele pretende usar como palco para divulgar sua ideia de “ambientalismo social".

“As pessoas precisam entender que as políticas ambientais são a melhor resposta para os problemas econômicos e sociais", disse Carême em tarde recente. Grande-Synthe, cidade de aproximadamente 23,6 mil habitantes, sofreu com o fechamento de fábricas ultrapassadas, acumulando um desemprego recorde de 28%, muito acima da média da França (8,7%).

Mais de 30% dos lares vivem abaixo da linha da pobreza. Este ano, Grande-­Synthe espera poupar cerca de US$ 560 mil em iluminação de rua graças à instalação de LEDs de baixo consumo elétrico. A poupança será aplicada em um novo programa de renda suplementar para pessoas vivendo abaixo do limiar da pobreza.

“As políticas dele mostraram que o ambientalismo não é apenas para os ricos", disse o cientista político Daniel Boy, da universidade Sciences Po, em Paris, a respeito de Carême. “Ele (Carême) provou que restaurar os projetos de habitação é tão importante quanto construir ciclovias.”

Carême gosta de dizer que as políticas ecológicas precisam lidar simultaneamente com os desafios do fim do mundo e do fim do mês. “O ambientalismo é uma questão de justiça social", disse. Ele começou a ganhar destaque quando o governo francês se recusou a ajudar Grande-Synthe a abrigar cerca de 2,8 mil imigrantes vivendo em condições precárias durante o auge da crise de imigração de 2015.

Com a ajuda dos Médicos Sem Fronteiras, Carême decidiu construir um campo com condições sanitárias adequadas para quase 1,5 mil pessoas, fazendo dele um dos poucos prefeitos da França que receberam imigrantes. Em se tratando do impacto duradouro de suas políticas ambientais, o veredicto ainda não foi decidido. Para Yannick Lefranc, 39 anos, que estudou em Grande-­Synthe, as políticas de Carême não passam de um belo discurso.

“Ele tenta tornar a realidade mais bela, mas a verdade é que a cidade mal consegue sobreviver", disse ele. Atrás de Lefranc havia imensos armazéns que fazem parte de um vasto parque industrial que se estende por quilômetros do litoral. Inclui a mais antiga usina nuclear da França e dúzias de fábricas que expelem uma fumaça densa e branca.

“Crescemos com essas fábricas”, disse Lefranc. “É isso que alimenta nossas famílias aqui.” O paradoxo é que as políticas ambientais de Grande-Synthe dependem de uma indústria decadente a partir da qual a cidade obtém a maior parte de seus recursos financeiros, especialmente sob a forma de tributos.

É algo que Carême reconhece, ainda que tenha tentado criar um novo ecossistema de negócios menos dependente da antiga indústria. Recentemente, a cidade arrendou a agricultores um terreno de 200 acres, chamado “Fazenda Urbana", cobrando o menor preço do mercado. “Sem isso, jamais teríamos iniciado o projeto", disse Gérald Maison, agricultor de 41 anos. Os legumes dele garantem agora o almoço nos refeitórios das escolas de Grande-Synthe. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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