Andrea Mantovani para The New York Times
Andrea Mantovani para The New York Times

Poloneses temem pelo futuro de floresta atacada por praga

'Este fenômeno é uma adaptação natural à nova situação do clima', diz biólogo

Marc Santora, The New York Times

28 de abril de 2019 | 06h00

BIALOWIEZA, POLÔNIA - O chão da floresta está coberto de árvores caídas. Embaixo das folhas apodrecidas, encontram alimento milhares de espécies de insetos. Fungos de diversos tipos só podem ser encontrados aqui, e a cada ano são descobertas várias espécies novas. Aqui vivem mais de 200 espécies de pássaros.

“Há mais vida em um abeto (tipo de árvore) morto do que em um vivo”, disse o professor Rafal Kowalczyk, diretor do Instituto de Pesquisa de Mamíferos da Academia Polonesa de Ciências, em uma excursão recente à Floresta de Bialowieza - uma das últimas florestas virgens da Europa, parte de um ecossistema em grande parte intocado desde que os últimos glaciares retrocederam, há mais de 10 mil anos.

Há mais de um ano, o Tribunal de Justiça Europeu ordenou o fim da derrubada de árvores na floresta, por considerar que esta atividade representa uma clara ameaça a este sítio do Patrimônio Mundial da ONU. A decisão foi uma derrota para o Partido Lei e Justiça que governa a Polônia. 

Varsóvia inicialmente desafiou a ordem, até que teve de pagar uma multa diária de 100 mil euros, cerca de US$ 124 mil, enquanto violar a diretriz. Agora, teme-se que o governo planeje aumentar a cota de floresta em centenas de quilômetros quadrados que se encontram fora dos limites do local do Patrimônio Mundial.

A parte protegida da Floresta de Bialowieza, que cobre cerca de 1.425 quilômetros quadrados e se estende à vizinha Bielo-Rússia, foi por muito tempo uma área de caça da nobreza e da realeza europeias. Ela foi poupada e não sofreu o mesmo destino de muitas florestas do Continente, arrasadas em sua maioria, enquanto outras foram transformadas em versões da natureza sob controle intensivo hoje mais semelhantes a meros viveiros.

Bialowieza permaneceu selvagem e indisciplinada. Ela foi o local de uma das grandes vitórias do Continente na batalha pela conservação - a reintrodução do bisão depois que o último animal que vagava em liberdade foi caçado em 1919. A floresta é agora o lar da maior manada de bisões da Europa, o ‘wisent’. 

Mas uma criatura muito menor, o pequeno besouro peludo, desencadeou uma luta contra a derrubada de árvores. O macho fura o tronco do abeto e em seu interior cria uma câmara em que se acasala com várias fêmeas, onde elas depositam dezenas de ovos. As larvas se alimentam do tecido vascular da árvore, muitas vezes matando-a. Invernos mais amenos, provocados pela mudança climática, permitiram que a população de besouros explodisse.

Em 2016, ficou claro que a praga estava devastando grandes áreas cobertas por árvores. Para muitos cientistas, a melhor solução seria deixar que a natureza seguisse o seu curso. “O besouro faz parte do ecossistema há centenas de anos”, disse Adam Bohdan, um biólogo da Wild Poland Foundation. “Este fenômeno é uma adaptação natural à nova situação do clima”.

Mas o governo polonês não concordou, e ordenou uma campanha de desmatamento em larga escala. Manifestantes foram para a floresta, formando bloqueios humanos com a finalidade de tentar parar as máquinas. A derrubada só acabou quando o tribunal europeu ameaçou aplicar pesadas multas. Uma nova vida está substituindo a antiga, embora os besouros continuem sendo um problema para o qual não há uma solução fácil. “A constante preocupação de que eles voltem a derrubar árvores persiste”, disse Bohden. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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