Krzysztof Pacholak para The New York Times
Krzysztof Pacholak para The New York Times
Stanley Reed, The New York Times

05 de março de 2019 | 06h00

SWINOUJSCIE, POLÔNIA - Enormes petroleiros entram neste porto do Mar Báltico duas vezes por mês, transportando gás natural liquefeito de produtoras do Catar, da Noruega e, cada vez mais, dos Estados Unidos. O combustível ajudará a fornecer luz e calor a milhões de lares poloneses, reduzindo gradativamente a dependência do país do carvão.

Este combustível constitui também um importante instrumento de estratégia política. A Polônia está determinada a acabar com a dependência da energia russa, no âmbito de um esforço maior da Europa visando diversificar o fornecimento de energia para a região.

As relações com a Rússia foram tumultuadas por divergências políticas, bem como pelo papel da Polônia, antigo satélite soviético, na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O país encontrou um rápido substituto nos Estados Unidos, que têm abundância de gás natural em razão do boom do xisto betuminoso, e um incentivo político para reduzir o domínio da Rússia sobre a Europa. 

Depois de passar ao estado líquido por um processo de condensação por esfriamento, o gás natural pode ser transportado ao redor do mundo. As companhias americanas agora têm contratos que durarão dezenas de anos e prometem abastecer a Polônia com o equivalente a cerca da metade das suas atuais necessidades de importação de gás.

“Dada a escolha de fornecedores e um bom acordo comercial, a Polônia ficou feliz de comprar o produto americano”, disse Davis L. Goldwyn, que foi enviado internacional para energia para o Departamento de Estado americano no governo Obama, e agora é diretor de uma empresa de assessoria, a Goldwyn Global Strategies.

A decisão da Polônia está associada a este porto em Swinoujscie. Há dez anos, um conflito entre a Rússia e a Ucrânia deixou a Polônia e alguns dos seus vizinhos no frio quando a gigante do petróleo russo, a Gazprom, fechou um oleoduto crucial por três semanas por causa de uma disputa de preços de motivação política. Grande parte do gás que a Rússia exporta para a Europa passa pela Ucrânia.

Com o fechamento de 2009, a Polônia decidiu construir um terminal de gás natural liquefeito, que custou, ao que se calcula, um bilhão de euros, em parte financiado pela União Europeia. A instalação tem o nome de Lech Kaczynski, o presidente polonês que morreu em um desastre aéreo na Rússia em 2010, uma perda que aprofundou os sentimentos contrários à Rússia.

“A estratégia da companhia é simplesmente esquecer as fornecedoras do Oriente,  e particularmente a Gazprom”, disse Piotr Wozniak, presidente da PGNiG, uma companhia listada em bolsa, mas controlada pelo Estado que domina o mercado do gás da Polônia. “Para nós, este é um novo mundo”, acrescentou Wozniak. “Quando pago aos americanos, estou pagando aos meus aliados na OTAN”.

O porto já está reformulando as relações da Polônia com a Rússia. As entregas da gás do Catar começaram em 2015, e foram suplementadas por embarques de produtores como a Noruega  e os Estados Unidos. A PGNiG diz que os embarques de exportação de gás natural liquefeito subiram quase 60% no ano passado, em comparação com 2017, reduzindo em 6% as importações da Rússia e do Oriente. A Rússia fornece atualmente cerca da metade do combustível da Polônia.

O gás natural liquefeito abalou a política do oleoduto, criando a concorrência para fornecedoras antigas como a Gazprom. As importações globais de gás natural liquefeito cresceram mais de 9% no ano passado, uma porcentagem muito mais rápida do que a do petróleo ou do gás, segundo a Rystad Energy, uma companhia de pesquisa de mercado. Os EUA estão prestes a se tornarem líderes globais como Catar nas próximas décadas.

Neste ambiente, trava-se uma espécie de Guerra Fria entre fornecedores de energia como a Rússia e a Argélia, e as novas exportadoras dos Estados Unidos. No passado, a Alemanha dependia dos oleodutos russos, e a maior economia da Europa certamente necessitará de combustível russo no futuro. Berlim está permitindo a construção de um novo enorme oleoduto sob o Mar Báltico saindo da Rússia, chamado Nordstream 2 - para desagrado da Polônia e dos EUA.

O preço também é um problema; os do gás são estabelecidos em grande parte pelos mercados financeiros, e a Rússia pode produzi-lo a baixo preço. A perspectiva da concorrência bem como de processos antitruste movido pela União Europeia, obrigaram a Gazprom a modificar a sua política.

Em grande parte da Europa, a gigante russa modificou os termos dos contratos a fim de refletir os preços de mercado do gás e não o preço do petróleo, que pode ser extremamente diferente, segundo Jonathan Stern, um conceituado pesquisador sênior do Oxford Institute for Energy Studies.

No caso da Polônia, a política pode em última análise determinar o preço. O governo pretende expandir estas instalações, que atualmente têm capacidade para importar cerca de 25% das necessidades anuais da Polônia. Também pretende construir um oleoduto a partir da Noruega, onde a PGNiG controlada pelo Estado está investindo em uma rede de campos de gás com a finalidade de isolar a Polônia de interferências políticas.

“O preço do comércio é apenas um componente”, do gás natural liquefeito, disse Jeffrey W. Martin, presidente e principal executivo da Sempra Energy em San Diego, que assinou um contrato de fornecimento com a Polônia de uma fábrica planejada no Texas, no ano passado. “A segurança do fornecimento é um grande problema”./Melissa Eddy e Andrew E. Kramer contribuíram para a reportagem.

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