Dado Galdieri para The New York Times
Dado Galdieri para The New York Times

Poluição mata golfinhos em baía do Rio de Janeiro

A repentina morte de mais de 200 golfinhos em uma área portuária do Rio de Janeiro causou preocupação a ambientalistas

Dado Galdieri, The New York Times

13 Abril 2018 | 10h00

ITACURUÇÁ - Algo sinistro estava ocorrendo nas águas turquesa da Baía de Sepetiba, um porto florescente nas proximidades do Rio de Janeiro. No final do ano passado, alguns pescadores começaram a se deparar com as carcaças feridas, macilentas de golfinhos, às vezes, cinco em um único dia, boiando.

Desde então, os cientistas descobriram, neste mesmo lugar, mais de 200 golfinhos Guiana mortos (cujo nome científico é Sotalia guianensis), um quarto do que era a maior concentração mundial desta espécie. As mortes, causadas por falência dos sistemas respiratório e nervoso relacionadas a um vírus diminuíram, mas os cientistas estão trabalhando para descobrir a causa.

Como é possível, eles se perguntam, que um vírus que poderia ter causado a morte de apenas alguns animais possa ter acabado com dezenas deles? E será que parte da resposta se encontra na própria baía, uma evidência ao mesmo tempo do poderio econômico do Brasil e de uma ameaça de risco ambiental?

Os golfinhos da Guiana são considerados "sentinelas", logo "quando algo errado acontece com eles, é sinal de que todo o ecossistema está sendo destruído", disse Mariana Alonso, bióloga do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A Baía de Sepetiba, outrora uma tranquila região de pescadores de areias brancas e minúsculas ilhas no formato de morros, a 60 quilômetros do centro do Rio, tornou-se uma das principais saídas para as exportações brasileiras nos últimos 25 anos. Em 2017, partiram dali 39 milhões de toneladas de minério de ferro e de outras mercadorias. Os barcos de pesca que cruzam a baía agora driblam navios carregados de ferro e aço. Embora as pessoas ainda nadem em suas águas, quatro portos e uma constelação de fábricas de produtos químicos, aço e indústrias várias surgiram nas suas margens. Um dos maiores produtores de minério de ferro do mundo, a companhia Vale, ocupa um novo terminal em uma antiga área de pesca, na vizinha ilha de Guaiba.

"O número de indústrias e de empresas ao longo da baía cresceu exponencialmente nos últimos anos", disse Mariana. "Isso gera uma maior concentração de poluentes no leito do mar e na cadeia alimentar".

Os cientistas atribuíram a série de mortes dos golfinhos ao morbillivirus, um vírus transportado pelo ar da mesma família que causa o sarampo nos seres humanos. Os efeitos do vírus - erupções na pele, febre, infecção respiratória, desorientação - sugerem uma morte horrível. Os golfinhos mortos foram vistos nadando de lado e sozinhos. Algumas carcaças tinham deformações feias, e sangue jorrava de seus olhos.

Sergio Hirichi, 49, um pescador nascido na região, disse que está assistindo ao declínio ambiental da baía. "Daqui, eu vejo muito lixo mineral indo para o oceano", afirmou. "A Baía de Sepetiba é um estuário, um viveiro de espécies. E a sua destruição é a destruição da vida marinha".

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