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Partículas minúsculas estão causando milhões de mortes todos os anos

Nos Estados Unidos, que está entre os países de ar mais puro, as micropartículas em suspensão ainda contribuíram para 88 mil mortes prematuras em 2015

Nadja Popovich, Blacki Migliozzi, Karthik Patanjali, Anjali Singhvi e Jon Huang, The New York Times

21 de dezembro de 2019 | 06h00

A poluição por partículas suspensas no ar foi responsável por um total de mortes estimado em 4,2 milhões em todo o mundo em 2015, a maioria delas concentrada no Leste e no Sul da Ásia. Milhões de outras pessoas adoeceram por respirar o ar sujo. Essa poluição por partículas finas é proveniente da combustão: o carvão nas usinas de energia, a gasolina nos carros, os produtos químicos nos processos industriais, ou a madeira nos incêndios.

As partículas são pequenas demais para serem vista a olho nu - cada uma é cerca de 35 vezes menor que o menor grão de areia da praia -, mas, em altas concentrações, obscurecem o céu com uma névoa. E, quando aspiradas, causam efeitos devastadores para a saúde humana.

Esse tipo de poluição, chamado de PM2,5 porque cada partícula tem menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, pode penetrar nas profundezas dos pulmões e chegar à corrente sanguínea. Já se comprovou que ela exacerba transtornos pulmonares e aumenta o risco de ataque cardíaco e derrame.

Também foi associada a problemas de desenvolvimento em crianças e problemas cognitivos nos mais velhos, bem como a partos prematuros e baixo peso no nascimento. Submetidos a altos níveis de poluição, “somos incapazes de funcionar e prosperar", disse a analista ambiental Alexandra Karambelas, ligada à Universidade Columbia, em Nova York. “O acesso ao ar puro é uma espécie de direito humano básico.”

As regiões em desenvolvimento sofrem atualmente com o pior da poluição por partículas. Mas até as economias desenvolvidas de renda mais alta, que fizeram grandes avanços na redução desse tipo de poluição, continuam a enfrentar problemas. Nos Estados Unidos, que está entre os países de ar mais puro, as micropartículas em suspensão ainda contribuíram para 88 mil mortes prematuras em 2015.

Para Karambelas, antes de decidir como enfrentar a questão do ar tóxico, os governos precisam compreender melhor as causas desse quadro. “Será uma falta de supervisão mais rigorosa? Será que as leis são de fato cumpridas?” indagou ela. “Será que há algo ocorrendo no nível regional que desempenha um papel importante nisso?”

O volume de poluição também varia de bairro para bairro em uma mesma cidade. E a poluição não afeta igualmente todos os grupos. Em todo o mundo, os mais pobres são os que mais sofrem com a má qualidade do ar. No ano passado, o mortífero incêndio conhecido como Camp Fire varreu a cidade de Paradise, na Califórnia, causando 85 mortes e destruindo quase 19 mil construções. A fumaça do incêndio cobriu boa parte do norte da Califórnia por quase duas semanas.

Em São Francisco, a cerca de 320 quilômetros ao sul de Paradise, a poluição por micropartículas chegou a quase 200 microgramas por metro cúbico nos piores momentos, de acordo com a organização sem fins lucrativos Berkeley Earth. A qualidade média do ar ficou entre “ruim” e “muito ruim” por 11 dias.

Escolas foram fechadas e o serviço de bondes foi suspenso; máscaras de proteção e filtros de ar se esgotaram nas lojas locais. A mudança climática levou a incêndios mais catastróficos. Mesmo a exposição periódica a níveis altos de poluição PM2,5 pode ter consequências duradouras para a saúde.

No mês passado, a poluição por micropartículas chegou a níveis apocalípticos em Nova Delhi, cidade que tem problemas com a qualidade do ar durante o ano todo. No dia mais poluído, as leituras de PM2,5 ultrapassaram a marca de “tóxicas”, permanecendo perigosamente altas durante semanas. As autoridades fecharam escolas e distribuíram milhões de máscaras de proteção. Na tentativa de limpar o ar, foram interrompidos temporariamente todos os projetos de construção, e o número de carros nas ruas foi limitado.

O aumento na poluição que acompanha o começo do inverno se tornou “deprimente e previsível” nos dez anos mais recentes, disse o cientista Joshua Apte, que analisa a qualidade do ar para a Universidade do Texas, em Austin. No fim de outubro e início de novembro, a fumaça das queimadas do setor agrícola se soma à poluição urbana para criar o chamado smog. Ao mesmo tempo, o ar frio do inverno que chega do Himalaia mantém a poluição perto da superfície, criando um cinturão enevoado.

Cidades no norte da Índia observam padrões semelhantes no comportamento da poluição. “O nível de poluição em toda a região é muito alto em um típico dia de inverno", disse Apte. “Mesmo quando o céu parece estar limpo em Delhi, a concentração de poluentes no ar costuma exceder o limite do que é considerado seguro.”

A Suprema Corte da Índia criticou os governos estaduais no mês passado pelos repetidos fracassos na solução da crise e por ignorar ordens prevendo uma restrição às queimadas. Descrevendo como um direito o acesso ao ar e à água limpos, o tribunal disse que os governos locais devem compensar os cidadãos caso fracassem na limpeza do meio ambiente.

Pequim já foi sinônimo de ar poluído. Mas, em 2014, o governo anunciou uma “guerra contra a poluição". Foram definidos limites rigorosos para a queima de carvão, e novos limites de emissões para usinas de energia e a indústria pesada. Pequim, Xangai e outras cidades grandes limitaram o número de veículos mais poluentes e subsidiaram a implementação de ônibus elétricos. Hoje, a qualidade do ar melhorou em Pequim, mas o céu está longe de ficar limpo.

Em 2016, o grupo ambientalista Greenpeace alertou que medidas de controle aprovadas no leste da China estavam empurrando as indústrias mais poluidoras para o oeste, tornando o ar dessa região mais perigoso. A China Ocidental também está sujeita a grandes tempestades de areia sazonais, que também afetam negativamente a qualidade do ar. No ano passado, duas cidades da província de Xinjiang, Hotan e Kashgar, ficaram entre as mais poluídas do mundo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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