Laetitia Vancon para The New York Times
Laetitia Vancon para The New York Times

Poluição cresce nas fazendas subsidiadas pela União Europeia

Investigação do 'Times' confirmou que áreas que mais recebem subsídios são justamente as mais poluídas

Matt Apuzzo, Selam Gebrekidan, Agustin Armendariz e Jin Wu, The New York Times

05 de janeiro de 2020 | 06h00

No segundo trimestre de 2017, um grupo de trabalho de ambientalistas, acadêmicos e lobistas da União Europeia realizava um debate técnico a respeito de práticas limpas para a agricultura quando um mapa foi exibido na tela do salão de reuniões. Todos ficaram congelados.

A imagem mostrava a sobreposição da poluição observada no norte da Itália com os subsídios pagos pela UE aos agricultores da região. A coincidência inegável apontava para uma pergunta fundamental: estaria a UE financiando os problemas ambientais que buscava resolver?

De acordo com os participantes do encontro, o mapa foi excluído dos relatórios finais do grupo. Mas, usando os modelos econômicos da UE, o New York Times criou uma aproximação que confirma aquilo que as autoridades preferiam esconder: as áreas que recebem mais subsídios são justamente as mais poluídas.

No mês passado, líderes europeus estabeleceram metas ambiciosas para o combate à mudança climática para salvar espécies da extinção. Mas um dos maiores impedimentos é o programa de subsídios anuais de US$ 65 bilhões oferecido pelo bloco para sustentar os agricultores. E investigações recentes realizadas pelo Times mostram que o benefício é controlado por autoridades que se aproveitam dos pagamentos.

Os subsídios agrícolas trazem graves consequências ambientais. Algas em decomposição depositam gases mortíferos nas praias. A queda na população de aves ameaça ecossistemas inteiros. As emissões de gases-estufa estão aumentando. E, no Mar Báltico, décadas de lixo agrícola depositado criaram imensas zonas desérticas.

A pergunta agora é se os governantes europeus vão confrontar as contradições no programa ou ocultá-las do público, como fizeram com o mapa em 2017. “Aquele mapa indicava que: ‘Temos um problema. Vamos analisar uma forma de resolver o problema’”, disse a ambientalista Faustine Bas-Defossez, que participou da reunião. “Mas ninguém queria falar a respeito daquilo.”

‘Efeitos adversos’ para os animais

Para se ter uma ideia do grau da crise de biodiversidade na Europa, basta ver o exemplo da perdiz-cinzenta — isso é, se conseguirmos encontrar uma delas. Trata-se daquilo que os cientistas chamam de bioindicador, espécie cuja presença aponta para um equilíbrio saudável entre humanos e natureza. Mas, em menos de três décadas, a população de perdizes da Holanda teve queda de mais de 90%. Na Grã-Bretanha foram observados declínios semelhantes. “Estamos falando de um colapso", explicou o ecologista Frans van Alebeek, da BirdLife Netherlands, grupo que luta pela proteção à vida silvestre.

A vasta beleza das fazendas europeias de hoje é enganadora. As borboletas estão desaparecendo e os insetos estão sumindo, o que ameaça acabar com a cadeia alimentar que sustenta a vida. As perdizes já foram onipresentes, fazendo seus ninhos em altas cercas vivas onde os filhotes se alimentavam de sementes e insetos. Mas faz anos que os agricultores limpam novas terras para ampliar o lucro e se candidatar ao recebimento de mais subsídios, substituindo cercas vivas, flores e gramado alto por terras cultivadas. Com o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas, as perdizes e outras aves ficaram sem alimento.

Faz quase duas décadas que autoridades da UE sabem das terríveis consequências dessa política agrícola para a vida silvestre. Em 2004, cientistas divulgaram dois relatórios responsabilizando os subsídios agrícolas pelo declínio da população de pássaros e “graves efeitos adversos para a biodiversidade na agricultura". Relatórios internos pintavam o mesmo quadro deprimente. Um documentos de 2004 previu que a vida silvestre nas fazendas entraria em declínio quando novos membros da UE pudessem receber os subsídios. Estudos mostraram que tais previsões estavam corretas.

Em 2011, o bloco europeu definiu como meta interromper e reverter o declínio de espécies até o presente ano. As autoridades aprovaram uma política exigindo dos agricultores que separem terrenos menores para o cultivo de grama ou cercas vivas. Mas, sob a pressão dos lobistas, a lei foi alterada para permitir que os agricultores cultivem gêneros comerciais nesses terrenos.

“No papel, muito foi feito", argumentou Ann van Doorn, da Universidade Wageningen, nos Países Baixos, que documentou o elo entre subsídios agrícolas e o declínio da presença de insetos e aves. “Na prática, a frustração é grande.”

Van Alebeek, ecologista holandês, trabalha com colegas e autoridades locais para alugar pequenos terrenos de área cultivável  no Brabante do Norte, uma das regiões de agricultura mais intensiva dos Países Baixos. Eles acrescentam cercas vivas, flores e outras características. A população de perdizes nessa área se mostra estável, enquanto a presença de insetos aumentou.

Seria necessária uma pequena fração do orçamento agrícola para instituir mudanças desse tipo em toda a Europa, disse ele. Mesmo assim, o esperado é que a UE fique muito aquém das metas de biodiversidade estabelecidas para este ano. Seu próprio boletim apontou recentemente que “nenhum progresso significativo foi alcançado."

Agravando a mudança climática

As emissões de gases-estufa provenientes da agricultura estão aumentando, revertendo anos de declínio, de acordo com dados da UE. A agricultura responde por cerca de 10% das emissões de gases-estufa na Europa. Boa parte disso é proveniente de animais de corte que expelem metano, um potente gás-estufa. Os fertilizantes contribuem emitindo óxido nitroso. O esterco em decomposição libera metano e amônia.

Alguns subsídios, como aqueles que sustentam diretamente a pecuária, estão agravando a situação, de acordo com relatório preparado pela Comissão Europeia. Conforme aponta o documento, medidas ambientais no projeto de lei agrícola dificilmente resultarão em uma redução significativa das emissões.

A crítica foi ecoada em um relatório de progresso publicado no mês passado mostrando que a UE provavelmente ficará aquém das metas de emissões para 2050. “O tempo para o desenvolvimento de respostas críveis para reverter essa tendência está se esgotando", indicou a Agência Ambiental Europeia.

Os países que tentam reduzir as emissões agrícolas enfrentam uma dura resistência. No ano passado, legisladores holandeses propuseram reduzir pela metade o número e animais na pecuária para reduzir as emissões. Agricultores responderam fechando as ruas de Haia com tratores. “Essa é a realidade na qual vivemos e na qual as decisões são tomadas", afirmou Janez Potocnik, ex-comissário europeu do meio ambiente que pressionou sem sucesso por mais restrições aos poluentes. “Tentei fazer mudanças, e sempre me responderam: ‘Você não pode fazer isso’.”

Toxinas provenientes dos dejetos agrícolas

Nas praias do noroeste da França, o cadáver de um homem foi tirado de uma pilha de gosma verde. Um cavaleiro foi encontrado inconsciente ao lado do cavalo, morto. Um funcionário da praia entrou em coma, e um corredor sofreu um colapso fatal.

A razão parecia óbvia para o médico Pierre Philippe, que trabalha no pronto-socorro. Todo verão, algas revestem as praias da Bretanha com uma gosma de coloração verde. Ao se decompor, a alga emite sulfeto de hidrogênio, gás tóxico capaz de matar em segundos.

Durante anos, Philippe tentou convencer as autoridades do governo a reconhecer a ameaça, ou mesmo debatê-la. Elas se recusaram. 

A Bretanha produz mais da metade da carne de porco da França e um quarto de seus laticínios. O esterco é jogado nos campos de trigo e milho, que existem quase exclusivamente para alimentar os animais. Como resultado, a região da Bretanha tem a maior concentração de hidrogênio da França.

Esses nitratos são alimento para as algas verdes: os dejetos das fazendas da região contaminam a água do mar, contribuindo para uma infestação de algas ainda maior.

André Ollivro lembra de perguntar às autoridades de saúde a respeito das algas há mais de uma década. “As crianças brincavam perto da alga e adoeciam", lenbrou Ollivro, de 74 anos. Logo, as pilhas de algas em decomposição ficaram tão altas a ponto de impedir o acesso à praia.

As autoridades disseram a ele e aos vizinhos que os responsáveis eram eles. “Disseram que aquilo era resultado dos fosfatos das máquinas de lavar roupa", rememorou.

Edwige Kerbouriou, representante da câmara agrícola da Bretanha, reconheceu que, durante anos, autoridades e agricultores recusaram toda sugestão de um elo entre as práticas agrícolas e a gosma verde que se acumulava nas praias.

Anos de processos na justiça e pressão política obrigaram legisladores e lideranças da indústria a reconhecer a associação entre as duas coisas. Leis mais duras para a emissão de nitratos levaram a mudanças nas práticas de uso dos fertilizantes, e o nitrato nos dejetos agrícolas diminuiu. Mas a poluição segue elevada, e a maioria das baías da região deve ficar aquém das metas ambientais estabelecidas, de acordo com as autoridades, que dizem que o combate à poluição por nitratos exigirá dos agricultores que façam novos investimentos, aceitando, também, níveis de produção reduzidos. Estes disseram que não aceitarão regras que diminuam seu lucro.

Por enquanto, as autoridades da Bretanha enviam equipamento para transportar a alga para longe das praias antes que esta apodreça, tornando-se tóxica. E, quando o problema se torna incontrolável, como ocorreu no verão mais recente, as autoridades fecham as praias e espalham avisos.

Desertos no leito marinho

Em uma manhã de novembro, o oceanógrafo Daniel Rak observava enquanto os colegas do navio de pesquisas Oceania mergulhavam câmeras e um sensor até o leito do Mar Báltico. Quando os instrumentos foram trazidos novamente à superfície, Rak entrou no laboratório do navio e confirmou suas suspeitas: a embarcação estava em uma zona morta.

O Báltico é um dos mares mais poluídos do mundo. O excesso de nitrogênio e fósforo no mar alimenta as algas. Quando morrem, as algas são decompostas por bactérias que esgotam o oxigênio. Grandes trechos do Báltico se tornaram zonas mortas, sem oxigênio suficiente para a sobrevivência da maior parte da vida marinha. Podem ser necessários quase 200 anos antes que partes do mar sejam restauradas, de acordo com a Agência Ambiental Europeia.

A Polônia, maior poluidora do Báltico, é também a quinta maior beneficiada pelos subsídios europeus, perdendo para França, Espanha, Alemanha e Itália. As autoridades polonesas negam a existência de uma correlação entre as duas coisas, e o vice-ministro da agricultura do país, Ryszard Zarudzki, disse que os subsídios “impõem aos agricultores a responsabilidade jurídica de respeitar as leis ambientais."

Mas, mais recentemente, o governo da Polônia começou a agir. Em 2018, o governo reconheceu que as fazendas estavam poluindo a água do país. Uma nova diretriz limitou a quantidade de fertilizante que pode ser usada pelos agricultores e o momento de sua utilização. Agora, exige-se dos agricultores que armazenem o esterco em silos à prova de vazamento durante metade do ano.

As novas políticas não impressionaram os agricultores da província da Grande Polônia, onde o número de fazendas de pecuária é maior. Vários deles criticaram os requisitos como uma intromissão burocrática de Bruxelas.

Durante décadas, a UE quis produzir ainda mais alimento e lucro. Hoje, quer estimular uma reforma ambiental. Até o momento, foi impossível promover as duas coisas simultaneamente.“Se a pessoa for recompensada por destruir o meio ambiente, ela vai destruí-lo", ressaltou Potocnik, ex-comissário do meio ambiente. “Afinal, por que não?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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