Ana Brigida para The New York Times
Ana Brigida para The New York Times

De volta às raízes, rapper angolana Pongo encanta Europa

Os versos dos raps de Pongo são geralmente em português e kimbundu, um idioma falando em Angola

Kate Hutchinson, The New York Times

26 de fevereiro de 2020 | 06h00

LISBOA - Em uma apresentação recente, a estrela pop portuguesa-angolana Pongo golpeava o ar com chutes de caratê. Ela consegue desferir dezenas de chutes em uma só canção, seguidos por movimentos de twerk que fazem esvoaçar seus modelitos cheios de lantejoulas.

As músicas de Pongo são uma abordagem ousada para o estilo musical conhecido como kuduro, misturando ritmos africanos frenéticos e batidas do techno com o rap. E tratam geralmente da superação dos desafios que ela enfrentou enquanto jovem africana tentando o sucesso na cena musical portuguesa.

Pongo foi descoberta em Portugal em 2008, quando tinha 15 anos, fazendo um rap na música Kalemba (Wegue Wegue) do grupo de dança Buraka Som Sistema. A canção teve mais de 11 milhões de visualizações no YouTube. Mas então, Pongo deixou o grupo e teve anos de reveses. Agora, a paciência dela é recompensada. Pongo, de 27 anos, venceu recentemente o show de talentos Music Moves Europe. Está ficando mais conhecida em todo o continente, particularmente na França e na Grã-Bretanha.

Os versos dos raps de Pongo são geralmente em português e kimbundu, um idioma falando em Angola. O kuduro é uma enérgica mistura transatlântica de gêneros - incluindo hip-hop, house, zouk e soca - e Pongo acrescenta à receita estilos eletrônicos atuais e o pop contemporâneo. Pongo, cujo nome verdadeiro é Engrácia Silva, tinha 8 anos quando a família deixou Angola nos anos 1990 durante um período de instabilidade civil. Em Portugal, os cinco membros da família viveram em um único quarto de hostel durante um ano, disse ela.

Quando a família se mudou para um bairro de maioria branca no norte de Lisboa, Pongo disse ter sido alvo de discriminação por parte dos colegas de escola. Em casa, o pai, rigoroso, não permitia que Pongo e as irmãs tivessem vida social, disse ela. Aos 12 anos, ela se jogou da janela do sétimo andar.

Escapou apenas com a perna quebrada. Para chegar à fisioterapia, do outro lado da cidade, Pongo descia na estação de trem de Queluz, onde viviam muitos imigrantes africanos. Foi ali que ela viu o grupo de dança kuduro Denon Squad se apresentando na rua. Quando o ferimento cicatrizou, ela começou a dançar com o grupo, e logo passou a se dedicar ao rap. “Foi graças à música que descobri minha vontade de viver”, disse ela.

Sua participação no Denon Squad levou à sua descoberta por parte do Buraka Som Sistema, e ela se apresentou com o grupo por dois anos. Mas, de acordo com Pongo, houve uma disputa envolvendo direitos autorais. João Barbosa, um dos integrantes do Buraka Som Sistema, disse que ela nunca foi mais do que uma vocalista convidada, e o grupo decidiu trabalhar com outra cantora.

Pongo disse que se ocupou de empregos monótonos para sustentar as irmãs depois que o pai abandonou a família. Então, um dia, teve uma epifania. “Eu estava fazendo faxina em uma casa quando ouvi no rádio Wegue Wegue", disse ela. “Naquele momento, me pareceu que era hora de lutar” pela sua carreira.

A reinvenção de Pongo ocorreu em um momento em que outros músicos de Lisboa da África lusófona estavam valorizando as próprias raízes. A cena musical da cidade apresenta uma mistura pós-colonial única de nacionalidades - principalmente angolanos, guineanos, cabo-verdenses e moçambicanos - e a sonoridade reflete essa diversidade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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