Zoran Marinovic para The New York Times
Zoran Marinovic para The New York Times

Ponte croata é um teste para a força da União Europeia

Bloco se mostra preocupado com o fato de o projeto de infraestrutura ser conduzido por empresa chinesa

Marc Santora e Barbara Surk, The New York Times

16 de novembro de 2018 | 06h00

KOMARNA, CROÁCIA - Como por um capricho da história, um pedaço da Croácia foi separado do resto do país por um trecho de 20 quilômetros de terra que pertence à vizinha Bósnia. Trata-se de um corte que a Croácia há muito quer reparar com uma ponte.

Há dezenas de anos - anos de frustrações com a guerra, a corrupção e disputas políticas, além do torvelinho financeiro global - as obras nunca foram muito além de uns filões de concreto abandonados e dois anjos de bronze que olham para o Mar Adriático.

Isto é, até a chegada dos chineses, neste verão. A estatal de construções China Road and Bridge Corporation é a mais recente companhia disposta a assumir o projeto. Para muitos croatas, a possibilidade de que a tão esperada ponte esteja prestes a se concluir é motivo de comemorações.

Mas o projeto é também um teste para a União Europeia, preocupada pelo fato de permitir o ingresso de estatais chinesas no mercado de grandes projetos de infraestrutura europeus. O temor é que as companhias chinesas prejudiquem a concorrência, atropelem a legislação trabalhista do bloco e rebaixem os salários.

A ponte que se estenderá sobre a água que separa uma península da região, onde está a aldeia de Komarna e o restante da Croácia, é o primeiro projeto financiado por dinheiro da União Europeia ganho por uma firma chinesa. 

A China Road and Bridge venceu a licitação com uma proposta cerca de US$ 100 milhões inferior à da concorrente mais próxima, gerando um problema legal. A Comissão Europeia está investigando se a Croácia ganhou o contrato de acordo com as regras da União.

As empresas estatais chinesas costumam trazer a maior parte dos seus trabalhadores para os projetos de construção. A China Road and Bridge e as autoridades croatas não quiseram comentar o caso. “As companhias europeias cada vez mais se encontram na situação de não poder competir com as companhias chinesas subsidiadas pelo Estado na questão dos preços”, disse Jens Bastian, analista econômico.

A China está no meio de uma farra global de gastos com infraestrutura conhecida como a Belt and Road Iniciative (Iniciativa de um cinturão e uma estrada). Ela está cultivando os líderes nos países dos Bálcãs e do Leste Europeu, em uma abertura que alguns consideram uma tentativa de minar o bloco.

Em um relatório de 2016, o European Union Institute for Security Studies concluiu que o bloco deverá “admitir que a sua influência no que se refere a direcionar o comportamento corporativo chinês é limitada”.

Entretanto, no caso da Croácia, que ingressou na União Europeia em 2013, o projeto tornou-se uma solução relativamente barata para um problema antes insolúvel em uma região dos Bálcãs onde as pontes têm há muito uma função fundamental. 

Quando os governantes procuraram unir os grupos étnicos e religiosos da região, foram construídas pontes sobre rios e sobre vales. Quando os governantes quiseram dividir as pessoas segundo linhas étnicas, estas pontes em várias ocasiões foram derrubadas a fim de manter as comunidades separadas.

O fosso que se criou no território da Croácia surgiu com a dissolução da Iugoslávia socialista. O corredor de Neum, a faixa costeira da Bósnia que corta a Croácia em duas partes, é o único acesso da Bósnia ao Mar Adriático.

Na presente situação, as pessoas que precisam se deslocar da costa meridional da Croácia devem passar por quatro postos de controle de fronteira para chegar ao restante do país. O trâmite pode significar demoras de horas que perturbam um dos principais motores econômicos da nação, o turismo. Em junho de 2017, a UE anunciou uma alocação de 357 milhões de euros, US$ 414 milhões, cerca de 85% do custo da ponte - com certo estardalhaço.

“Este projeto representa autenticamente o nosso compromisso com a retirada das barreiras, a união dos territórios e das pessoas”, afirmou na época Corina Creta, a comissária para a política regional da União.

Seis meses mais tarde, a situação se complicou ainda mais quando a Croácia atribuiu o projeto à China Road and Bridge. Recentemente, Jeroslav Segedin, engenheiro civil, fez uma avaliação dos primeiros estágios do projeto. 

Como representante da Croatia Roads, a empresa que contratou o projeto com a companhia chinesa, ele destacou a importância da ponte, apesar das preocupações em razão do envolvimento de Pequim. “Isto significa muito, tanto para a Croácia quanto para esta região”, afirmou Segedin. “Será um símbolo nacional para a Croácia”.

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