Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Ponto de encontro de oficiais comunistas no Kosovo está em ruínas

O outrora opulento Grand Hotel de Pristina, construído em 1978, fica deserto na maior parte do tempo

Andrew Higgins, The New York Times

09 Março 2018 | 10h00

PRISTINA, Kosovo - O Grand Hotel do Kosovo, em Pristina, é regularmente alvo de comentários pela internet: "nojento", "caindo aos pedaços", "um horror total. Provavelmente o pior em que eu estive”.

Mas os gerentes não se abalam. Eles não fazem as reservas pela internet e seu hotel não tem conta de e-mail.

Sinônimo da opulência moderna quando esta parte dos Bálcãs ainda fazia parte da hoje extinta Iugoslávia, o Grand Hotel, de propriedade do Estado, havia sofrido um declínio tão acelerado que até o presidente do Kosovo, Hashim Thaci, em geral um empolgado promotor de seu país, tentava encontrar algo simpático para dizer.

"Não acho que seja o pior hotel do mundo, mas é porque o mundo é muito grande", afirmou.

Quando recentemente me hospedei no hotel de 500 quartos, era o único hóspede. Com 13 andares e três blocos de concreto um ao lado do outro em uma localização privilegiada, o hotel hoje acomoda pombos nos andares superiores e alugou o porão, outrora usado como prisão pelos paramilitares sérvios, a um clube de fitness. Fora isso, é um deserto, um labirinto de corredores mal iluminados cobertos de penas dos pombos, decorados com enormes teias de aranhas, fileiras de portas de madeira escura e assombrado pelas memórias mais tétricas do passado do Kosovo.

O gerente geral do Grand Hotel, Rrahim Fazliu, admitiu que o local talvez não mereça mais as cinco estrelas que reivindicou quando foi construído em 1978. Mas insistiu: "com alguns retoques" poderá tornar-se "símbolo de sucesso" de um país que ainda luta para encontrar seu lugar quase 20 anos depois que a campanha de bombardeios da Otan quebrou o punho de ferro da Sérvia na região.

O serviço é mínimo, senão inexistente, o saguão de mármore fede a cigarros, e o carpete verde está manchado. E há também baratas.

Nos dois andares que estão preparados para acolher eventuais hóspedes, os quartos são relativamente limpos e oferecem ocasionalmente água quente. Os poucos funcionários procuram mostrar-se úteis, e estão claramente embaraçados com o estado de desleixo do hotel.

Shirije Abazi, uma camareira de 58 anos que começou a trabalhar no hotel um mês depois da inauguração, ainda cuida para que haja sabonete e xampu para hospedes que não existem mais, mas que, em um triunfo da esperança sobre a realidade, ela acha que em breve retornarão.

Antes que a Iugoslávia se desmembrasse, nos anos 1990, Thaci lembra, o Grand Hotel era o ponto de encontro favorito dos oficiais comunistas, e, depois que eles partiram, de capangas armados encarregados de manter Kosovo como parte da Sérvia.

Josip Broz Tito, ditador iugoslavo que permaneceu muito tempo no poder, tinha uma suíte no quarto andar. Depois da morte de Tito, em 1980, quando seu país multiétnico começou a se desfazer, o hotel continuou labutando com dificuldade e até mesmo prosperou por algum tempo; a taxa de ocupação aumentou com a chegada de jornalistas estrangeiros e gangues paramilitares sérvias que queriam limpar o Kosovo dos albaneses étnicos, que constituíam a maioria da população. Muitos tinham ido a Pristina a fim de testemunhar ao fim da hegemonia sérvia, o nascimento do que os Estados Unidos e seus aliados europeus esperavam que se tornaria um país novo e próspero firmemente ancorado no Ocidente e em suas diretrizes.

Uma parte crucial deste plano era um programa de impacto de privatização dos bens do antigo Estado iugoslavo, como o Grand Hotel. Posto à venda em 2006, foi adquirido por uma obscura companhia local que pagou apenas 8 milhões de euros, mas prometeu, como parte do acordo, investir mais 20 milhões de euros. O investimento prometido nunca se concretizou.

O hotel agora está sendo liquidado e seus bens, que incluem uma valiosa coleção de arte moderna, vendidos ou colocados em um museu até que seja encontrado um novo dono.

"Talvez possamos construir uma Trump Tower aqui", sugeriu Thaci.

Mais conteúdo sobre:
Kosovo [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.