Roger Kisby para The New York Times
Roger Kisby para The New York Times

População americana nascida no exterior atinge seu maior patamar desde 1910

Os recém-chegados são mais propensos a vir da Ásia do que da América Latina

Miriam Jordan e Sabrina Tavernise, The New York Times

05 Outubro 2018 | 10h15


LAS VEGAS - O jovem engenheiro chegou aos Estados Unidos quando tinha 23 anos, com uma boa formação universitária, e muito pouco além disso. Arranjou um emprego em um sítio de testes nucleares e construiu uma casa em Nevada. Entre os anos 1970 e meados dos 1980, trouxe da Índia, sua terra natal, a esposa, sua mãe, cinco irmãs e um irmão. Nos anos seguintes, os irmãos conseguiram a vinda de outros membros de suas famílias, e o clã agora se estende de Nevada à Flórida, de Nova Jersey ao Texas - mais de 1990 americanos que prosperaram, em parte, graças à força de um engenheiro ambicioso, Jagdish Patel, 72.

Neste verão, quatro gerações de Patel celebraram em Las Vegas uma reunião da qual participaram entre outros um investidor de capital de risco, um engenheiro de redes, médicos, dentistas e estudantes. 

“Estou muito feliz por ter vindo aos Estados Unidos”, disse Patel recentemente, sentado na casa que mandou construir em Las Vegas, com um home theater em que ele pode assistir às partidas da Super Bowl, e uma sala revestida de mármore onde há um pequeno templo hindu. “Eu trouxe todos para cá”, afirmou, “e nós prestamos valiosos serviços a este país”.

A parcela da população dos Estados Unidos nascida no exterior atingiu seu patamar mais elevado desde 1910, segundo dados oficiais. Mas estes números não aumentaram tanto entre os latino-americanos que cruzaram a fronteira. Somente asiáticos obtêm vistos - famílias como os Patel, que se beneficiaram com os dispositivos da lei americana da imigração referentes à “reunificação familiar”.

Desde que os Patel chegaram em massa aos Estados Unidos, nos anos 1970, vieram outros milhões de indianos para trabalhar como programadores e engenheiros no Vale do Silício, médicos nas regiões rurais onde profissionais desta área escasseiam e como pesquisadores em universidades. A maioria deles foi patrocinada por parentes que chegaram antes deles. Outros vieram com vistos de trabalho e posteriormente receberam a ajuda dos seus empregadores para a obtenção da permanência legal, o green card.

O governo Trump considera a imigração uma ameaça para a segurança da nação e para os trabalhadores americanos, uma visão drasticamente oposta  ao consenso anterior que vê a imigração como benéfica. O presidente se preocupa na maioria das vezes em reforçar a fronteira sudoeste, mas a sua administração trabalha também para reduzir gradativamente dezenas de anos de migração legal que permitiu que os asiáticos se tornassem o maior grupo de novos residentes nascidos no exterior desde 2010.

O governo está tomando medidas para reduzir a imigração legal, sob a bandeira do “Comprem americano e contratem americanos”, que no ano passado o presidente consignou em um decreto. A própria admissão de refugiados foi reduzida; assim como o número de pessoas com direito a asilo; hoje é mais difícil a concessão de permanência ou cidadania, e os candidatos a vistos de trabalho de grande especialização, chamados H-1B, são submetidos a uma rigorosa seleção.

Uma recente análise dos dados oficiais da National Foundation for American Policy, um grupo de pesquisa não partidário, mostrou que a taxa de recusa das solicitações de visto H-1B saltou para 41% nos últimos três meses do exercício fiscal de 2017, em comparação ao trimestre anterior. Os candidatos patrocinados por um empregador para a obtenção da permanência agora devem passar por uma entrevista pessoal, medida que anteriormente era adotada somente em casos que suscitavam preocupação.

O governo Trump pressiona por uma política que supostamente visa favorecer os imigrantes que apresentam especializações importantes. Cerca da metade das pessoas nascidas no exterior que aqui chegaram desde 2010 têm diplomas universitários, em comparação com cerca de 30% dos que nasceram no país. “Estamos debatendo a implantação do sistema baseado no mérito, mas na realidade ele já existe”, disse David Bier, analista de políticas do Cato Instituto em Washington.

Os partidários da visão do presidente Donald Trump afirmam que esta tendência é uma decorrência secundária. Mark Krikorian, diretor do Center for Immigration Studies, é favorável à redução da imigração, disse: “Temos um sistema de imigração que recompensa as pessoas que têm parentes nos Estados Unidos, e não as pessoas que têm especializações e formação superior”.

Para Michael Bars, porta-voz do United States for Citizenship and Immigration Services, o objetivo do governo não é fechar as fronteiras, mas proteger a população da fraude, do tráfico de pessoas e da atividade criminosa.

Entretanto, há ainda, ao que se calcula, 11 milhões ilegais no país, e isto representa um grave problema político. Jeffrey Passel, demógrafo sênior do Pew Research Center, disse que embora seja considerável, “a imigração ilegal do México está chamando mais atenção do que os seus números justificam”.

De acordo com o plano do governo, o número de green cards emitidos, atribuídos a famílias, seria reduzido dos 804.793 concedidos em 2016 a cerca de 487 mil ao ano, afirma uma análise de Julia Gelatt e Sarah Pierce do Migration Policy Institute.

Atualmente, os cidadãos americanos podem patrocinar filhos menores, filhos maiores, e cônjuges, pais e irmãos e irmãs. Os detentores de green cards só podem patrocinar filhos menores e filhos maiores não casados. Pela nova proposta, os americanos podem perder o direito a solicitar a situação legal para pais, filhos maiores, ou irmãos. Os detentores de green cards só poderão patrocinar filhos menores.

O sistema atual data da Immigration and Nationality Act de 1965, que acabou com o antigo sistema de cotas por país estabelecido nos anos 1920. A ideia era tratar de maneira igualitária os cidadãos de todos os países, e dar aos cidadãos americanos a possibilidade de convidar membros da família que ainda vivessem no exterior. Também permitia em parte a imigração baseada na especialização do candidato.

Patel imigrou em 1968 e se matriculou na Youngstown State University em Ohio, onde obteve o mestrado em engenharia estrutural. Regressou à Índia em 1971 para casar, e como tinha o green card, pôde patrocinar a vinda da esposa, Amita. Em 1977, tornou-se cidadão dos EUA, e pôde patrocinar a vinda de outros parentes.

Seus filhos são cidadãos americanos. O filho, Satya, é atualmente um investidor em capital de risco em San Francisco, e anteriormente trabalhou como executivo na Google e no Twitter; sua filha, Sita Montgomery, é decoradora de interiores em Salt Lake City.

“Nos Estados Unidos, os imigrantes ainda são bem-sucedidos, independentemente da cor da pele, religião ou país de origem”, afirmou Patel, que gosta de salientar que a esposa do presidente Trump, Melania, patrocinou a vinda dos pais para o seu país de adoção. “Toda esta história de Twitter e de campanha não passa de conversa. Trump sabe que a imigração funciona”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.