Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Populações camponesas estão diminuindo na China

Pequenos lotes de terra estão se tornando parte de grandes operações, corroendo um modo de vida, mas enriquecendo os moradores locais

Michael Schuman, The New York Times

26 de outubro de 2018 | 06h00

SHANHUI, CHINA - Este vilarejo não se transforma rapidamente. O ritmo do ir e vir das épocas de plantio e colheita ainda rege as vidas de seus 3 mil moradores.

Zheng Nanda cultivou os campos que cercam seu vilarejo, na Província de Shanxi, no norte da China, por mais de quatro décadas, frequentemente atrás de um arado puxado por bovinos. Ele tem pouco mais de 70 anos, e está velho demais para um trabalho tão árduo. Seus filhos deixaram a região para trabalhar na cidade e não têm qualquer interesse em agricultura.

Então, Zheng se tornou um improvável agente transformador. Ele arrendou quase a totalidade de seu pequeno lote para outros agricultores, que trabalham com equipamentos modernos. Os US$ 500 ao ano que ele ganha com o arrendamento o ajudam a se manter com conforto.

"Não quero acompanhar meus filhos na cidade", disse. "Há um ditado chinês que diz: 'Folhas que caem retornam às raízes'".

Com os jovens deixando o campo e rumando para as cidades, mais pequenos agricultores, como Zheng, estão arrendando suas terras para outros trabalhadores. Isso representa uma mudança monumental em um país onde as pequenas propriedades familiares dominaram a paisagem rural por séculos.

Nos anos 1980, o governo acabou com as gigantescas comunas populares organizadas por Mao Tsé-tung e redistribuiu para as famílias autorizações de cultivo de lotes individuais. Novas mudanças na política de governo em meados dos anos 1990 tornaram esses direitos à terra garantidos o suficiente para agricultores arrendarem os lotes, com segurança e em larga escala, para outras pessoas.

O setor agrícola da China está longe de ser dominado por grandes fazendas comerciais, mas esse processo já se iniciou. Isso pode parecer trágico, já que o modo de vida tradicional dá lugar à modernização, mas essa transformação faz bem para a China e para a economia global.

Fazendas maiores se tornam mais eficientes. Esses fazendeiros conseguem ter maior lucro. E mais pessoas ficam livres para mudar para as cidades, o que cria ainda mais consumidores para carros da Ford, capuccinos do Starbucks e iPhones da Apple.

Enquanto os pequenos agricultores se despedem, Zheng Chenggong, de 27 anos, está tomando  seu lugar. Vinte anos atrás, o pai dele cultivava um pequeno lote com menos de 2,5 acres. Desde então, Zhen e seus pais acumularam mais de 160 acres arrendando lotes do governo local e de agricultores que desistiram de trabalhar.

O resultado é um próspero negócio, com cultivos de milho e cenoura. Pilhas de milho estão estocadas em um armazém ao lado. Durante o outono, ele dá emprego a mais de 100 pessoas, de cerca de 10 vilarejos, para a colheita de suas cenouras.

Com a produção em tal escala, Zheng consegue uma receita com a qual pequenos agricultores só podem sonhar, cerca de US$ 80 mil ao ano. Grande parte disso é reinvestido em mais terras e equipamentos.

"Em um período de 10 anos, muita terra será arrendada a grandes fazendeiros como eu", afirmou Zheng.

Nos últimos dez anos, Zhang Mianhuan, 59 anos, aumentou o tamanho de seu campo em dez vezes, para mais de 30 acres, nos quais ele cultiva milho e sorgo. Com seu antigo e pequeno lote, ele embolsava US$ 300 ao ano - quantia quase insuficiente para subsistir. Agora, ele ganha cerca de US$ 9 mil.

As mudanças na China rural podem ameaçar o espírito comunitário conforme famílias são divididas. Zheng Chengsheng, de 66 anos, foi obrigado a deixar de ser agricultor dois anos atrás, após se ferir em um acidente de moto. Ele arrenda o lote de sua família, o que dá sustento a ele e sua mulher. Seus três filhos trabalham na cidade.

"Minha mulher e eu estamos preocupados com a necessidade de termos de nos mantermos por conta própria quando ficarmos mais velhos", disse. "Essa é uma preocupação comum".

Em alguns vilarejos, as fazendas estão ficando maiores, e as populações, minguando em um ritmo ainda mais intenso do que em Shanhui. A população da China é tão grande, porém, que centenas de milhões de pessoas muito provavelmente permanecerão no campo enquanto as cidades incham.

Embora suponham que a população vai encolher, os moradores de Shanhui continuam convencidos de que o vilarejo ficará mais rico. "Tudo só vai melhorar", afirmou Zheng Nanda, o fazendeiro aposentado.

 

Muitos habitantes locais sentem saudades de seu passado mais simples. Enquanto o sol se punha e o ar esfriava, Wang Yulin, de 61 anos, cuidava de seus pés de milho recém-germinados em um campo nas imediações de Shanhui, como faz há décadas. Mas, com seus três filhos trabalhando na cidade, ele se dá conta de que algum dia terá de abrir mão de sua terra. Ele recebe essa perspectiva com resignação. 

"É possível ganhar muito dinheiro com agricultura", disse. / Zhang Tiantian colaborou com pesquisa.

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