Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Popularidade do rap entre jovens preocupa autoridades russas

Redes sociais e serviços de streaming tiraram as músicas das mãos dos chamados 'guardiões culturais' e permitiram o surgimento de novos artistas no país

Ivan Nechepurenko, The New York Times

02 de junho de 2019 | 06h00

TVER, RÚSSIA - Em uma recente noite de sexta-feira, o rapper Big Baby Tape subiu ao palco em um clube lotado perto de Moscou para lançar uma turnê de 32 shows. Um ano atrás, Big Baby Tape só era conhecido por fãs do rap. Mas em novembro, ele lançou Dragonborn, seu primeiro álbum de estúdio, que teve divulgação limitada nas rádios russas e nenhum videoclipe reproduzido na TV do país.

Mesmo assim, recebeu um disco de platina em três dias. Suas faixas foram tocadas mais de 300 milhões de vezes na VK, principal rede social e plataforma de streaming da Rússia, e ficaram no topo das listas da Apple Music por meses. Em um instante, o desconhecido rapper, chamado Yegor Rakitin, transformou-se em uma celebridade.

"Hoje, você pode ganhar dinheiro com as plataformas de streaming de música", disse Rakitin, que nasceu cinco dias depois que Vladimir V. Putin se tornou presidente da Rússia, em 1999.

Há alguns anos, sua ascensão não teria sido possível no país, onde a indústria da música pop é fortemente protegida por autoridades culturais leais ao Kremlin. Os produtores de música agiam como guardiões das aparições na TV e das estações de rádio e policiavam o conteúdo.

Mas a internet na Rússia se tornou a força dominante na indústria musical. Em abril, o número de assinantes pagos da Yandex Music, uma das principais plataformas de streaming do país, atingiu 1,7 milhão, quase o dobro de usuários em apenas um ano. Juntando pagantes e não pagantes, são cerca de 20 milhões de pessoas usando o serviço todos os meses. Ajudada por esses meios, uma vibrante cultura de rap independente do governo alcançou sucesso.

O rap começou a conquistar as mentes dos jovens na Rússia, assim como aqueles com 24 anos ou menos estão deixando de ser o grupo que mais apoia o governo Putin e se tornando cada vez mais críticos, de acordo com várias pesquisas.

Em 2018, dezenas de shows foram cancelados, e em novembro, o rapper Husky, cujo nome é Dmitri Kuznetsov, foi detido pela polícia em Krasnodar quando tentou fazer uma apresentação improvisada depois que seu show foi cancelado.

Em dezembro, Putin convocou uma reunião do grupo que o aconselha sobre cultura e ordenou que seu governo desenvolvesse um programa que aumentasse o papel do Estado na música pop ao abrir estúdios de música em todo o país. O governo afirmou que filtraria conteúdo indesejável na internet, mas não conseguiu encontrar uma maneira de fazê-lo.

"A juventude russa é mais cosmopolita, mais sintonizada com as tendências atuais do ocidente e do mundo, mais acolhedora com outras etnias e tradições e mais consciente de questões sociais e políticas", disse o rapper Oxxxymiron, também conhecido como Miron Fyodorov.

Enquanto a maioria dos rappers evita declarações políticas diretas em suas letras, alguns abordam outras questões e olham para fora, inspirando-se e tomando emprestadas culturas estrangeiras.

Rakitin, por exemplo, mistura gírias americanas captadas de videogames repletos de palavrões. Ivan Dryomin, reconhecido pelo nome artístico Face, ganhou fama com suas músicas barulhentas e violentas.

Em setembro, ele lançou Ways Are Mysterious, um disco repleto de críticas intransigentes à Rússia de hoje, sobre as quais ele falou: "A liberdade de expressão foi sentenciada por toda a vida, aqui é a Rússia".

O álbum o transformou em um queridinho entre ativistas da oposição, mas intrigou os fãs mais jovens que estavam acostumados com seu estilo punk anterior.

Até mesmo os campeões da cultura tradicional mais antiga começaram a tomar conhecimento do avanço do rap no país.

Igor I. Matvienko, influente produtor de música russa e aliado próximo de Putin, que pediu que o rap fosse proibido, disse em uma entrevista que "a indústria mudou completamente", e que a mudança foi irreversível.

Mas, segundo ele, houve vantagens. "Pela primeira vez na minha vida, percebi - e isso foi uma verdadeira revelação para mim - que os jovens russos começaram a ouvir música russa", disse Matvienko. 

"Se você for ao bairro Patriarch's Ponds, ouvirá trilhas russas em volume alto nos carros que passam", continuou, referindo-se a uma das áreas mais ricas do centro de Moscou. "Talvez elas não sejam muito boas ideologicamente, mas estarão em russo". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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