Erin Schaff para The New York Times
Erin Schaff para The New York Times

Populismo recua no Ocidente, mas está longe de desaparecer

A onda populista que teve início em 2016 começa a dar sinais de enfraquecimento, mas continua forte em países como Estados Unidos e Itália

Max Fisher, The New York Times

12 de janeiro de 2019 | 06h00

LONDRES - A pressão do presidente Donald Trump para a construção de um muro na fronteira com o México aponta para um problema que os líderes populistas enfrentam no mundo ocidental. Depois de um ano de recuos, os líderes populistas tentam revigorar suas perspectivas revitalizando a sensação de crise em que costumam prosperar. Mas como está acontecendo com a exigência do presidente Trump da construção de um muro na fronteira - que provocou o fechamento parcial do governo - isto talvez aponte mais explicitamente para a debilidade do populismo do que para o seu vigor.

As crises da imigração e do terrorismo, que contribuíram para a ascensão do populismo em 2016, desapareceram. Os populistas registraram resultados decepcionantes nas eleições da Alemanha, Estados Unidos e até mesmo na Polônia. No Ocidente, os líderes populistas assumiram uma posição defensiva, recorrendo a mensagens ainda mais duras referindo-se a um conflito em termos tais como “nós contra eles”. A abordagem anima os seus seguidores mais dedicados. Mas pode ser arriscada, obrigando os eleitores a tomar posições em um momento em que a o apelo exercido pela direita populista está em declínio.

Cas Mudde, um cientista político holandês,  previu que a ascensão inicialmente rápida do movimento se tornará “modesta” e “irregular” este ano, com  mais revezes. O populismo não está morrendo. Ele detém o poder nos Estados Unidos, na Itália, e em alguns países da Europa Oriental, bem como em importantes minorias parlamentarem em grande parte da Europa Ocidental, onde os partidos populistas agora conseguem um voto em cada seis.

No entanto, sem uma crise que justifique as políticas intransigentes do populismo, sua mensagem perdeu praticamente os seus elementos principais com exceção do principal: a oposição aos ideais liderais do pluralismo, do multiculturalismo e da cooperação internacional. O resultado é uma nova fase da era populista, uma fase que, como nunca se viu antes, testará o apelo do populismo - e o do seu rival ideológico, o liberalismo do establishment no pós-guerra.

Esta história, que se desenrola nas democracias ocidentais, está talvez melhor evidenciada no drama de Trump: o fechamento do governo e o muro na fronteira. Dois anos depois de ele prestar juramento como presidente, as ameaças representadas supostamente pela imigração e pelo terrorismo nos Estados Unidos não se materializaram. E a imigração ilegal continuou em declínio de dez anos para cá.

Os americanos perderam o entusiasmo pelas políticas restritivas como o muro prometido por Trump na fronteira mexicana, que não influi muito nas sondagens. Os republicanos sofreram uma devastadora derrota nas eleições de meio de mandato. A mensagem decisiva de Trump, em vez de atrair mais eleitores, afastou alguns.

Os populistas da Europa também tiveram um ano tumultuado. Na Grã-Bretanha, o apoio ao Brexit caiu abaixo dos 50%. Os defensores irredutíveis do Brexit no Partido Conservador que está no governo tentaram ejetar Theresa May por apoiar um Brexit mais brando, mas fracassaram. Na Alemanha, a ascensão do partido Alternativa para a Alemanha, de extrema direita, está estagnada. Seus resultados foram piores do que o esperado nas eleições realizadas no estado fronteiriço da Baviera, onde a imigração é um dos principais problemas, e piores do que se temia um ano atrás.

Quando o partido de centro-direita da Baviera tentou cooptar a mensagem populista e desafiar a chanceler Angela Merkel no problema da imigração, sofreu perdas nas eleições. Merkel sobreviveu, sua taxa de aprovação registrou um salto e ela conseguiu inclusive um sucessor centrista. Muitos populistas ocidentais estão retornando à sua mensagem do assédio e da ameaça.

A linha dura do Brexit aponta para as 470 pessoas que cruzaram ilegalmente o Canal da Mancha de barco no ano passado, uma cifra pequena em comparação com as centenas de milhares que chegaram na Europa, em 2015 e 2016. Trump afirma, sem nenhuma evidência consistente, que o caos se instalou na fronteira mexicana. Mas dividir o mundo entre “nós” e “eles” só funciona se os eleitores quiserem pertencer a nós” e opor-se a “eles”, tipicamente as elites do establishment.

Na Europa, é muito grande o número de eleitores que têm contato com imigrantes desde 2016, o que, segundo as pesquisas, contribui para reduzir o medo e o ressentimento. Nos Estados Unidos, a economia em recuperação diminuiu os temores da concorrência econômica por parte dos imigrantes. Um dos países citados como um sucesso populista, no ano passado, também pode enfatizar os desafios do movimento.

O partido populista dos Democratas da Suécia obteve 17,5% dos votos, seu maior avanço, nas eleições nacionais realizadas em setembro. Se os populistas pudessem crescer a esse ritmo mesmo na Suécia, uma fortaleza do liberalismo, seguramente isto representaria uma mudança global. Mas as urnas contam uma história diferente.

O apoio aos Democratas da Suécia não cresce desde o final de 2015, quando a crise dos refugiados começou a se esvaziar. A experiência desse país talvez sugira que os populistas ocidentais só ascenderam com as crises dos refugiados e do terrorismo e que, quando estas crises se encerraram, o populismo estagnou. Uma análise do desempenho global do populismo de Jordan Kyle e Limor Gultchin do Institute for Global Change de Londres chegou a conclusões semelhantes. 

Hoje, os populistas têm 20 governos no mundo inteiro, o mesmo número que detinham em 2010. O que percebemos como uma nova onda pode ser uma mudança do populismo dos países mais pobres, frequentemente na América Latina, onde desde então sofreram revezes, para o Ocidente. Mas há outra maneira de entender casos como o da Suécia: como a quebra do consenso liberal.

Mesmo que os populistas obtenham o poder apenas ocasionalmente, lutem no cargo e principalmente se reduzam a uma minoria revoltada, o fato de eles desempenharem algum papel representa uma mudança sísmica. A sua ascensão, mesmo que nunca avance, ainda poderá reformular a política ocidental. Partidos como os Democratas da Suécia e a Alternativa para a Alemanha talvez não tenham mais grandes esperanças de se valerem de crises para chegar ao poder. Mas aparentemente persiste uma oposição latente ao liberalismo, suficiente para manter os populistas envolvidos na política.

As crises na fronteira, reais ou imaginárias, são ideais para esta mensagem. Elas destacam aspectos do liberalismo que as pessoas consideram mais questionáveis: as promessas de proteger os estrangeiros, a preocupação de que os países comprometeriam a sua soberania e o abrandamento de identidades nacionais fixas ou definidas pela raça.

Por isso, talvez quando o linha dura do Brexit ou os populistas bávaros jogam com as crises na fronteira talvez pareça exagerado que estejam falando de uma preocupação mais profunda em sua base pequena, mas dedicada. Isto poderá ser suficiente para mantê-los nos parlamentos e nas conversações.

Mesmo em países como a Alemanha e a França, onde os líderes centristas detêm o poder, o sistema partidário do establishment entrou em colapso. Seva Gunitsky, um cientista político da Universidade de Toronto, afirmou que a distinção entre democracia e autoritarismo já não é tão clara, e é maior o número dos líderes eleitos que está adotando as táticas de ‘homens fortes”.

A democracia liberal do pós-guerra é excessivamente recente, dizem os estudiosos, para que se possa dizer se o sistema poderá sobreviver a estes desafios. Podemos considerar 2016 um contratempo populista associado a crises isoladas, ou como o início de um processo destinado a abalar a democracia liberal desde o seu interior. “Para quem esperava um rompimento com a política movimentada dos últimos anos”, disse Mudde, um cientista político holandês, “2019 não será nada disso”.

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