Por que a Ford decidiu salvar um carro icônico

Por que a Ford decidiu salvar um carro icônico

Mustang não entra na lista de carros que devem ser aposentados pela fabricante norte-americana

James B. Stewart, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2018 | 15h00

Quando a Ford Motor praticamente eliminou os carros de passageiros de sua linha de produtos americana em maio para se concentrar nas caminhonetes e SUVs, a empresa virou a página da história de alguns nomes já extintos, mas antes muito procurados: Model T, Model A, Galaxie, Fairlane, Thunderbird e Falcon, para citar alguns.

Mas houve um notável sobrevivente: o Mustang. 

“Livrar-se do Mustang?” perguntou James D. Farley Jr., presidente de mercados globais da Ford, quando indaguei a respeito da sobrevivência do Mustang. “O Mustang é como Rocky: sobreviveu à crise dos combustíveis dos anos 1970, ao glamour dos anos 1980, à nova procura por SUVs. O modelo sobreviveu a todas as rodadas de cortes.”

Para mim, a clemência demonstrada em relação ao Mustang foi uma boa notícia: fiz meu teste de direção no Mustang azul-turquesa da minha mãe, modelo 1967. Nas raras ocasiões em que recebi permissão para dirigi-lo, o carro despertou a pior inveja de meus colegas do ensino médio.

Wall Street provavelmente não se incomodaria se o Mustang seguisse o mesmo rumo do Fusion, Taurus e Fiesta, modelos atuais que a Ford pretende aposentar.

Isso porque, em seu mais recente informe de rendimentos, a Ford revelou que um número relativamente pequeno de produtos, incluindo a popular série de picapes F-150, respondeu por 150% da renda da empresa antes do pagamento de juros e impostos, com margens de lucro entre 10% e 20%.

Outro grupo mal gerava lucro. Em comparação, a Ford disse que os produtos de “baixo desempenho” traziam prejuízo, com margens negativas superando os 10%.

Usando as informações reveladas pela Ford, o analista automotivo do Morgan Stanley, Adam Jonas, calculou que os produtos de baixo desempenho correspondem a 40% da receita da Ford, mas traziam uma forte redução para a renda da empresa. A Ford não disse quais modelos estão nessa categoria, mas Jonas incluiu os carros de passageiros norte-americanos. A Ford não detalha seus resultados por modelo, mas ele acredita que o Mustang ainda gera um lucro modesto.

O modelo básico custa US$ 25.845, mas os opcionais podem fazer esse valor aumentar bastante. O conversível custa a partir de US$ 31.345. O modelo mais popular, Mustang GT, pode passar dos US$ 40.000, e o modelo Shelby GT350, com 526 cavalos de potência, é vendido a partir de US$ 57.000. Uma versão de corrida do Mustang Cobra pode custar mais de US$ 100.000. 

E o Mustang ainda apresenta bons números de vendas. A Ford disse ter vendido quase 126.000 unidades no ano passado, em 146 países, fazendo do modelo o carro esportivo mais vendido do mundo (o Toyota Corolla, sedã de passageiros mais popular, teve vendas de quase um milhão de unidades).

Mas a sobrevivência do Mustang não foi decidida pelos números.

“A questão é mais emocional", disse Jonas. “Estão tentando preservar a sexualidade dos motores potentes como os conhecíamos.”

Desde o momento do seu lançamento, 54 anos atrás, o Mustang foi apresentado como alternativa estilosa, acessível e prática aos caros carros esportivos europeus. Em vários testes, o Mustang GT ainda pode ser favoravelmente comparado ao Porsche 911, vendido por mais de US$ 90.000.

Os Mustangs apareceram em incontáveis filmes e programas de TV, convertendo-se numa imagem permanente da cultura americana. Steve McQueen pilotava um modelo 1968 verde em "Bullitt", filme a partir do qual o Mustang emergiu como carro “possante" clássico. Este ano, a Ford está vendendo uma edição Bullitt de aniversário a partir de US$ 47.495.

“Eu o considero na mesma categoria do Corvette", disse Eric Minoff, especialista automotivo da casa de leilões Bonhams, em Nova York. O Mustang “é um ícone cultural", acrescentou ele. “Até pessoas que não entendem nada de carros sabem reconhecer um Mustang.”

No dia 3 de junho, a Bonhams leiloou Mustangs antigos que já pertenceram a Carroll Shelby, o corredor que desenvolveu com a Ford os modelos de alto desempenho Shelby Mustangs a partir dos anos 1960. Um Mustang GT 350 de 1968 foi vendido por mais de US$ 115.000, e um modelo GT 500 de 1969 foi vendido por mais de US$ 90.000.

Farley descreveu o Mustang como um veículo que traduz uma "mentalidade". “Quando perguntamos a pessoas de todo o mundo o que elas pensam da Ford, elas respondem, 'Mustang'", ele disse. “Mustang significa liberdade. Significa viajar de conversível pela Costa Oeste. É essa a imagem que pessoas de todo o mundo têm na cabeça quando pensam nos Estados Unidos. Por que alguém abriria mão desse imaginário?”

 

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