Lam Yik Fei / The New York Times
Lam Yik Fei / The New York Times

Por que a madeira russa é devorada pela China?

Ambientalistas afirmam que o país mais populoso do mundo transferiu o desmatamento descontrolado de seus territórios para o exterior, enquanto se beneficia economicamente com esta atividade

por Steven Lee Myers, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

Dos Montes Altai à Costa do Pacífico, o desmatamento está destruindo imensas florestas da Rússia, deixando para trás um solo desfigurado repleto de tocos à beira da morte. Os culpados, segundo parte da opinião pública russa, são claramente os chineses.

Desde que a China começou a restringir a derrubada de árvores de suas próprias florestas naturais para fins comerciais, há vinte anos, passou a recorrer à Rússia, importando enormes quantidades de madeira, em 2017, para saciar o apetite de suas  empresas de construção e fabricantes de móveis. “Na Sibéria, as pessoas sabem que precisam das florestas para sobreviver”, disse Eugene Simonov, ambientalista que estudou o impacto da derrubada comercial de árvores no Extremo Oriente da Rússia. “E sabem que suas florestas agora estão sendo pilhadas”.

A Rússia, por outro lado, tem colaborado conscientemente para isto, vendendo às companhias chinesas direitos de desmatamento a baixo custo e, afirmam os críticos, fechando os olhos para o desmatamento além do que é legalmente permitido. A demanda chinesa também está derrubando florestas em outros países - do Peru a Papua Nova Guiné, Moçambique e Myanmar.

Nas Ilhas Solomon, ao ritmo atual das companhias chinesas antigas, florestas tropicais poderão esgotar-se até 2036, projeta o Global Witness, um grupo ambientalista. Na Indonésia, ativistas alertam que o desmatamento ilegal ligado a uma companhia com parceiros chineses ameaça um dos últimos habitats dos orangotangos na Ilha de Bornéu.

Ambientalistas afirmam que a China transferiu o perigo do desmatamento descontrolado dos seus territórios para o exterior, enquanto se beneficia economicamente com esta atividade. Alguns alertam que o desmatamento poderá acabar com as florestas restantes, contribuindo para o aquecimento global.

Há vinte anos, as preocupações com as montanhas desnudas, os rios poluídos e as enchentes devastadoras ao longo do Yangtze, agravadas pelas bacias hidrográficas danificadas, levaram o governo chinês a restringir o desmatamento comercial. A demanda do país por madeira não diminuiu. E nem a demanda mundial de compensado e móveis, os principais produtos da madeira que a China fabrica e exporta.

Mas uma coisa é a demanda chinesa que pressiona pequenas nações desesperadas por recursos, e outra bem diferente é ela drenar os recursos daquela que se considera uma superpotência e parceira estratégica da China. O comércio, por outro lado, oculta a enorme dependência da Rússia dos seus recursos naturais, e provocou uma reação popular que afetou as relações outrora calorosas entre os países.

Os protestos ocorreram em muitas cidades. Parlamentares russos atacaram as autoridades que estariam ignorando os danos ao meio ambiente na Sibéria e no Extremo Oriente do país. Moradores e ambientalistas reclamam que o desmatamento danifica as bacias hidrográficas e destrói os habitats do tigre siberiano e do leopardo Amur, ambos ameaçados de extinção.

“O que  fazemos agora na Sibéria e no Extremo Oriente está destruindo o que resta das florestas outrora intactas”, afirmou Nikolay M. Shmatkov do World Wildlife Fund na Rússia. O grupo documenta a destruição usando imagens por satélite em um período que coincide com o boom do desmatamento chinês no país.

A espantosa transformação econômica da China determina a demanda. Agora ela é a maior importadora de madeira do mundo. Os Estados Unidos são o segundo maior importador - que transforma grande parte da madeira comprada externamente em produtos vendidos nas lojas do mundo inteiro. Grande parte da madeira procedente da Rússia cruza a fronteira em Manzhouli, um antigo assentamento nômade. O comércio transformou a cidade em um dos principais centros de processamento e produção de madeira da China.

Nos últimos 20 anos, foram abertas mais de 120 serrarias e fábricas. Elas processam a madeira  em compensado, e com estes painéis fabricam madeira laminada, portas, quadros de janelas e mobiliário. As fábricas ocupam dezenas de hectares de terra às margens da cidade e criaram mais de 10 mil empregos em um centro de 300 mil habitantes, segundo um funcionário.

Novas construções tornaram Manzhouli uma homenagem arquitetônica à cultura russa. Muitos edifícios têm cúpulas em formato de cebola. Há uma réplica da Catedral de São Basílio e um hotel no formato do que as autoridades consideram a maior matryoshka do mundo, a boneca russa em série.

Zhu Xiuhua supervisiona três fábricas em Manzhouli, além de concessões para derrubar árvores em 730 mil hectares de florestas russas perto de Bratsk, uma cidade próxima do Lago Baikal, e transportá-las para a China. “Estamos crescendo ano a ano”, confirmou. O próximo passo será a busca de novas concessões mais a oeste, acrescentou.

Protestos contra o desmatamento chinês foram registrados em toda a Sibéria e no Extremo Oriente russo. Com isto, acirraram-se as tensões entre russos e chineses que há muito tempo alimentavam desconfianças mútuas em razão de divergências políticas e cultuais. Um protesto em maio do ano passado em Ulan Ude, uma capital regional próxima do Lago Baikal, resultou em confrontos com a polícia e oito prisões. “Parem com o desmatamento bárbaro”, dizia um cartaz. As manifestações foram causadas pela derrubada de inteiras faixas de florestas na Sibéria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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