Vanessa Pena/Associated Press
Vanessa Pena/Associated Press

Por que a verba para restaurar Notre-Dame gerou incômodo?

Críticos denunciam doadores que não pagam impostos e afirmam que dinheiro poderia ser mais bem aproveitado em ações de caráter social

Paul Sullivan, The New York Times

07 de maio de 2019 | 06h00

Enquanto as chamas engoliam Notre-Dame, os donativos começaram a chegar do mundo inteiro. Em dois dias, já havia sido levantado US$ 1 bilhão para as obras de restauração da catedral de Paris, que tem 856 anos. A resposta foi um reflexo da dimensão de Notre-Dame, o monumento mais amado da herança cultural francesa. Alguns benfeitores prometeram mais de US$ 100 milhões cada um, como François-Henri Pinault, cuja riqueza deriva de marcas de luxo como Gucci, e Bernard Arnault, o homem mais rico da Europa e diretor executivo do conglomerado de artigos de luxo LVMH.

Mas os críticos agora indagam por que motivo calamidades como a destruição do Museu Nacional no Rio de Janeiro, em setembro, não receberam o mesmo apoio. As doações reavivaram o ressentimento de classe em uma cidade já abalada pelo movimento dos Coletes Amarelos, uma reação populista às desigualdades na França que aproveita do movimento global cada vez mais amplo contra a concentração da riqueza.

Algumas críticas visaram aos doadores por não pagarem sua justa parcela de impostos, privando, desse modo, o governo francês dos recursos necessários para financiar os reparos na própria Notre-Dame. Outros denunciaram o fato de se enaltecer a ação dos filantropos em um momento de dor nacional. E outros ainda atacaram a ideia de doar tanto dinheiro a uma catedral enquanto este poderia beneficiar as organizações dos serviços sociais que fornecem alimentos, abrigo e educação aos necessitados.

“Não surpreende”, afirmou Nicolas Berggruen, um bilionário fundador do Instituto Berggruen de Los Angeles, que visa a uma reforma das instituições sociais com o objetivo de criar soluções a longo prazo para os problemas da sociedade. “Na era da ansiedade, as pessoas procuram acusar grupos diferentes por todo o mal ou por parte do mal. Os ricos evidentemente se encontram neste grupo”.

Outros adotaram uma abordagem menos filosófica, afirmando que para que a sociedade seja eficiente, os filantropos precisam cooperar com o governo e o setor privado, e não trabalharem sozinhos ou em oposição a eles. “Em vez de elogiar o ato filantrópico em si, alguns afirmam que esta a maneira melhor e o mais elogiável de usar o capital”, destacou Nick Tedesco, assessor sênior para obras filantrópicas do J.P. Morgan Private Bank. “Quando foi que chegamos a nos sentírmos confortáveis criticando o altruísmo das outras pessoas?”.

Se essas reações críticas a importantes doações  se tornarem uma tendência, os doadores poderão começar a refletir se será uma boa ideia dar vultosos presentes. Alguns temem que isto possa arrefecer a capacidade de doar, enquanto outros esperam com isto que as pessoas passem a avaliar de maneira diferente a quem dar o seu  apoio.

“Há muita preocupação compreensível com a desigualdade da riqueza e muita preocupação com o mau comportamento de alguns”, observou Phil Buchanan, diretor do Centro para a Filantropia Eficiente e autor de Giving Done Right. “Mas temo que estejamos misturando as preocupações a respeito da nossa visão da taxação com a crítica da filantropia, e na realidade eu não sigo a lógica”.

Tedesco tem uma preocupação diferente. “Com Notre-Dame, pôde-se aproveitar do capital filantrópico que de outro modo permaneceria dormente”, ressaltou. “Mas isto nos leva à pergunta: Por que o capital filantrópico está ocioso?”. Bob Hansen, fundador da Goodnation, que mede o impacto das doações, mostrou-se mais esperançoso. “A lição que se pode extrair de Notre-Dame é, se isto pôde acontecer em 24 horas, é porque os recursos estão ali para sanar problemas importantes”, disse. “Imagine se, em vez de redirecionar estes bilhões de dólares, levantássemos outro bilhão de dólares para outras causas”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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