Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Por que achamos que todas mulheres pensam da mesma forma?

O gênero não é um fator de união, mas, no caso da política, esperamos que seja.

Susan Chira, The New York Times

24 de outubro de 2018 | 06h00

O que essas mulheres estão pensando? Estou falando daquelas no Mississippi que celebraram a imitação que o presidente Donald J. Trump fez caçoando Christine Blasey Ford, que acusou Brett M. Kavanaugh, indicado por ele para a Suprema Corte, de abusar sexualmente dela quando eram adolescentes. Aquelas que publicaram no Twitter o apelo #HimToo [#eletambém] em apoio a seus filhos, que podem um dia vir a ser acusados (injustamente, aos olhos delas) de assédio ou abuso.

A esquerda as despreza, chamando-as de traidoras do gênero, apunhalando pelas costas suas irmãs ao agir contra seus interesses coletivos. As esperanças dos democratas para as eleições de novembro dependem das manifestações de descontentamento das eleitoras em relação ao partido do presidente. Mas as mulheres não se aliam automaticamente umas às outras, como demonstrou o voto da senadora Susan Collins confirmando a nomeação de Kavanaugh. O laço de irmandade entre as mulheres não é mais forte que a lealdade partidária ou posicionamentos morais arraigados. Nem todas as vítimas de assédio sexual acreditaram na Dra. Blasey. As mulheres não agem em uníssono.

A pergunta é: por que tantas pessoas ainda se surpreendem com isso? Os cientistas políticos descobriram que alguns dos ataques que deveriam afastar todas as mulheres em 2016 - como o ataque de Trump contra Hillary Clinton, acusando-a de fazer-se de vítima pelo fato de ser mulher - levaram um segmento das mulheres a defendê-lo ainda mais, mostrando-se mais hostis a ela. Algumas mulheres defendem concepções tradicionais do espaço reservado a elas na sociedade, suas prerrogativas e poder. 

E, em 2018, algumas mulheres parecem receptivas à estratégia de Trump de atacar o movimento #MeToo, ainda que isso enfureça algumas mulheres independentes, de escolaridade superior, que os republicanos temem já ter perdido.

“Por que é tão difícil imaginar que as mulheres também podem ser machistas?” disse Erin C. Cassese, cientista política da Universidade de Delaware que analisou o comportamento das mulheres usado novos dados das eleições de 2016.

Ninguém está dizendo que ser uma mulher republicana é sinônimo de ser machista. Mas, para algumas delas, o poder político é exercido pelos homens com razão. A dona de casa Krysta Fitch, 34 anos, do Mississippi, disse que votou em Trump e participou do seu comício recente. Ela disse que as mulheres não deveriam se candidatar à presidência. “Diz na Bíblia que o homem é o responsável por liderar seu lar", disse ela, acrescentando: “As mulheres são demasiadamente emotivas. Acho que seria perigoso ter uma mulher num cargo com o potencial de dar início a uma guerra".

Mas Krysta é um ponto fora da curva entre as eleitoras republicanas. Estudos indicam que elas são receptivas a candidatos e candidatas.

A ativista republicana Cleta Mitchell disse que as mulheres conservadoras estão entre as que mais sofrem com o machismo. Mas ela defende a ideia de que há diferenças inatas entre homens e mulheres, e não espera que o governo promova a igualdade entre os gêneros.

Então, por que as mulheres que compartilham entre si o fato de terem sido diminuídas por homens não encontram nessa experiência uma fonte de solidariedade? Isso depende de quais identidades (mulher, esposa, mãe, raça, filiação política ou religiosa) são mais centrais para cada mulher.

Os psicólogos medem se as mulheres exibem um “machismo hostil”, enxergando os eventuais ganhos conquistados pelas mulheres como algo que se obtém às custas do poder masculino. A professora Cassese descobriu que as republicanas tendem a apresentar níveis mais elevados de machismo hostil do que o eleitorado democrata ou independente.

O retrato que Trump fez do movimento #MeToo como sendo injusto em relação aos homens encontrou eco nas mulheres que pensam em proteger seus filhos e maridos.

Um estudo da professora Cassese e Tiffany D. Barnes, da Universidade do Kentucky, revelou que o apelo de Trump aos ressentimentos econômicos, raciais e de gênero conquistou um segmento das mulheres. 

Muitas delas obtiveram pontuação alta na gradação do “machismo hostil” e também se atinham às vantagens de serem brancas como forma de compensar as desvantagens de serem mulheres.

Um levantamento de alcance nacional realizado pelo Instituto de Público de Pesquisas de Religião realizado no começo do segundo semestre identificou que 25% das eleitoras republicanas consideravam o assédio sexual no ambiente de trabalho um problema grave, enquanto entre as democratas essa proporção era de 51%. E 48% das eleitoras republicanas disseram que pensariam em votar num candidato acusado de abuso sexual; entre as democratas, 14% o fariam.

“Espera-se que acreditemos em qualquer moça que diz que algo aconteceu", disse Cleta. “Não acredito em tudo que dizem. Elas não se lembram direito. Estavam bêbadas.”

Várias mulheres conservadoras que relataram dolorosas experiências de assédio e abuso sexual se orgulharam do próprio estoicismo e resiliência, sugerindo que, diferentemente das mulheres da elite, elas não teriam tempo nem disponibilidade para se ater a essas experiências anos depois.

“Não entendo por que as mulheres sentem medo de procurar a ajuda de que necessitam", disse a garçonete Crystal Walls, 60 anos, que diz ter se defendido de abusos. “Não entendo isso. Talvez eu seja mais forte.”

Krysta disse que o padrasto abusou dela dos 9 aos 13 anos, quando foi preso. “Me parece difícil acreditar que alguém esperaria tanto tempo para dizer alguma coisa", disse ela a respeito da Dra. Blasey.

A política americana foi posta de cabeça para baixo em 2016 porque os candidatos convencionais não entendiam pessoas como Krysta e Crystal.

Mirya R. Holman, coautora do estudo a respeito dos ataques de Trump às mulheres durante a eleição, disse, “Esse tipo de diálogo nacional segundo o qual ‘Todas as mulheres deveriam odiar Trump’” está afastando-as.

Mas a adoção das provocações de gênero de Trump por parte dos republicanos já afastou eleitoras independentes e republicanas com escolaridade superior, de acordo com as pesquisas de opinião.

Marybeth Glenn, moradora do Wisconsin que se opunha ao direito ao aborto e defendeu a candidatura do senador Marco Rubio à presidência em 2016, disse que muitas de suas parentes ficaram decepcionadas quando ela denunciou o machismo de Trump numa sequência de mensagens no Twitter que se tornou viral em 2016.

“A cultura do movimento conservador trata as mulheres como uma prioridade distante", disse Marybeth. 

“Começamos a nos sentir cada vez mais distantes de nós mesmas. Só assim podemos afirmar que cortes nos impostos são mais importantes que o tratamento dispensado às mulheres.”

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