Rune Fisker para The New York Times
Rune Fisker para The New York Times

Por que as pessoas gostam do risco?

Pesquisadores sugerem que a biologia dos entusiastas de esportes radicais difere da do ser humano comum

Kate Murphy, The New York Times

18 Março 2018 | 10h00

Correndo no deserto, fazendo BASE jumping ou saltando de paraquedas, o número de pessoas em busca de muita adrenalina - e às vezes morrendo em consequência disso - vem aumentando consideravelmente. Segundo especialistas, o que as motiva não é o desejo de morrer, mas o anseio de se sentirem vivas.

“Vivemos em um mundo pós-moderno virtual, confuso, hipertecnológico, em que todos buscamos experiências reais”, disse Orin Starn, professor da Duke University na Carolina do Norte. Não há regras e ninguém apita uma infração se alguém despenca sobre uma rocha ou se rola em um barril à mercê de ondas gigantes. Ou o desportista faz a coisa certa, ou morre. A prática exige o máximo de concentração e a necessidade de apagar da mente todas as outras preocupações. E é ali talvez, que está o atrativo.

“Eu preciso estar absolutamente concentrado naquele momento, hiperconsciente de tudo, focado exclusivamente na coisa e em nada mais”, disse Carlos Pedro Briceño, 43, de DeLand, Florida, falando de sua busca de um divertimento que hoje praticamente o ocupa em tempo integral. Ele voa com um traje de morcego, o que implica saltar de montanhas e de torres de celular e planar perigosamente perto da terra antes de abrir um paraquedas. “É uma coisa que vicia, esta sensação de medo, e depois o prêmio, quando você consegue controlar o medo e aterrissa são e salvo. E então você quer voltar lá pra cima, imediatamente, e fazer aquilo de novo”.

Uma análise de mercado da Delaware North, companhia que administra as concessões de eventos, afirma que a participação em esportes extremos (que incluem exaustivas competições de resistência , às vezes fatais, como a Tough Mudder and Spartan Race) superou a dos esportes convencionais.

A companhia prevê que até 2020, os esportes radicais competirão com os esportes profissionais e universitários como a categoria de conteúdo esportivo de maior público. Isso, em parte, graças à exibição diária de inúmeras horas dos vídeos mais emocionantes na internet. As viagens para os lugares mais procurados do mundo para salto, mergulho, surfe e escaladas na Suíça, França, Noruega, Austrália, Nepal e Brasil, aumentaram.

Na realidade, para o salto de paraquedas e depois o voo de proximidade, Briceño se inspirou em vídeos do YouTube que mostravam estas modalidades de salto. Além disso, ele estrelou, com seu amigo Alexander Polli, 31, o filme “Base”, que mostra o voo de proximidade (também conhecido como BASE jumping). Polli morreu em 2016 ao cair sobre uma árvore durante um voo de proximidade; o filme foi exibido no ano passado. Antes dele, morrera outro saltador de BASE, Dean Potter, que se chocou contra uma formação de granito no Parque Nacional de Yosemite, em 2015.

A pesquisa sugere que entusiastas de esportes radicais têm diferentes biologias, personalidades e formações. Erik Monasterio, psiquiatra e professor da escola de medicina da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, é um dos pesquisadores que destacam fatores culturais e sociológicos na motivação destas pessoas.

“Os esforços para eliminar o risco são uma obsessão no mundo ocidental”, afirmou Monasterio. “É preciso construir playgrounds e espaços públicos perfeitamente seguros, contudo, há inúmeros processos a respeito de danos físicos e mentais relacionados a todo tipo de atividade. Este ambiente estéril é frustrante e faz com que as pessoas anseiem pelo estímulo e a excitação”.

Existe também uma insatisfação causada pelo estado do mundo, disse Christine Le Scanff, diretora da escola de ciências do esporte e do movimento da Universidade de Paris-Sud, na França.

“É uma maneira que as pessoas buscam de anular as preocupações do seu mundo que ocupam a mente”, disse Briceño. “Ela proporciona esta adrenalina e a adrenalina faz com que você se sinta vivo e livre, e a felicidade desse momento faz você pensar: 'Não me importo se não terei mais muitos dias de vida, porque o que fiz foi muito legal e poderia morrer neste momento'”.

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