Justin T. Gellerson para The New York Times
Justin T. Gellerson para The New York Times

Por que é tão difícil encontrar o emprego perfeito?

Satisfação de trabalhadores com suas funções vai além de recompensa financeira

Robb Todd, The New York Times

10 de março de 2019 | 06h00

Conforme mais pessoas procuram a realização em suas carreiras, e não apenas o dinheiro, a disputa por empregos criativos de baixa remuneração está aumentando. Mas os concorrentes dotados de ambição artística não são a única preocupação. Não foi um robô quem escreveu isso, mas, se tivesse sido, não teria sido fácil descobri-lo.

Os executivos do ramo do jornalismo dizem que as tecnologias emergentes não vão substituir os repórteres, mas a Bloomberg News usa uma inteligência artificial chamada Cyborg para escrever cerca de um terço do seu conteúdo, de acordo com reportagem do Times. A ideia é que tal prática deixaria os repórteres com tempo livre para se dedicar a matérias mais importantes do que informes de rendimentos corporativos.

“Algo que reparei é que nossos artigos escritos pela IA não tem nenhum erro de digitação", disse ao Times o diretor executivo da Patch, Warren St. John. A Patch, um grupo de jornalismo voltado para as comunidades, usa robôs para escrever a respeito de assuntos como beisebol infantil, futebol americano do ensino médio, terremotos e previsão do tempo. O mesmo fazem Washington Post, Los Angeles Times e Associated Press.

“O trabalho do jornalismo é criativo", disse ao Times a diretora de parcerias jornalísticas da AP, Lisa Gibbs. “É uma questão de curiosidade e narrativa, investigação e cobrança das autoridades, pensamento crítico e julgamento - e é nisso que desejamos que nossos jornalistas invistam sua energia.”

Mas, ao ser associada a um emprego, a palavra “criativa” deve ser motivo de alerta, escreveu Judy Rosen no Times. Para os escritores e outros do tipo, o termo adquiriu um “poder de atração talismânico". “Isso aponta para outro tipo de sonho de classe média, livre do desgastante trabalho manual ou da monotonia dos cubículos e planilhas", escreveu ela. “Esse sonho promete uma carreira e uma vida com espaço para a expressão de si, a imaginação e até a beleza.”

Lisa alertou que o lado negativo desses trabalhos é a necessidade de abrir mão da segurança financeira e dos benefícios empregatícios tradicionais. “Em troca do privilégio de nos dedicarmos a um trabalho ‘criativo’, pede-se que aceitemos condições de precariedade e ansiedade financeira que seriam impensáveis para os empregados de épocas anteriores", escreveu ela, acrescentando que isso busca disfarçar “como liberdade boêmia a ruptura de um contrato social que resulta nos maus negócios da economia dos bicos".

Tornar-se um banqueiro também pode ser uma carreira que oferece menos liberdade do que as pessoas imaginam. O repórter do Times Charles Duhigg, que também se formou pela Faculdade de Administração de Harvard, escreveu que um de seus antigos colegas de turma é um milionário infeliz que odeia o próprio emprego, mas não acredita que possa abandoná-lo.

“Tenho a sensação de estar desperdiçando minha vida", disse a Duhigg o colega não identificado. “Quando eu morrer, será que alguém vai se importar com o fato de eu ter aumentado o lucro por um ponto percentual? Meu trabalho parece ser completamente sem sentido.” Duhigg não estava tentando fazer com que sentíssemos pena dos ricos, e sim argumentar que a satisfação com o próprio trabalho vai além da recompensa financeira.

Estudos mostraram que a satisfação dos trabalhadores não aumenta muito depois de oferecida uma recompensa suficiente para sustentar a si e à própria família. A ideia de autonomia é mais importante, bem como a de pares que respeitamos e de um trabalho que contribua para um mundo melhor.

E nem é necessário dedicar-se à busca pela cura do câncer, disse ao Times o professor de administração Barry Schwartz, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Não importa se você é um vendedor ou cobrador de pedágio", disse ele. “Se enxergar seu objetivo como sendo solucionar os problemas das pessoas, cada dia trará 100 oportunidades de melhorar a vida de alguém, e nossa satisfação aumenta dramaticamente".

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