Ronaldo Schemidt/Agence France-Presse
Ronaldo Schemidt/Agence France-Presse

Por que não incluir insetos em sua alimentação?

As criaturas fazem parte do cardápio de mais de 2 bilhões de pessoas no mundo todo

Adrienne Harris, The New York Times

30 Setembro 2018 | 10h00

A Terra está se aquecendo e os insetos estão se multiplicando - e estão com fome. Enxames de insetos vão comer mais das nossas colheitas, reduzindo os campos de alimentos básicos como arroz, milho e trigo.

"Os insetos já consomem o equivalente a um pão de cada oito que são feitos", disse ao Times o professor Curtis Deutsch, da Universidade de Washington. "Se tivermos um aquecimento de quatro graus, que é o previsto habitualmente pelos modelos climáticos para o fim deste século, isso significará que os insetos consumirão dois de nossos oito pães em vez de apenas um".

Mas pode haver uma solução. Podemos colocar os insetos em nossos pratos e incluí-los no jantar.

Há vantagens no consumo de insetos como alimento, caso contrário os humanos não teriam perturbado colmeias e cupinzeiros ao longo da sua história. Eles são ricos em nutrientes essenciais e proteínas, e seu rápido ciclo de vida os torna sustentáveis e fáceis de cultivar.

O crescente número de insetos é "uma história de horror se pensarmos neles enquanto inimigos, mas uma bênção se reconhecermos que eles podem nos manter vivos", escreveu Ligaya Mishan no Times.

Cerca de 2 bilhões de pessoas comem insetos regularmente, e apreciam seu sabor. No Peru, diz-se que a larva da broca-do-coqueiro, com a barriga cheia de azeite de dendê, fica deliciosamente caramelizada no fogo. No nordeste do Japão, gafanhotos banhados em tsukudani são um aperitivo doce e salgado.

No Ocidente, as pessoas não se animam diante de um prato de hexápodos ou larvas. Isso ocorre em parte por causa da biodiversidade limitada da Europa - os insetos nunca foram grande coisa no continente. E, no Velho Testamento, há um conselho: se as criaturas formam enxame, não vos deixeis contaminar - Levítico.

Mas, numa era de dietas do paleolítico e compras feitas diretamente com o produtor, isso pode mudar. No ano passado, os americanos gastaram mais de US$ 55 milhões em insetos comestíveis, de acordo com reportagem do Times. E, enquanto startups apresentam as vantagens da entomofagia para a saúde e o meio ambiente, esse número deve aumentar 43% já em 2024.

Artigos preparados com a farinha de grilos assados e pulverizados, sem glúten, vêm ganhando espaço no Vale do Silício, incluídos nas compras de empresas online como a Exo Protein Bars. Afinal, quem precisa de torrada com creme de abacate? Mas se o mercado de insetos comestíveis quiser ultrapassar a marca dos bilhões de dólares, um número maior de pessoas terá de comer as criaturas inteiras.

Seattle pode estar no rumo certo. Os torcedores no estádio de beisebol dos Mariners estão consumindo chapulines (ou gafanhotos) ao milhares, uma iguaria importada de Oaxaca, México. Os insetos são cozidos, secos e descascados antes de serem servidos com pimentas e um pouco de lima.

Na Cidade do México, turistas dedicados à gastronomia pagam caro no restaurante Quintonil por uma refeição que pode incluir adobo de gafanhoto e tartar de abacate na brasa com escamoles, ou larvas de formiga. Abacates e insetos são consideradas "os ingredientes mais icônicos do México", de acordo com o chef Jorge Vallej. "Quando as pessoas vêm ao México, sempre se mostram curiosas a respeito dos insetos comestíveis, pois, na nossa cultura, são parte do cotidiano", disse ele ao Times.

Vallejo comparou os escamoles ao caviar, com um sabor mais frutado e um aroma de grama - evocando o terroir de San Miguel de Allende, onde são produzidos. Uma resenha publicada no Times comparou sua textura à do marshmallow.

"Não usamos ingredientes muito caros", explicou Vallejo. "O verdadeiro valor está nas histórias que podemos contar".

Portanto, que a torrada com creme de abacate dê espaço aos insetos, tão deliciosos, que estão chegando.

Mais conteúdo sobre:
gastronomiainseto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.