Por que não podemos parar de olhar para Marte

Um oásis no céu inspira a imaginação

Dennis Overbye, The New York Times

11 Agosto 2018 | 10h15

Lá estava ele: brilhando com sua luz vermelha nos painéis do céu como um aviso luminoso astrológico  perto da Lua cheia sangrenta, no dia 27 de julho. Marte.

Ele chamava resplandecente através de 57,6 milhões de quilômetros de espaço que nos separam, um fosso que o ser humano anseia por atravessar desde que soube que as luzes que estão no céu são lugares. Esta distância foi a mais próxima da Terra nos últimos 15 anos.

Este anseio agora se reacendeu - se é que foi embora em algum momento - com a descoberta de um lago de 19 quilômetros de largura sob a calota gelada no sul de Marte pelo Mars Express Orbiter, a sonda da Agência Espacial nos Europeia. Um oásis para sonhadores interplanetários. Sabemos que lagos semelhantes existem na Terra, habitados por micróbios, e então quem sabe? Será que pequenos organismos marcianos estariam nadando lá embaixo sob cerca de 2 quilômetros de gelo que impedem a passagem dos raios cósmicos e mantém a água de Marte em estado líquido?

Marte sempre foi o quintal da nossa imaginação, o lugar onde um dia talvez poderíamos viver, ou de onde sairiam invasores a bordo de discos voadores para nos escravizar e roubar a nossa água. Os nossos robôs já cruzaram esse espaço diversas vezes.

Hoje em dia, não é tão absurdo, nos círculos astrológicos, acreditar que a vida que agora envolve a Terra começou em Marte e depois algum micróbio peregrino foi trazido para cá por um asteroide errante. Sabemos hoje que o céu é uma esteira transportadora sem fim carregada de escombros e rejeitos de um planeta para outro, até mesmo de uma estrela para outra, personificada por Oumuamua, o cometa errante que surgiu fora do nosso sistema solar e navegou alegremente no meio dos planetas, meses atrás. Na plenitude dos tempos, todas as coisas vão a toda parte.

Então, todos nós poderíamos ser marcianos, o que talvez ajudasse a explicar a atração aparentemente infinita do Planeta Vermelho. O sonho do exilado é voltar ao que em outras eras talvez tenha sido o Éden. Elon Musk disse que quer morrer lá, mas ainda não está pronto para ir para partir.

Eu cresci aterrorizado, mas também curioso com aquele lugar, depois que vi “Invasores de Marte”. No filme, um menino da minha idade viu um disco voador entrar em um morro, e depois as pessoas da cidade, inclusive seus pais, serem sequestradas e transformadas em robôs. Meus pais nunca me deixaram ver o filme todo.

Prestei minha homenagem a uma parte da mitologia que data do início do século 20, de Marte como o lugar onde uma civilização de seres superinteligentes - aqueles homenzinhos verdes agachados entre canais que traziam a água dos polos - está em extinção. Estas visões surgiram de um equívoco da obra do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, que em 1877 pensou ter misto longas linhas finas que chamou de canais (canali em italiano) cobrindo a superfície de Marte. Percival Lowell, um socialite e astrônomo, levou a sério a ideia e tratou de mapear o que achou que fossem cidades e canais no planeta.

Todo aquele melodrama de ficção científica desapareceu quando as imagens das espaçonaves mostraram o verdadeiro planeta, cheio de crateras onde o vento sopra a poeira.

Agora, aqui estão alguns fatos. Marte tem aproximadamente a metade da superfície da Terra, então a sua gravidade é mais fraca - apenas um terço daquela da Terra, de modo que poderíamos pular mais alto, isto é, se conseguíssemos respirar. A atmosfera marciana é composta na maior parte de dióxido de carbono, e de qualquer maneira é escassa; a pressão é inferior a 1% da pressão do ar aqui na Terra. As temperaturas no solo variam de 30º Celsius a - 123º. O dia tem 24 horas, 39 minutos e 35 segundos, e um ano tem 687 dias terrestres.

Marte é vermelho porque é enferrujado. A poeira marciana está repleta de óxido de ferro.

É uma terra de enormes contrastes, com o maior vulcão do sistema solar, o Monte Olimpo, de 24 quilômetros de altura, e o cânion mais longo, Valles Marineris, de 4 mil quilômetros de extensão e seis quilômetros de profundidade.

Até onde sabemos, é habitado principalmente pelos nossos robôs, como os rovers e os Vikings que enviamos para lá, e pelos destroços  das naves espaciais perdidas. Cerca de 45 missões espaciais - nem todas tiveram sucesso - foram lançadas rumo a Marte pelo homem. Há cinco em preparação, incluindo as da China e dos Emirados Árabes Unidos, planejadas para 2020.

Se mais alguém se interessou, se algo como um iPhone alienígena ou um desses monólitos de “2001: uma Odisseia no Espaço” está pousado sobre uma rocha, não o encontramos ainda.

De todas estas explorações surgiu uma nova história, que igualmente nos assombra, a de um planeta que outrora era banhado por oceanos e foi escavado por rios de águas turbulentas, um mundo que muito tempo atrás era mitigado por uma atmosfera. Mas algo aconteceu, e Marte perdeu suas águas cintilantes e o seu ar.

Agora há apenas orlas nuas, filamentos de tributários vazios, rochas que se erguem em silêncio e ocasionais manchas molhadas nas encostas dos rochedos. Se jamais houve vida ali, diz a história, ela morreu ou foi para o subsolo.

O lago subterrâneo descoberto recentemente, se confirmado por novas observações, será o último desta série de sinais esperançosos de que poderíamos ter vizinhos em algum lugar lá fora.

Há pouco tempo, houve grande excitação com a possibilidade de vida extraterrestre no sistema solar exterior onde se descobriu que muitas das luas de Júpiter, Saturno e os outros gigantes gasosos eram mundos oceânicos que se escondiam sob calotas de gelo. Alguma delas, como Europa de Júpiter e Encélado de Saturno, parecem jorrar no espaço borrifos salgados de água e talvez micróbios.

A NASA planeja enviar uma sonda a Europa, e muitos astrobiólogos pressionam para que se realize uma viagem através dos borrifos de Encélado ou por uma missão que envie drones para explorar os lagos de metano de Titã, a maior lua de Saturno. Ninguém sabe realmente como seria a vida alienígena ou o que exigiria para existir.

Como Jill Tarter do Instituto SETI de Mountain View, na Califórnia, que passou toda a sua vida buscando ETs, gosta de dizer, nós conhecemos um único exemplo de vida no universo. A complexa rede de organismos baseados no DNA que habita a Terra.

“Estamos procurando o Número 2”, ela disse.

Ainda não sabemos como ou por que a vida começou na Terra, ou até que ponto ela predomina no Universo. Um dogma de fé entre os astrônomos e os candidatos a astrobiólogos afirma que, nas condições adequadas, a vida encontrará um caminho.

Talvez nós não encontremos monólitos ou um iPhone errante alienígena. Talvez encontremos apenas micróbios mortos, ou suas marcas fósseis. E mesmo isto seria fantástico, saber que a natureza havia tentado antes.

Mas se eles estiverem vivos - o que quer que isto possa significar - um tipo de prestação de contas espiritual e intelectual recairá sobre nós. Dependendo de quão selvagens ou familiares estas criaturas sejam, talvez devamos decidir se a nossa lealdade é para com organismos baseados no DNA, ou algo até mesmo maior.

Se o arco da história cósmica se voltar para o planeta vermelho, um dia poderemos nos encontrar metaforicamente no lugar de uma família  retratada na série clássica de Ray Bradbury, “Crônicas Marcianas”. Ela fugiu da guerra nuclear na Terra em um foguete roubado e levou a vida para as ruínas da antiga civilização marciana agora desaparecida.

Para compensar a destruição, o pai propõe mostrar ao filho um marciano. Ele o leva por um canal; eles olham na água e enxergam seus próprios reflexos.

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