Ciril Jazbec para The New York Times
Ciril Jazbec para The New York Times

Fazendas de porcos prosperam sem uso pesado de antibióticos

A experiência dinamarquesa sugere que é possível ter porcos saudáveis e uso muito menor de antibióticos

Andrew Jacobs, The New York Times

17 de dezembro de 2019 | 06h00

BILLUND, DINARMCA - Quantas doses de antibióticos são necessárias para criar um porco dinamarquês? Se é um dos 35 mil leitões criados a cada ano na fazenda de Soren Sondergaard, é provável que ele tenha recebido apenas uma até ir para o abate. "Quando eu era garoto, costumávamos despejar quilos de antibióticos em seus cochos", disse Sondergaard, 40 anos, cuja família tem propriedades na península da Jutlândia há gerações. "Isso é coisa do passado."

Como o uso de antibióticos na pecuária disparou globalmente, contribuindo para o aumento de germes resistentes a medicamentos, a Dinamarca provou que um país pode construir uma indústria próspera, ao mesmo tempo em que reduz drasticamente o uso de antibióticos. Os produtores americanos de carne suína usam antibióticos a uma taxa sete vezes maior do que a dos agricultores dinamarqueses, de acordo com um relatório de 2018 do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

O uso excessivo está dando aos germes mais oportunidades para evoluir e superar os medicamentos projetados para matá-los. As infecções resistentes a antibióticos são atualmente responsáveis pela morte de 700 mil pessoas por ano em todo o mundo. Sem uma ação ousada, as Nações Unidas estimaram que patógenos resistentes a medicamentos poderiam causar a morte de 10 milhões de pessoas em todo o mundo até 2050.

Funcionários da indústria de carne suína nos Estados Unidos argumentam que os antibióticos são essenciais para manter os animais saudáveis e os custos com alimentos baixos. Mas a Dinamarca demonstrou que é possível criar um suprimento massivo de alimentos à base de carne, preservando os antibióticos mais preciosos para as pessoas. As mudanças na Dinamarca foram alcançadas por meio de regulamentações mais rígidas e, à medida que os agricultores aprendiam a criar animais dessa maneira, também os mantinham mais saudáveis.

Lance Price, diretor do Centro de Ação de Resistência a Antibióticos da Universidade George Washington, em Washington, disse que as críticas da indústria suína americana a países que reduziram o uso de antibióticos são frequentemente baseadas em uma análise seletiva e cínica dos dados. "Pelo bem da humanidade, eles precisam assumir alguma responsabilidade por seu papel nesta crise antes que seja tarde demais", disse ele.

Em resposta à mudança de opinião pública, redes de fast-food como McDonald's, Taco Bell e Wendy não compram mais frango de produtores que fazem uso considerável de antibióticos. Mais da metade das galinhas nos Estados Unidos agora são criadas sem os remédios, de acordo com o Conselho Nacional de Frangos. A experiência dinamarquesa sugere que é possível ter porcos saudáveis e uso muito menor de antibióticos. "A maioria de nós tem filhos", disse Sondergaard. "Queremos garantir que deixemos um mundo onde os antibióticos ainda funcionem."

A Dinamarca, com seis milhões de pessoas, cria 32 milhões de porcos por ano. Houve uma contração em 1995, quando o governo impediu os veterinários de vender medicamentos antimicrobianos diretamente aos agricultores, removendo um incentivo para prescrições desnecessárias. Os regulamentos exigiam que os agricultores pagassem aos veterinários visitas regulares, aliviando a oposição, disse Ken Steen Pedersen, da Associação Veterinária Dinamarquesa. "Os veterinários perceberam que poderiam ganhar dinheiro vendendo conhecimento e conselhos aos agricultores, em vez de vender remédios", disse ele.

Desde 2010, o governo estabeleceu metas para reduzir o uso de antibióticos em animais, começando com 10% nos primeiros quatro anos e 15% nos cinco anos seguintes. As fazendas que excedem as metas recebem um cartão amarelo, um emblema de desonra que em 2018 foi distribuído para apenas 30 das 3,1 mil fazendas de porcos do país. Nos últimos anos, nenhuma fazenda recebeu o cartão vermelho por incumprimento repetido.

Michael Nielsen, 55 anos, disse que mudou a maneira como criava suínos perto de Copenhague. "Quero mostrar que podemos fazer produção industrial com melhor bem-estar animal", disse ele. "Tentamos tornar a vida deles o mais livre de estresse possível". Algumas táticas são baratas, como a distribuição diária de palha fresca, que amortece o frio piso de concreto e dá aos "adolescentes inquietos" algo nutritivo para mastigar.

Mas, para reduzir o estresse nos leitões que às vezes leva à diarreia infecciosa, a maioria dos agricultores dinamarqueses permitiu que eles fossem desmamados depois de um mês, uma semana a mais que a média do porco americano. E, em um esforço para dar espaço para as porcas que amamentam, Nielsen recentemente expandiu o tamanho de suas gaiolas de confinamento em 50%, um sacrifício significativo para os agricultores cujas margens de lucro geralmente são muito pequenas.

Anders Rhod Larsen, um microbiologista do Instituto Statens Serum, disse que "existe um senso de responsabilidade compartilhado, de que precisamos resolver esse problema juntos".  Muitas das medidas adotadas pela Dinamarca estão sendo adotadas em toda a Europa. Ainda assim, em países em desenvolvimento, onde o aumento de renda está conectado a maior demanda por proteína animal, o uso de antibióticos na pecuária continua crescendo.

Christian Fink Hansen, diretor de pesquisa em suínos da Seges, uma cooperativa de pesquisa financiada por agricultores na Dinamarca, disse que o impacto da redução de antibióticos na pecuária será limitado se outros países continuarem com o uso liberal dos medicamentos. "Estamos fazendo todo o possível para combater esse problema global, mas no final do dia, não podemos fazer isso sozinhos". TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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