Kholood Eid / The New York Times
Kholood Eid / The New York Times

Imagens de abuso sexual infantil inundam páginas online

Recursos são insuficientes para investigar as 45 milhões de fotos e vídeos dos atos criminosos 

Michael H. Keller e Gabriel J. X. Dance, The New York Times

20 de outubro de 2019 | 06h00

As imagens são horrendas. Crianças, algumas delas de apenas 3 ou 4 anos, sendo abusadas sexualmente e, em alguns casos, torturadas. Imagens de abuso sexual infantil são produzidas há muito tempo e compartilhadas para satisfazer perversas obsessões de adultos. Mas o problema nunca foi tão grave. Empresas de tecnologia registraram um recorde no ano passado: 45 milhões de fotos e vídeos de abusos foram detectados online.

Mais de uma década atrás, quando o número registrado de imagens de abusos era menor que 1 milhão, a proliferação de imagens explícitas já tinha chegado a um ponto que indicava uma crise. Empresas de tecnologia, forças de segurança e legisladores em Washington responderam aprovando uma legislação histórica, em 2008, com o objetivo de conter esse tormento.

Ainda assim, a detecção desse tipo de conteúdo explodiu e continuou crescendo exponencialmente. Uma investigação do New York Times descobriu um insaciável submundo criminoso que explora falhas e limitações nos esforços para contê-lo. Muitas empresas de tecnologia fracassaram em policiar adequadamente imagens de abuso sexual em suas plataformas — ou fracassaram em cooperar suficientemente com as autoridades quando descobriram esse tipo de material.

Forças de segurança que se debruçam sobre o problema foram deixadas sem pessoal e sem financiamento, mesmo sendo acionadas para lidar com casos maiores. O Departamento de Justiça americano negligenciou a obrigação de redigir relatórios a respeito do assunto e não indicou um representante de alto escalão para liderar uma investigação enérgica. E o grupo que tinha a tarefa de servir como centro de coordenação federal para lidar com essas imagens — fazendo a intermediação entre as empresas de tecnologia e as autoridades — foi mal equipado para lidar com a crescente demanda.

Um documento publicado recentemente por esse grupo, chamado Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, afirmou que o sistema está “no limite”. Apesar de representar um fenômeno global (a maioria das imagens encontradas no ano passado vem de outros países) esse problema está firmemente fincado nos Estados Unidos, por causa do papel central do Vale do Silício tanto na facilitação da difusão dessas imagens quanto nas denúncias feitas às autoridades.

Pornografia infantil

Enquanto a produção desse material, conhecido comumente como pornografia infantil, antecede a era digital, mecanismos como câmeras de smartphones, redes sociais e armazenamento em nuvem permitiram que essas imagens se multiplicassem a uma taxa alarmante. Imagens antigas e novas ocupam todos os espaços na internet, incluindo o Messenger, do Facebook, a ferramenta de buscas Bing, da Microsoft, e o serviço de armazenamento em nuvem Dropbox.

Há grupos online dedicados a compartilhar imagens de crianças cada vez mais novas e formas cada vez mais extremas de abuso. Esses grupos usam tecnologias de criptografia e a deep web, o vasto ponto fraco da internet, para ensinar pedófilos como cometer os crimes e como registrar e compartilhar imagens dos abusos em todo o mundo. Em alguns fóruns online, crianças são forçadas a segurar cartazes com o nome do grupo ou outro tipo de informação que comprove que as imagens são recentes.

Com tantos relatos de abusos, forças de segurança de todos os Estados Unidos afirmam que frequentemente ficam sobrecarregadas. Algumas equipes administram sua carga de trabalho online concentrando-se nas imagens das vítimas mais novas. “Vamos para casa e pensamos: ‘céus, o fato de termos de filtrar os casos pela idade das vítimas é realmente perturbador’”, lamentou a detetive Paula Meares, que investiga crimes sexuais contra crianças há mais de dez anos pelo Departamento de Polícia de Los Angeles.

Recursos insuficientes

As empresas de tecnologia têm obrigação legal de denunciar imagens de abuso sexual infantil quando as descobrem, mas não são obrigadas a procurar por elas em suas ferramentas. Pode levar semanas ou até meses para as empresas responderem a perguntas das autoridades, e há casos em que elas não respondem.

Mesmo quando as empresas de tecnologia cooperam, a criptografia e o anonimato são capazes de criar esconderijos digitais para criminosos. Em março, o Facebook anunciou planos para criptografar o Messenger, que, no ano passado, foi responsável por quase 12 milhões dos 18,4 milhões de denúncias mundiais de material de abuso sexual infantil, de acordo com as pessoas familiarizadas com as denúncias.

A legislação que o Congresso aprovou em 2008 previu muitos dos problemas de hoje, mas o governo não tem cumprido alguns dos principais aspectos da lei. O Departamento de Justiça produziu somente dois dos seis relatórios que lhe são exigidos, destinados a compilar os dados sobre crimes contra crianças na internet e estabelecer objetivos para eliminá-los — e tem havido uma rotatividade constante de pessoas indicadas para liderar os esforços do departamento, que costumam ficar pouco tempo no cargo.

O governo federal também tem deixado de honrar as metas de financiamento que a lei exige, paralisando esforços para eliminar a atividade. O Congresso tem repassado apenas cerca de metade dos US$ 60 milhões de seu orçamento anual dedicados às iniciativas de policiamento e segurança estaduais e locais. Este ano, o Departamento de Segurança Interna realocou cerca de US$ 6 milhões antes destinados a unidades de combate a cibercrimes para o combate à imigração ilegal.

Demora e falhas na resolução

Alicia Kozakiewicz, que foi sequestrada por um homem que conheceu na internet quando tinha 13 anos, afirmou que a falta de resolução dos casos é desanimadora. Agora, uma ativista que advoga por leis de prevenção a crimes contra crianças deu um depoimento no Congresso a favor da legislação de 2008. “Lembro de olhar em volta e ver todos com os olhos cheios de lágrimas”, disse. Alicia, hoje aos 31 anos, relatou ter sido acorrentada, estuprada e espancada enquanto o agressor transmitia os abusos ao vivo na internet. “A lei federal foi aprovada, mas não recebeu financiamento. Então, isso não significou nada”. 

As falhas na resposta federal são agravadas pelas limitações do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, que analisa as denúncias recebidas e depois as encaminha para forças de segurança federais, estaduais e locais e para parceiros internacionais. Esse instituto sem fins lucrativos tem se fiado, em grande medida, em uma tecnologia de 20 anos atrás, com dificuldade para manter técnicos experientes na equipe e, de acordo com a própria instituição, sua prioridade é o resgate de crianças, e não o combate à disseminação de fotos e vídeos de abusos.

“Para ser sincero, é uma questão de disparidade entre os recursos e o volume de casos”, explicou John Shehan, vice-presidente do instituto. “Nossa prioridade é garantir que estamos avaliando corretamente o risco que essas crianças estão correndo. Passamos essas informações para a polícia". 

Ocultação elaborada

Vídeos encontrados no computador de um homem de Ohio foram descritos por investigadores como algumas das “mais perversas e violentas imagens de pornografia infantil já vistas”. Um deles mostrava uma mulher “inserindo um cubo de gelo na vagina” de uma menina pequena, afirmam os documentos, antes de amarrar seus tornozelos, amordaçá-la e pendurá-la de cabeça para baixo. Ao longo do vídeo, a menina é espancada, estapeada e queimada com um fósforo ou uma vela. “O som predominante é dos gritos da criança”, de acordo com um agente federal citado nos documentos.

Os vídeos estavam armazenados em um computador escondido e tinham sido criptografados. O algoz, que ajudava a administrar uma página da deep web conhecida como Love Zone tinha mais de 3 milhões de fotos e vídeos em seus computadores. O site, já fechado, tinha aproximadamente 30 mil assinantes e exigia deles que compartilhassem imagens de abusos para manter sua reputação.

Nos anos mais recentes, várias investigações policiais desmantelaram enormes fóruns no esgoto da internet, incluindo um chamado Child’s Play que, de acordo com os registros, tinha mais de 1 milhão de contas de usuários. Os criminosos conseguem encobrir suas pistas conectando-se a redes virtuais privadas, que mascaram suas localizações, usando técnicas de criptografia capazes de esconder suas mensagens e tornar seus discos rígidos impenetráveis, publicando o conteúdo na deep web, que é inacessível para usuários convencionais.

“Historicamente, ninguém poderia ir a uma loja no mercado ilegal e dizer: ‘Quero imagens de sexo explícito com crianças de 3 anos’”, afirmou Yolanda Lippert, promotora do Condado de Cook, em Illinois, e líder de uma equipe que investiga abusos de crianças veiculados online. “Mas, agora, a pessoa pode se sentar diante do computador, aparentemente em segurança, e procurar por conteúdo desse tipo, negociando o acesso a esse material". 

O criminoso de Ohio, um administrador de sites chamado Jason Gmoser, “se esforçou bastante para ocultar” sua conduta, de acordo com os documentos. Testemunhas no processo criminal revelaram que as autoridades levariam “trilhões de anos” para decifrar a senha de 41 caracteres que ele utilizou para criptografar o site. No fim, ele revelou a senha para os investigadores — e foi sentenciado à prisão perpétua em 2016.

Cibercrimes e privacidade

Empresas de tecnologia sabem há anos que suas plataformas são cooptadas por predadores sexuais, mas muitas firmas têm ignorado a situação. E enquanto muitas empresas fizeram progresso recentemente na identificação desse material, outras foram vagarosas na resposta.

Hemanshu Nigam, um ex-promotor especializado em casos de cibercrimes e exploração de crianças, afirmou que já era evidente há mais de duas décadas que as novas tecnologias seriam uma dádiva para os pedófilos. O recente aumento nos relatórios das empresas de tecnologia sobre abusos online “não teria acontecido se elas tivessem feito seu trabalho direito naquela época”, disse Nigam.

Hany Farid, que trabalhou com a Microsoft em 2009 desenvolvendo tecnologia para detectar material com abuso sexual infantil, afirmou que as empresas de tecnologia relutam há anos em investigar o problema com profundidade. “As empresas sabiam que suas casas estavam repletas de baratas e tinham medo de acender a luz”, exemplificou. “E, quando elas finalmente acenderam a luz, o problema se mostrou pior do que pensavam”.

Quando Mark Zuckerberg, o diretor executivo do Facebook, anunciou em março que o Messenger seria criptografado, ele reconheceu o risco que isso representava em relação a “coisas verdadeiramente terríveis, como exploração de crianças”. “A criptografia é uma ferramenta poderosa para a privacidade”, afirmou, “mas isso inclui a privacidade das pessoas que fazem coisas ruins”.

O Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas tem dificuldade para atender às demandas para conter a disseminação dessas imagens. A tecnologia que o instituto utiliza para receber e revisar as denúncias da existência desse material foi criada em 1998, quase uma década antes do lançamento do primeiro iPhone.

Mas o problema vai além da tecnologia. A polícia reclama que a maioria dos casos urgentes não é tratada como prioridade — ou é encaminhada a um departamento de investigação completamente equivocado. “Estamos gastando um tempo enorme tendo que compilar os casos e reanalisá-los por nossa própria conta”, comentou Mike Edwards, chefe de polícia de Seattle que coordena uma unidade de investigação de cibercrimes no estado de Washington.

'Horror do conteúdo'

O combate ao problema das imagens de abuso sexual infantil enfrenta um obstáculo particular: recebe pouca atenção porque poucas pessoas se dispõem a encarar a profusão e o horror desse conteúdo — ou o material é erroneamente descartado por ser considerado, a princípio, selfies inapropriadas enviadas por adolescentes. Alguns legisladores estaduais, juízes e congressistas recusam-se a discutir o problema detalhadamente ou evitam reuniões a respeito do tema quando ele aparece na pauta, afirmam policiais e vítimas.

Steven J. Grocki, que lidera um grupo de especialistas em políticas públicas e advogados da seção de combate à exploração infantil do Departamento de Justiça, afirmou que a relutância em abordar o tema representa um problema societário mais amplo. “Eles evitam olhar porque a imagem no espelho é feia demais”.

Ainda assim, o material está por todo lado — e cada vez mais facilmente disponível. Tamanho volume de trabalho forçou as autoridades a fazer escolhas difíceis, incluindo reduzir as operações que envolvem policiais infiltrados em salas de bate-papo online. “Acho que os maiores predadores livres por aí continuam por aí”, continuou Yolanda. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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