Erika P. Rodriguez para The New York Times
Erika P. Rodriguez para The New York Times

Por que pessoas negras de Porto Rico se dizem brancas no censo?

Mais de três quartos da população se descreveu como branca no levantamento censitário, ainda que boa parte dela tenha raízes na África

Natasha S. Alford, The New York Times

21 de fevereiro de 2020 | 06h00

LOÍZA, PORTO RICO - Dançarinos usando coloridas saias na altura dos tornozelos se reuniram em torno de cinco tambores. Os ombros e os quadris pulsavam com um ritmo de inspiração africana. Loíza, cidade fundada por ex-escravos africanos, é um dos muitos lugares em Porto Rico onde prosperam as tradições de inspiração africana, como a oficina de dança bomba, no centro comunitário Corporación Piñones se Integra. Mas isso não significa que as pessoas daqui se descreveriam como negras.

Mais de três quartos dos porto-riquenhos se descreveram como brancos no levantamento censitário mais recente, ainda que boa parte da população tenha raízes na África. Essa proporção caiu em relação aos 80% observados 20 anos atrás, mas ativistas e demógrafos dizem que ainda é imprecisa. Estão trabalhando no sentido de fazer com que mais habitantes de ascendência africana se considerem negros no próximo censo para chamar atenção para as disparidades raciais na ilha.

Os moradores podem assinalar “porto-riquenho” no formulário do censo para indicar sua origem hispânica. Mas, em se tratando de raça, devem escolher entre “branco", “negro", “ameríndio", mais de uma alternativa para ascendência asiática, ou mesmo escrever a opção desejada. A maioria assinala “branco".

Mas a lenta resposta do governo Trump após a passagem do furacão Maria e outros desastres fez muitos porto-riquenhos repensarem a decisão, disse Kimberly Figueroa Calderón, integrante do Colectivo Ilé, uma coalizão de educadores e organizadores que fazem campanha para que um maior número de porto-riquenhos se declarem negros no censo de 2020. “Não somos os ‘cidadãos’ que pensamos ser", disse ela.

Após o furacão Maria, Maricruz Rivera-Clemente, fundadora do centro Corporación Piñones se Integra, disse que a eletricidade demorou mais para ser restaurada em Loíza do que em outras partes da ilha. A professora de sociologia Bárbara I. Abadía-Rexach, da Universidade de Porto Rico, que é integrante do Colectivo Ilé, ficou chocada ao saber quantos porto-riquenhos se declararam brancos no censo mais recente. Ela nasceu na ilha e se descreve como uma mulher negra.

O Colectivo Ilé realizou oficinas, ensinando a respeito do impacto do censo e das realizações dos porto-riquenhos de origem africana. A esperança é que mais pessoas se descrevam como negras ou de ascendência africana no censo. Muitos porto-riquenhos dizem acreditar que a opção por se descreverem como negros apaga sua identidade cultural única. José Luis Elicier-Pizarro, que tem a pele escura, nasceu em Loíza e é professor de dança bomba. “Não digo que sou um porto-riquenho afrodescendente porque meu pai não é africano nem minha mãe. Em se tratando da aparência, sim, me considero negro. Mas, em se tratando de identidade, me considero porto-riquenho".

Uma política conhecida como gracias al sacar permitiu que os porto-riquenhos negros de origem mestiça solicitassem à Espanha a reclassificação como brancos. Isso prosseguiu depois que os Estados Unidos tomaram Porto Rico em 1898.

Para os ativistas, dados censitários melhores são necessários para compreender um assunto que alguns dizem ser tabu em Porto Rico: o racismo. “As pessoas perguntam: ‘Como é possível que nós sejamos racistas? Somos porto-riquenhos’”, justificou William Ramírez, diretor executivo da American Civil Liberties Union (ACLU) de Porto Rico. “Um de nossos trabalhos é fazer as pessoas admitirem que o racismo existe aqui, sim.” 

A fundadora do Centro de Cultura Caribenha do Instituto da Diáspora Africana em Nova York, Marta Moreno Vega, disse que “em Porto Rico, o nome dado aos negros não costuma envolver a origem africana”. De acordo com ela, expressões como “negra", “mulato", “morena” e “trigueña” representam articulações mais comuns das referências aos afrodescendentes. O movimento do Colectivo Ilé para o levantamento censitário de 2020 ocorre concomitantemente a outros movimentos que buscam o reconhecimento da afrodescendência de populações de países latino-americanos como México e Chile.

Mas, para Elicier-Pizarro, assinalar uma opção no formulário do censo é muito limitante. Na realidade que ele vive, considera-se latino. Mas, acima de tudo, é porto-riquenho. “É quem eu sou. Sou um latino de pele escura nascido em Porto Rico", disse ele. “Sou porto-riquenho.” Reportagem produzida em parceria com o Pulitzer Center on Crisis Reporting. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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