Porto-riquenhos voltam à ilha cinco meses após passagem do furacão Maria

Porto-riquenhos voltam à ilha cinco meses após passagem do furacão Maria

Algumas das mais de 135 mil pessoas que deixaram Porto Rico para fugir da destruição tentam retornar a suas casas e retomar a rotina

Luis Ferré-Sadurní, The New York Times

07 Abril 2018 | 10h30

A perna de Enrique López ficou dormente novamente. Incapaz de ficar em pé, Enrique permaneceu deitado no sofá enquanto seus filhos arrumavam seus pertences.

“Devemos dar ao papai o passaporte agora ou no aeroporto?”, perguntou José López, 55 anos, a sua irmã, Magaly López.

“Não, ele vai perder", disse Magaly, 56 anos. "Nós colocamos o remédio da mamãe na mala?". Sua mãe, Emma López, estava comendo arroz e feijão, sua última refeição em sua suíte de um hotel na cidade de Nova York.

Enrique, 81 anos, e Emma, 75 anos, estavam prestes a embarcar em uma difícil e, para seus filhos, assustadora viagem - eles estavam embarcando em um avião para Porto Rico, cinco meses depois de o furacão Maria tê-los forçado a abandonar sua casa.

Omaira López, a filha mais nova, estava se esforçando para fechar a única mala de seus pais. Omaira, 44 anos, estava mais quieta que o normal. Ela se preocupava com a luta de sua mãe contra o mal de Alzheimer e o AVC que o pai sofrera duas semanas antes.

Ela e seus três irmãos, que moram em Nova York, temiam por este dia, receosos de como seus pais se sairiam sozinhos em uma ilha que ainda está se recuperando. Mas o casal estava esperando pelo retorno desde que fugiram da ilha em outubro.

Como Enrique disse antes de sair do hotel pela última vez: "Estou no céu aqui, mas estou voltando para o paraíso".

Mais de 135 mil porto-riquenhos partiram para o continente nos últimos seis meses desde que o furacão Maria atingiu a ilha em setembro. As famílias mudaram permanentemente seus endereços e matricularam seus filhos em escolas na Flórida, no Texas e em Nova York.

No entanto, muitos outros fugiram com planos de retornar. Para eles, o salto para o norte foi uma pausa do caos depois do furacão: a falta de eletricidade, hospitais não confiáveis e longas filas para gasolina e comida. Agora, eles começaram a voltar.

Para muitos é um retorno alegre à pátria. Mas o regresso à casa ainda é agridoce. Eles precisam lidar com um lugar onde as quedas de energia são frequentes, as empresas permanecem fechadas e as colinas cheias de lonas.

As pessoas mais velhas, como Enrique e Emma, são especialmente vulneráveis. Mais de 23% da população de Porto Rico tem mais de 60 anos, uma porcentagem maior do que em qualquer outro lugar da América Latina. E esse número está crescendo conforme os jovens abandonam a ilha.

Ao retornar, Enrique e Emma estavam trocando o acesso aos cuidados médicos de excelência em Nova York pelas condições imprevisíveis em uma ilha pela qual ansiavam, embora estivesse mal equipada para atender às suas necessidades.

Magaly queria que seus pais ficassem em Nova York, onde seus filhos poderiam cuidar deles. Mas José havia cedido.

“Eu vejo isso como uma questão de segurança", disse Magaly. "Ele vai cair."

"Ele cai aqui", respondeu José.

"Mas estamos aqui para socorrê-lo", disse ela.

"Eles estão sentados naquele quarto de hotel chorando, querendo estar em casa", disse ele.

Magaly retrucou: "Então, estamos apenas despejando-os em Porto Rico?"

Depois do furacão, os hospitais da ilha não tinham energia e o calor sufocante podia ser fatal para os doentes e os idosos. Preocupada com a saúde precária de seus pais, Omaira, que morava com eles em Porto Rico, acompanhou-os em um dos muitos voos humanitários que levaram porto-riquenhos para o continente.

Durante os primeiros meses, Enrique e Emma se acomodaram nos apartamentos de seus filhos. Em novembro, eles se qualificaram para um programa federal que prevê moradias temporárias em hotéis. Então se mudaram para um no Queens, mas nunca se acostumaram e logo imploraram aos filhos que os levassem de volta a Porto Rico.

Emma, de fala mansa e tipicamente quieta, começou a reclamar do frio intenso e dos intermináveis dias que passou olhando pela janela do hotel.

"Eu não quero isso. Eu quero ir embora agora, ”Emma disse a Omaira em uma noite de fevereiro.

"Quando eu era pequena, você me protegia", disse Omaira à mãe pacientemente. "Agora, eu estou protegendo você".

Mas mesmo em Nova York os piores pesadelos de Omaira se tornaram realidade. Enrique caiu um dia e dois estranhos tiveram que ajudá-lo. Em fevereiro, ele ficou hospitalizado por quatro dias com gripe e depois teve uma hemorragia cerebral grave que deixou suas pernas bambas. A maioria das palavras de Enrique agora é depreciativa.

"Eu quero morrer lá, não aqui", disse Enrique no hotel. "A cidade de Nova York é para jovens".

José havia decidido que não fazia sentido desafiar seu pai. "Eu disse: ‘É isso. Vamos comprar as passagens, ir até lá e resolver tudo”, lembrou.

A casa de concreto de dois andares do casal tinha sido em grande parte poupada pela tempestade, mas a porta da frente de madeira estava dividida ao meio. Ainda assim, eles estavam em casa, 148 dias depois de irem embora.

Enrique cambaleou em direção à escada em espiral. Ele agarrou o corrimão, quase perdendo o primeiro passo, então prendeu a respiração e deu outro. Ele balançou um pouco antes de recuperar o equilíbrio.

Emma gritou e se virou para José em busca de ajuda.

"Deixe-o fazer isso sozinho", disse José à mãe. "Eu não vou estar aqui para ajudá-lo".

Quando Enrique construiu a casa duas décadas atrás, depois de se aposentar, ele não previu que as escadas se tornariam perigosas. Seus filhos imploraram para que ele se mudasse para o térreo, mas ele recusou teimosamente.

Enrique inspecionou sua casa. Algumas telas das janelas tinham buracos. A bomba de água estava quebrada e as bocas do fogão tinham de ser consertadas. Ele ligou o interruptor de luz. Pelo menos havia energia.

Vários dias depois que José retornou a Nova York, Enrique levado a uma sala de emergência, onde permaneceu por várias horas. "Recebi uma ligação dele e ele falava mais do que o habitual", disse Omaira.

Enquanto estava sozinha, Emma deixou uma torneira funcionando, o que os levou a ficar sem água por dias. Em seguida, a geladeira deles quebrou.

Omaira suspeitou que seu pai estivesse ansioso, o que explicaria sua respiração.

"Eu nunca o vi chorar", disse ela. "Ele estava soluçando".

Ainda assim, todos os dias, Enrique insiste em subir os 16 degraus até sua porta.

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