Rodrigo Cardoso for The New York Times
Rodrigo Cardoso for The New York Times

Portugal abandona austeridade e impulsiona crescimento

Em 2015, país deixou de lado medidas de austeridade mais severas impostas por credores europeus

Liz Alderman, The New York Times

10 Agosto 2018 | 15h00

LISBOA - Ramón Rivera mal tinha começado seu negócio de azeite de oliva na região do Alentejo, em Portugal, quando teve início a crise de endividamento na Europa. A economia ruiu, os salários foram cortados e o desemprego dobrou. O governo de Lisboa teve que aceitar um humilhante resgate internacional.

Mas, então, Portugal adotou uma postura ousada: em 2015, o país deixou de lado as medidas de austeridade mais severas impostas por seus credores europeus, dando início a um ciclo que colocou sua economia no rumo do crescimento. Portugal reverteu os cortes nos salários, pensões e previdência social, e ofereceu incentivos aos negócios.

A virada na posição do governo e sua disposição para gastar tiveram um efeito poderoso. Os credores criticaram a jogada, mas o clima de depressão que envolveu o país durante os anos de aperto no cinto começou a ceder. A confiança nos negócios foi recuperada. Produção e exportação começaram a decolar - incluindo os bosques de oliveiras de Rivera.

“Tínhamos fé que Portugal superaria a crise", disse Rivera, gerente-geral da Elaia. A empresa se concentrou na tecnologia de ponta para a colheita, e agora é uma das maiores produtoras de azeite de Portugal.

Portugal desafiou os críticos que insistiam na austeridade como resposta aos problemas econômicos e financeiros. Enquanto países como Grécia e Irlanda (e também Portugal, durante algum tempo) se conformaram, Lisboa resistiu, ajudando a energizar um renascimento que impulsionou o crescimento no ano passado ao nível mais alto em dez anos.

Hotéis, restaurantes e lojas foram abertos em grandes números, abastecidos por uma alta no turismo que ajudou a cortar o desemprego pela metade. No distrito de Beato, em Lisboa, um imenso campus destinado a startups se ergue das ruínas de uma fábrica. Recentemente, Bosch, Google e Mercedes-Benz abriram escritórios e centros de pesquisa digital no país, gerando milhares de empregos.

O investimento estrangeiro nos setores de construção, aeroespacial e outros está em patamares recordes. E as tradicionais indústrias portuguesas, incluindo a têxtil e a de celulose, estão destinando dinheiro à inovação, impulsionando uma alta nas exportações.

“O que ocorreu em Portugal mostra que a austeridade excessiva aprofunda a recessão e cria um círculo vicioso", disse o primeiro-ministro António Costa. “Criamos uma alternativa para a austeridade, com foco num crescimento maior, além de empregos melhores e mais numerosos.”

O governo aumentou os salários do setor público, o salário mínimo e as pensões, chegando a restaurar o número de dias de férias ao número anterior ao resgate econômico, apesar das objeções de credores como a Alemanha e o Fundo Monetário Internacional. Os incentivos para estimular os negócios incluíam subsídios ao desenvolvimento, créditos fiscais e financiamento para pequenas e médias empresas.

Costa compensou os gastos com os benefícios reduzindo o investimento em infraestrutura, por exemplo, encolhendo o déficit orçamentário anual para menos de 1% do PIB - quando Costa assumiu, esse rombo era de 4,4%. Mantido esse ritmo, o governo deve chegar a um superávit já em 2020, encerrando um quarto de século de déficits.

Autoridades europeias agora reconhecem que Portugal pode ter encontrado uma resposta melhor para a crise. Recentemente, eles recompensaram Lisboa promovendo o ministro das finanças do país, Mário Centeno, a presidente do Eurogroup, influente coletivo de ministros das finanças da zona do euro.

Mas o sucesso de Portugal ainda é vulnerável. O crescimento está recuando em relação aos 2,7% do ano passado, enquanto Costa mantém o investimento público no menor nível dos 40 anos mais recentes para reduzir o déficit. Embora ele tenha restaurado os salários do setor público aos níveis anteriores, eles praticamente não avançaram desde antes da crise. E embora o salário mínimo tenha aumentado para 580 euros mensais, este ainda é o mais baixo da zona do euro.

Os sindicatos de Portugal agora ameaçam fazer greves para pressionar o governo a reverter completamente a austeridade, aumentar os salários e retomar mais investimento público para reduzir a desigualdade.

O governo está investindo os poucos recursos que restaram em iniciativas como isenções fiscais para empresas estrangeiras e treinamento para os desempregados.

Em Évora, há uma fábrica de 5 acres construída pela fábrica francesa de peças para aviões, Mecachrome. Atraída em 2016 por incentivos do governo e empréstimos da União Europeia, a empresa investiu 30 milhões de euros num vasto parque aeroespacial. Os robôs criam peças de alta precisão para a Airbus, Boeing e outras gigantes da indústria. A maioria dos 150 técnicos foi recrutada nas imediações por uma agência para desempregados que começou como um programa de treinamento intensivo do governo.

Christian Santos, funcionário da Mecachrome, disse que planeja contratar mais 150 funcionários e ganhar milhões com os investimentos feitos nos próximos 3 anos.

“As coisas estão de fato acontecendo em Portugal", disse ele. “Há um clima de entusiasmo no ar.” / Camilo Soldado contribuiu com a reportagem. 

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