José Sarmento Matos para The New York Times
José Sarmento Matos para The New York Times
Raphael Minder, The New York Times

21 de agosto de 2019 | 06h00

VERMELHOS, PORTUGAL - Portugal luta na tentativa de encontrar soluções para os incêndios florestais que devastaram o país nos últimos anos. Testou drones, usou satélites e aviões para combater o fogo. Além disso, empreendeu mudanças políticas de longo prazo para melhorar o amanho da terra que poderia evitá-los. E tem as cabras.

Em parte, o problema de Portugal está nas aldeias do interior que perderam as suas populações. A ausência de pastores, de rebanhos de cabras e de produtores agrícolas deixou as florestas sem os devidos cuidados, o que favoreceu a propagação mais rápida dos incêndios.

Encostas excessivamente íngremes são inacessíveis aos tratores, e trabalhadores braçais tornam o cultivo da terra demasiado custoso, principalmente para uma população idosa. As cabras seriam uma solução, porque estes animais se alimentam da vegetação rasteira, que favorece a propagação dos incêndios, desde que houvesse um número suficiente de pastores capazes de tolerar um modo de vida em vias de extinção.

Leonel Martins Pereira, 49, é o último do seu povoado. Agora, ele faz parte de um programa piloto implantado pelo governo português para ajudar os pastores em um trabalho árduo e isolado que poderá ser essencial para o país poder adaptar-se a um futuro definido pela mudança climática. O seu povoado no topo de uma montanha, Vermelhos, no sul de Portugal, é cercado por faixas de terra árida. O que deve ser creditado às suas 150 cabras de Algarve, que extirparam todo o mato que pode alimentar um incêndio.

As cabras comem toda a vegetação local, inclusive o medronheiro, um arbusto cujo fruto é usado pelos moradores para a produção do licor chamado ‘Aguardente de medronhos’. As folhas desta árvore também são dotadas de uma película protetora pegajosa que pega fogo facilmente, mas para as cabras é um alimento que vale o esforço de escalar montanhas.

O projeto das cabras foi criado no ano passado por um instituto florestal do governo. Até o momento, a iniciativa conta com 40 a 50 pastores em todo o país, com um plantel de 10,8 mil cabras que pastam em cerca de 2,7 mil hectares, nas áreas mais vulneráveis ao fogo.

Nuno Sequeira, membro do conselho do instituto para a preservação das florestas e da natureza que dirige o projeto, disse que a dificuldade não foi encontrar o financiamento, mas um número suficiente de pastores em Portugal. Vermelhos se reduziu a apenas 25 moradores, em comparação a mais de 100 quando Martins Pereira era criança. Pastores como ele enfatizam que o que eles fazem não é apenas um trabalho.

Para vencer o calor, que pode chegar a mais de 43 graus nos meses de verão, quando o país está mais propenso aos incêndios, Martins Pereira sai de casa para ir aos montes ao raiar do sol e regressa tarde da noite. “Viver e trabalhar com animais é uma atividade que toma 24 horas por dia”, afirmou. Pelos seus cálculos, o programa do governo paga três euros a mais, ou US$ 3,35 por dia, além do que ele pode ganhar com a venda dos animais e dos seus produtos, em comparação com os 30 euros a hora que custaria operar um trator para limpar a terra.

Não é suficiente, ele disse, e acrescentou que é improvável que continue neste emprego, a não ser que receba um aumento e que os engenheiros florestais lhe deem mais liberdade para decidir onde suas cabras devem pastar. Os inspetores florestais, afirmou, querem que ele só se preocupe com a limpeza das áreas às margens das estradas, que devem ser protegidas contra o fogo, mas onde nem sempre se encontra a melhor vegetação para alimentar as suas cabras.

Sequeira disse que a fase piloto permite algum aperfeiçoamento antes que o projeto se amplie. “Estamos tentando mudar todo o sistema para prevenir os  incêndios florestais, e isto leva tempo”, afirmou. Até lá, Portugal provavelmente terá de assistir à repetição de tragédias. Desde o início da década, por causa dos incêndios o país perdeu uma parte maior de suas florestas do que qualquer outro país do sul da Europa, como Espanha, Itália, Grécia, segundo a Comissão Europeia. Dois verões atrás os incêndios mataram mais de 100 pessoas.

“Acho que finalmente compreendemos que não podemos apenas combater os incêndios, mas também devemos preveni-los, trabalhando muito na floresta nos meses que antecedem a chegada do calor do verão”, disse Paulo Dias, engenheiro florestal que monitora o projeto das cabras. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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