Meghan Dhaliwal para The New York Times
Meghan Dhaliwal para The New York Times

Povos indígenas da Bolívia se dizem traídos por Evo Morales

Presidente boliviano tenta 4º mandato e defende construção de barragem perto das terras de sua tribo

Nicholas Casey, The New York Times

14 de dezembro de 2018 | 06h00

CARMEN DEL EMERO, BOLÍVIA - Neste vilarejo indígena da Bolívia, a regra é a mesma há gerações: os líderes só podem ser reeleitos uma vez. Depois disso, devem ceder o lugar a outra pessoa. Assim, foi chocante para Nelo Yarari, líder da comunidade indígena de Carmen del Emero, do povo Tacana, localizada na Amazônia boliviana, descobrir que o presidente Evo Morales se candidataria a um quarto mandato.

A constituição da Bolívia o impedia de fazê-lo e, dois anos atrás, Morales foi derrotado num referendo que teria permitido a ele concorrer novamente. Morales pressionou os tribunais, que acabaram com o limite ao número de reeleições. Um aspecto foi especialmente doloroso para Yarari: como primeiro líder indígena da Bolívia, Morales tinha prometido defender os valores dos nativos.

Ao buscar mais um mandato, Morales estava violando um princípio básico dos Tacanas, a alternância no poder. Estava também pressionando pela extração de petróleo e gás natural em áreas protegidas e a construção de barragens hidrelétricas que expulsariam comunidades nativas. “Não o consideramos um indígena aqui", disse Yarari. “Ele nos deu as costas.”

Uma preocupação mais geral na América Latina diz respeito às crescentes ameaças à democracia. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro governa agora como um autocrata, ampliando o próprio mandato este ano numa eleição amplamente vista como manipulada. Na Nicarágua, mais de 300 pessoas foram mortas em protestos pelo fim do governo do presidente Daniel Ortega.

E, no apoio manifestado por Morales a essas repressões, alguns enxergam uma tendência autocrática.

Morales, ex-líder do sindicato de plantadores de coca, foi eleito pela primeira vez em 2005 com amplo apoio da maioria indígena do país, e mudou a orientação das políticas nacionais como nunca visto antes na Bolívia desde a chegada dos espanhóis.

No início, muitos em Carmen del Emero - situada a mais de 400 quilômetros ao norte da capital - viram em Morales a antítese de uma longa sequência de líderes que não representavam seus interesses. Morales defendeu a inclusão dos grupos indígenas, rompeu os laços com programas americanos que visavam a erradicação da coca que prejudicavam os agricultores e usou a riqueza do governo para reduzir pela metade a pobreza no país até 2012.

Mas o povo Uru, formado por pescadores do planalto boliviano, assistiu enquanto seu lago desaparecia durante o governo de Morales por causa da mudança climática e da decisão do governo de destinar a água às grandes fazendas. Os Tacanas lutaram por anos contra Morales, que revelou um plano para a construção de uma barragem hidrelétrica perto do Parque Nacional Madidi, área que muitos no grupo chamam de lar.

As barragens inundariam regiões próximas do parque no noroeste da Bolívia, considerada lar de uma das maiores biodiversidades do mundo. Os Tacanas passaram anos combatendo o projeto, e ficaram pasmos ao ver Morales defendê-lo. A construção da barragem teria como objetivo fornecer eletricidade ao Brasil, mas não aos vilarejos amazônicos da região. Isso enfureceu Triniti Tayo Cori, líder do povo Tsimané.

“Graças aos nossos próprios esforços, conseguimos trazer luz para o vilarejo: compramos um gerador, compramos os cabos e as lâmpadas", disse Tayo Cori. O advogado boliviano Yerko Ilijic disse que Morales fazia seus cálculos políticos com base nos votos: grupos menores como os Tacanas e os Tsimané não são uma prioridade. “Com quem os políticos negociam?” indagou Ilijic. “Com o grupo que reúne os maiores números, é claro.” O ativista Rodrigo Quinallata fez campanha contra os mandatos adicionais de Morales. “Temos que reconhecer que, no limite, uma pessoa vestida com um poncho pode ser tão corrupta quanto uma pessoa vestindo gravata", disse ele.

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