Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

'Praia de Mao Tsé-Tung' reúne políticos e banhistas que fogem do sol

Frequentada por políticos locais, cultura da praia em Beidaihe não envolve bronzeamento

Jane Perlez, The New York Times

30 de agosto de 2019 | 06h00

BEIDAIHE, CHINA - Em geral, no verão, o fundador da China comunista, Mao Tsé-Tung, tomava grandes decisões em uma praia informal a centenas de quilômetros a leste da sufocante capital da nação. Ele nadava em dias de tempo bom ou mesmo ruim. Sentava de pernas cruzadas na areia, vestindo apenas um calção preto, com sua considerável barriga exposta para todo mundo ver. 

Os seus sucessores não foram nadadores tão destemidos, e tampouco exibidos. Mas eles ainda gostam de vir todo mês de agosto para Beidaihe, uma mescla de balneário para os pobres e mansões luxuosas por trás de altas cercas. Obedecendo ao caráter hierárquico do socialismo chinês no local coexistem três categorias distintas de visitantes, separadas por forças de segurança munidas de fones de ouvido - e por paredes.

No alto da pirâmide estão o presidente Xi Jinping e seus colegas, escondidos em condomínios em um ponto em que dizem que o mar é mais limpo do que a água cor de barro da praia pública. No nível seguinte, estão os quadros do partido que ocupam palacetes e sanitários do governo além de trechos de praia cercados. Eles podem ser vistos passeando à tardinha em pequenos grupos no calçadão à beira-mar, de cabelos cortados rente e calças bem passadas.

No patamar inferior está o público, hospedado em hotéis baratos e pensões, e nos fins de semana o espaço é reduzido para se movimentar na areia coalhada de famílias. A aparição de guarda-costas e limusines pretas indica que a chegada das altas cúpulas do governo. A qualquer momento, a rua principal pode ser fechada ao trânsito, com policiais uniformizados de luvas brancas plantados a poucos metros uns dos outros enquanto os carros com vidros fumê passam a toda velocidade.

Na praia principal, a multidão não é a mais elegante. A geração millenial chinesa desdenha o lugar. Ela prefere as Maldivas ou a Tailândia. “Os comunistas chineses não praticam na realidade a ‘cultura da praia’”, disse Geremie Barmê, que escreve sobre cultura chinesa. “Eles moldam os próprios hábitos segundo os dos líderes soviéticos, e os resorts e os sanitários do Mar Negro do auge da época soviética. O resultado é um tanto relaxado, tristonho e incrivelmente kitsch, particularmente na era do socialismo pós-pobreza”.

Uma mescla de estilos arquitetônicos - frontões Tudor, cúpulas Hapsburg, mini-Arcos do Triunfo - ladeiam as ruas principais de Beidaihe, resultado da remodelação implementada pelas autoridades do local há cerca de dez anos, na tentativa de atrair visitantes estrangeiros, na maioria russos. Agora, as tintas pastel dos edifícios estão descascando. Os endereços principais são Pizza Hut, McDonald’s e restaurantes familiares que vendem peixe vivo para preparar.

Na areia, a cultura de praia não poderia ser mais distante da Riviera Francesa. Empoleirada em um posto de observação, uma guarda vidas olha a água, de walkie-talkie e megafone à mão. Ela usa uma máscara do queixo até a linha dos cabelos, de um ouvido ao outro. Os olhos escondidos atrás de óculos de sol espelhados. Os braços protegidos por luvas de elástico do pulso até o ombro. Parece uma assaltante de bancos de folga na praia.

Para que esta roupa? “Não gosto de ficar preta”, ela diz. No Ocidente, muitas mulheres tomam sol para ficar bronzeadas. “Nós não gostamos disso”, responde. Nadar não é uma atividade popular na China. A grande maioria da população de 1,4 bilhão de habitantes mora longe do mar, e ir à praia não é um passatempo comum.

Boias infláveis de cores vivas são alugadas por US$ 5 ao dia para as pessoas não afogarem. Há ainda a qualidade questionável da água no Mar de Bohai, uma ampla bacia que banha Beidaihe. O professor Wang Yamin da Universidade Marinha de Shandong disse que os efluentes das fábricas de fertilizantes poluíram o mar nos últimos 30 anos.

Para quem vem do interior, entretanto, a água não parece tão terrível. Depois de cinco horas de trem-bala, Wang Hong, 40, chegou de Shanxi, inspirado pelas lembranças nostálgicas de uma visita feita há 20 anos. Seu filho, Wang Rui, 4, nunca tinha viu o oceano. Rui cava muitos fossos e construiu castelos de areia. Enche de areia forminhas de plástico azul, e faz formas perfeitas, sorrindo o tempo todo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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