Isabelle Baldwin / The New York Times
Isabelle Baldwin / The New York Times

Acervo da Amazon está repleto de exemplares falsificados

Mercado editorial critica falta de responsabilidade da empresa. A Amazon afirmou proibir produtos falsos e negou acesso às contas de mais de um milhão de usuários suspeitos 

David Streitfeld, The New York Times

07 de julho de 2019 | 06h00

SPERRYVILLE, VIRGÍNIA - The Sanford Guide to Antimicrobial Therapy é um manual de medicina que recomenda a dosagem correta de determinados medicamentos para o tratamento de males variados. Vidas dependem dessa informação. Não é o tipo de livro que deveria fazer um médico adivinhar, perplexo, se está diante de um ‘1’ ou um ‘7’ no campo da dosagem recomendada. Mas é esse o problema que assombra a editora Antimicrobial Therapy, há dois anos, conforme a empresa é confrontada com uma enxurrada de falsificações - em muitos casos, exemplares impressos com má qualidade, difíceis de ler - na vasta livraria da Amazon.

“Isso ameaça muitos pacientes, e todo o nosso negócio", afrimou Scott Kelly, vice-presidente da editora. Os problemas de Kelly decorrem diretamente do predomínio da Amazon no segmento da venda de livros. A empresa vende bem mais que metade dos livros comprados nos Estados Unidos, incluindo exemplares físicos novos e usados, além dos formatos em áudio e digital. A Amazon é também uma plataforma de vendas para terceiros, uma editora, uma gráfica, um selo, uma central de resenhas, uma fornecedora de livros didáticos e uma distribuidora que agora administra sua própria rede de lojas físicas.

Mas a Amazon não se envolve muito com aquilo que é vendido na sua livraria, sem verificar a autenticidade dos produtos. Editoras, autores e grupos como Authors Guild disseram que a falsificação de livros na Amazon aumentou muito. Eles dizem que, com frequência, não há a quem recorrer, e a única solução é aceitar uma integração ainda mais aprofundada com a Amazon.

A abrangência das falsificações na empresa transnacional vai muito além dos livros, mas são eles que nos proporcionam uma maneira de observar o quanto o problema é profundo. “O fato de eles serem um monopólio da indústria de tecnologia significa que não precisam se preocupar com a qualidade", justificou Bill Pollock, editor de San Francisco que lidou com exemplares falsos dos livros de computação da sua empresa na Amazon.

Uma porta-voz da Amazon negou que a falsificação de livros fosse um problema, dizendo que “este relatório cita um punhado de queixas, mas até este pequeno número é grande demais, e seguiremos trabalhando até reduzir os casos a zero". A empresa disse proibir os produtos falsificados e, no ano passado, negou acesso às contas de mais de um milhão de usuários suspeitos de serem “maus participantes".

Mas, na livraria da Amazon, o problema é generalizado, agravado pela tecnologia de impressão sob demanda. Livreiros que parecem não ter nenhuma existência verificável fora da Amazon oferecem livros de US$ 10 por US$ 100 ou até US$ 1.000, levando a suspeitas de algoritmos fora de controle e até lavagem de dinheiro. Pelo menos oito livros afirmam resumir o best-seller Bad Blood, de John Carreyrou, que narra casos de fraude no Vale do Silício.

E há também as imitações baratas. “A situação é inaceitável e estou furioso", publicou no Twitter o autor Andrew Sean Greer depois que pessoas se queixaram em meados do ano passado a respeito da venda de falsificações do seu romance, Less, ganhador do prêmio Pulitzer. Havia uma edição falsa das celebradas memórias de Danielle Trussoni, Falling Through the Earth, com um erro de ortografia no nome dela bem na capa.

Autores mortos também são atingidos. Histórias de Jorge Luis Borges foram pirateadas. Os livros técnicos, que costumam ser mais caros que a ficção, são vítimas frequentes. Faz três anos que a editora No Starch Press tenta impedir as edições falsas de seus manuais de computação. Pollock, fundador da No Starch, disse que a Amazon usava para os maus atores da sua plataforma a mesma abordagem do Facebook e do YouTube. “A Amazon é como o Velho Oeste", comparou.

A Amazon supõe que todos na sua plataforma agem de boa fé até provado o contrário. “É sua responsabilidade garantir que seu conteúdo não viole leis nem direitos autorais, privacidade, publicidade ou outros direitos", diz a empresa aos editores e vendedores. Na Antimicrobial Therapy, os primeiros sinais de problemas começaram nas resenhas da Amazon. “Várias páginas borradas, impossíveis de ler", destacou um cliente em 2017. “Parece que o livro foi xerocado", disse outro.

Kelly passou horas escrevendo respostas a clientes, sem perceber que eles tinham em mãos versões falsificadas. Tentou rastrear a fonte das imitações e tentou entrar em contato com a Amazon. Finalmente, escreveu para o fundador da gigante do varejo, Jeff Bezos, dizendo que "a Amazon está aceitando pedidos de nossos livros que são satisfeitos deliberadamente com falsificações, podendo resultar na lesão ou morte de pacientes".

Duas semanas depois, Kelly recebeu uma resposta de “Raj", membro da equipe de desempenho do vendedor da Amazon. Raj disse que um vendedor não identificado tinha sido impedido de vender o livro, mas esse vendedor poderia agora recorrer à Antimicrobial Therapy.

Em fevereiro, a Amazon incluiu pela primeira vez as falsificações como risco em seus relatórios financeiros. Mas a empresa domina a tal ponto o segmento dos livros que as falsificações parecem não afetá-la. É possível que até ampliem seus negócios. “É necessário pelo menos um ano para escrever um livro", disse Andrew Hunt, da Pragmatic Bookshelf, editora da Carolina do Norte que teve pelo menos um de seus títulos roubado. “Mas roubar um livro e deixá-lo disponível na Amazon leva apenas um minuto”. E Hunt acrescentou que, quando um cliente compra um exemplar falso, a Amazon ainda ganha sua comissão de venda. “Poderíamos nos perguntar: do ponto de vista deles, qual é o incentivo para agir?”, questionou.

A Amazon realizou o sonho de Jamie Lendino de se tornar um autor. Lendino, de 45 anos, escreveu um livro chamado Breakout, a respeito das máquinas Atari dos anos 1980. O livro foi publicado independentemente dois anos atrás, embora a Amazon tenha ficado com uma comissão sobre os 1.223 exemplares em formato brochura. Há um ano, um indivíduo supostamente chamado Steve S. Thomas pegou o livro de Lendino e se apropriou do conteúdo como sendo seu. Thomas mudou o título de Breakout para o subtítulo, How Atari 8-Bit Computers Defined a Generation. Trocou o nome de Lendino pelo seu. Thomas também colocou seu nome em títulos como Preharvest and Postharvest Food Safety e Real-World Electronic Voting: Design, Analysis and Deployment

Depois que Lendino se queixou à Amazon a respeito da falsificação, a varejista excluiu as obras de Thomas da loja. Restam apenas vagos vestígios dele. Não foi possível entrevistá-lo para a reportagem porque ele provavelmente não existe. A Amazon não quis comentar o episódio. Ainda assim, Lendino não guarda rancor da Amazon. “Foi realmente incrível poder publicar um livro sem ter que entrar em uma série de livrarias para pedir que o vendessem, nem ter de imprimir uma grande tiragem para em seguida ser obrigado a vender na internet a preço promocional", explicou. 

No ano passado, ele usou a plataforma de publicação independente da Amazon para publicar Adventure, a respeito do Atari 2600. A Antimicrobial Therapy é administrada por Jeb Sanford; a mulher dele, Dianne; e Kelly, filho de Dianne e enteado de Jeb. A empresa tem apenas 13 funcionários, que trabalham em Sperryville, Virgínia. Seu principal produto é o Sanford Guide. As vendas do livro começaram a cair nos anos mais recentes. Retrospectivamente, seria um indício da crescente abundância de falsificações. “Estimo que aproximadamente de 15% a 25% de nossas vendas eram desviadas por falsificações", disse Kelly. “Estamos falando de milhares de exemplares”.

A empresa apresentou à Amazon queixas relativas à falsificação no segundo semestre do ano passado. A livraria da Amazon removeu muitos dos revendedores, e alguns deles procuraram a Antimicrobial Therapy para protestar sua inocência. A Amazon não quis comentar o episódio.

O impasse nas comunicações entre Amazon e Antimicrobial Therapy foi complicado pelo fato de as duas empresas ainda não terem um relacionamento direto. Assim, em dezembro, a editora abriu um site oferecendo seus produtos dentro da Amazon, com a gigante do varejo de livros recebendo comissão de aproximadamente 20% sobre cada exemplar vendido. De acordo com os termos desse funcionamento, a Amazon informa à Antimicrobial Therapy o endereço do cliente, e a editora envia o exemplar de Sperryville.

Conforme a empresa se preparava para o lançamento da edição de 2019 do seu guia no primeiro semestre do ano, foi proposta uma integração ainda mais profunda com a Amazon. “Para eliminar a possibilidade de a Amazon facilitar a venda de edições falsificadas, gostaríamos de oferecer à Amazon a oportunidade de atuar como atacadista de nossos títulos, eliminando os intermediários", escreveu Kelly em carta à empresa. Essencialmente, a Amazon foi recompensada e a editora se viu obrigada a render-se ao seu predomínio. “Não nos pareceu que havia escolha", afirmou Kelly. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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