(Maxim Babenko/The New York Times)
(Maxim Babenko/The New York Times)

‘Precisamos do Greenpeace’: o grito improvável da Sibéria

As estradas de gelo do norte da Rússia estão derretendo mais cedo que antigamente

Andrew E. Kramer, The New York Times

04 Maio 2018 | 10h15

TAS-YURYAKH, Rússia - Em uma parada de caminhões no terminal norte da rodovia Vilyui, no nordeste da Sibéria, os caminhoneiros jogam conversa fora, não sobre a vida na estrada, mas sobre a vida da estrada.

Pode ser que dure mais uma semana, sugeriu um deles.

“Acho difícil”, rebateu Maxim A. Andreyevsky, 31 anos, motorista de um caminhão-tanque de petróleo bruto. “Você não viu o brilho na superfície? Mais um dia ou dois e já era”.

Toda primavera, milhares de quilômetros da chamada rodovia de inverno, que serve principalmente às cidades de petróleo e mineração da Sibéria e do extremo norte da Rússia, voltam a se fundir com os pântanos de onde emergiram no outono anterior. E, a cada ano, os homens cujos meios de subsistência dependem da estrada de gelo têm a impressão de que ela derrete mais cedo.

Essa impressão transformou Tas-Yuryakh, um pequeno vilarejo de casinhas feitas de troncos que depende da rodovia de gelo para fazer negócios em sua parada de caminhões - o último posto de gasolina em 800 quilômetros - em um lugar de gente que acredita de verdade na contribuição humana para as mudanças climáticas.

“É claro que as pessoas são culpadas”, disse Andreyevsky. “Elas usam muito gás, usam muito petróleo. Precisamos do Greenpeace aqui, meu irmão”.

Com rodovias feitas de gelo, passando pelas superfícies congeladas de rios e lagos, basta um dia quente de primavera para a estrada desaparecer. Todo ano, dizem as autoridades, pelo menos um caminhão quebra o gelo de algum lago ou rio.

“O perigo está sempre viajando com os caminhoneiros destemidos”, disse Aleksandr A. Kondratyev, diretor do Departamento Regional de Estradas de Mirny, cidade que vive da mineração de diamantes no nordeste da Sibéria, ligada ao resto da Rússia apenas pela estrada de gelo Vilyui.

Quando a Vilyui foi aberta, em 1976, seus construtores comemoraram a ocasião no dia da revolução, 7 de novembro, contou Kondratyev. Hoje em dia, a estrada raramente abre antes de meados de dezembro, disse ele, e agora normalmente fecha em 1º de abril, cerca de um mês antes do normal.

No “O Prato”, parada de caminhões que marca o extremo norte da rodovia Vilyui, os caminhoneiros faziam fila para pedir aquela que seria sua última refeição nos três dias seguintes, tempo que leva para cruzar as pistas de gelo até a próxima estrada de cascalho.

As estradas de gelo são parte integrante da economia de mineração e petróleo no extremo norte da Rússia. Elas fazem atalhos por rios e lagos congelados, mas, na maior parte do caminho, atravessam o permafrost, a camada de pântano pré-histórico congelado. A camada superior, que descongela e volta a congelar todo ano, vira material para os construtores de estradas de gelo.

No inverno, disseram os caminhoneiros, as companhias de transporte pagam 500 dólares por uma viagem só de ida na rodovia Vilyui. Depois de meados de abril, o preço chega a 700 dólares.

Este ano, Andreyevsky partiu com seu caminhão Renault em 29 de março. O plano era chegar à pista de cascalho no sul antes do degelo. Se conseguir fazer isso com sua carga de petróleo bruto, brincou ele, só vai piorar ainda mais os problemas da estrada.

“É claro que a queima de petróleo tem efeito” sobre o clima, disse ele. “Os escapamentos estão soltando fumaça”.

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