Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Primeira prefeita de cidade afegã aguarda seu assassinato

“Preciso provar que as mulheres não são seres fracos”, diz Zarifa Ghafari, que foi ameaçada por um mafioso

Fatima Faizi e Rod Norland, The New York Times

16 de outubro de 2019 | 06h00

MAIDAN SHAR, AFEGANISTÃO - Zarifa Ghafari, que, aos 26 anos, se tornou uma das primeiras prefeitas do Afeganistão, está convencida de que acabará sendo assassinada. Por outro lado, ela não mantém absolutamente uma postura discreta. Tem uma bandeira com o seu nome, uma imagem dela com um véu vermelho na cabeça e o slogan da sua campanha contra a poluição do ambiente: “Vamos manter nossa cidade limpa”.

A prefeita, que tomou posse em março em Maidan Shar, uma cidade de 35 mil habitantes na província conservadora de Wardak, está na linha de frente da luta pelos direitos das mulheres do seu país, enquanto nas conversações de paz com o Taleban, os afegãos  se perguntam o que poderá acontecer se os insurgentes voltarem ao governo.

“A minha função é fazer com que as pessoas acreditem nos direitos das mulheres e no poder das mulheres”, escreveu no Twitter. Zarifa foi nomeada no verão de 2018 pelo presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani. Mas o início do seu mandato foi adiado  porque homens revoltados invadiram o seu gabinete  no dia da posse. Eles a vaiaram: “Não volte mais”.

Imediatamente ela foi ao palácio presidencial em Cabul. “Declarei que reivindicava o meu direito ao cargo, nem que tivesse de atear fogo em mim mesma na frente do palácio”, contou “E não era uma simples ameaça”. Passaram nove meses, mas Zarifa voltou - apesar de certa resistência do governo.

Recentemente, enquanto levava funcionários da prefeitura para distribuir sacolas plásticas para a sua campanha “Cidade Limpa Cidade Verde”, relutou em permitir que um repórter a acompanhasse. “Não é seguro”, explicou. No mercado, rapidamente foi cercada por uma multidão de homens e crianças.

Zarifa se manteve firme, berrando muitas vezes, exigindo que as pessoas pegassem as sacolas e recolhessem o lixo das ruas. “É a nossa cidade, devemos mantê-la limpa”, ela disse. “Não posso fazer isto sem a ajuda de vocês”. Alguns riram dela, mas outros aceitaram as sacolas.

“Se uma senhora quer trabalhar em uma sociedade muito conservadora, precisa esconder a própria personalidade”, afirmou. “Preciso provar para eles que as mulheres não são seres fracos”. Muito mais perigosas, acrescentou, são as organizações criminosas. “A máfia deste país é o que realmente me apavora”, falou Zarifa. “Um mafioso foi falar comigo e disse que meteria uma bala na minha cabeça se eu não fosse embora daqui”.

Zarifa se formou na Índia e estava preparando o seu master em economia quando, em uma visita ao seu país, no ano passado, a família a encorajou a prestar um concurso para um cargo público. Além dos seus estudos normais, Zarifa fundou uma emissora de rádio popular dirigida para as mulheres de Wardak.

Ela acabara de voltar à Índia quando um amigo a informou: o gabinete de Ghani anunciara que Zarifa havia sido nomeada prefeita. “Não acreditava que poderia obter o cargo, porque sou uma pessoa sem nenhum poder político e nem dinheiro”, afirmou. Mas quando tomei posse, soube que queria estar aqui para tentar mudar a sociedade”.

A determinação de Zarifa muitas vezes desperta o desprezo. Mas em uma reunião em que estava sendo discutido o projeto de uma estrada que ela defendia, houve um vislumbre de apoio para a prefeita. “Confiem nela”, disse um dos presentes. “Este projeto ficou parado 12 anos; ela está aqui há um mês e já o retomou. Pode ser uma mulher, mas tem muita força”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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