Maddie McGarvey para The New York Times
Maddie McGarvey para The New York Times

Prefeita muda desfile de Natal, e comunidade cristã reage

Amy Goodwin alterou nome de evento natalino para "Desfile de Inverno", buscando acolher outras religiões. Indignação fez prefeita voltar atrás

Dionne Searcey, The New York Times

19 de dezembro de 2019 | 06h00

CHARLESTON, WEST VIRGINIA - O primeiro golpe aconteceu no início de outubro. Ele veio na forma de um anúncio na página oficial da cidade no Facebook. "O desfile de inverno em Charleston começará na esquina da Kanawha Boulevard e da Capitol Street", dizia o post.

Durante anos, a cidade organizou um tradicional desfile de Natal todo mês de dezembro no centro de Charleston. Bandas marciais, caminhões de bombeiros e Papai Noel em seu trenó vermelho percorriam as ruas da cidade com crianças pegando os doces que eram arremessados dos carros alegóricos enfeitados com temas natalinos. Agora, as autoridades chamavam isso de "Desfile de Inverno".

A guerra de 72 horas de Charleston sobre o Natal havia começado. A prefeita Amy Goodwin não viu sua decisão de renomear o desfile como uma afronte ou algo parecido. "Eu queria mostrar que Charleston é uma cidade acolhedora e inclusiva", disse ela. Mas não foi isso que muito residentes de Charleston entenderam. Alguns viram isso como um ataque ao cristianismo e às tradições consideradas preciosas em uma cidade de 48 mil habitantes que parece mais um povoado.

Para outros, a mudança atingiu algo mais profundo. Substituir “Natal” por “inverno” foi um tiro contra um modo de vida que já havia mudado tanto nas últimas décadas. Como quando a indústria do carvão na região entrou em colapso, os empregos na fabricação de produtos químicos desapareceram, as lojas fecharam e um grande número de pessoas saiu da cidade, deixando para trás um lugar muito diferente daquele que os residentes mais antigos se lembravam.

Em todo o país, a menção de “Natal” em cartões e decorações típicas da data se tornou uma medida de divisão política. Os prédios do governo substituíram as árvores de Natal e os presépios por luzes de Natal e renas. A rede de cafeterias Starbucks está dizendo apenas "Feliz Café" este ano. Nas horas seguintes ao anúncio da prefeita, parecia para muitos moradores, que Charleston estava indo na mesma direção da Starbucks - um ataque à data, afirmavam.

"A reação da comunidade foi uma reclamação coletiva", disse Steve Roberts, presidente da Câmara de Comércio de West Virgnia em Charleston. "Trata-se de um desfile fofo com crianças pequenas. Por que não podemos simplesmente fazer um desfile de Natal?" A cidade inteira parecia estar falando sobre a mudança de nome do evento. A questão surgiu no grupo de jovens da igreja com a presença do filho de 15 anos de Goodwin. Ele garantiu à mãe que todos os adolescentes a apoiavam.

"Você tomou uma boa decisão", ela lembra de ter escutado do filho. Mas a indignação continuou a aumentar. Por dois dias, Hoppy Kercheval ouvia falar sobre a mudança de nome no estúdio onde ele transmite o Talkline, um popular programa de entrevistas no rádio que vai ao ar em todo o estado.

"Isso realmente era um problema?", comentou Kercheval em sua coluna para a estação de rádio. A decisão, ele argumentou, "criou uma divisão onde não existia". No início da manhã do terceiro dia após o anúncio, a Fox News, uma emissora de TV conservadora, fez uma cobertura sobre a história e as críticas explodiram nos Estados Unidos.

Na terceira manhã após o anúncio, o programa de rádio de Kercheval havia se tornado o teatro de guerra. Então, Goodwin telefonou com um anúncio. "Foi um processo incrível, um processo esclarecedor nos últimos dois dias", ela começou. O desfile de inverno não iria existir mais, ela disse.  O desfile de Natal estava de volta. "Todo mundo vai ser feliz de novo", disse Kercheval. E para a maioria, parecia que todo mundo estava. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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