Pierre Terdjman para The New York Times
Pierre Terdjman para The New York Times

Prefeitos de cidades pequenas da França se rebelam contra cortes do governo

Mais de 150 prefeitos deixaram seus cargos este ano com diminuição das receitas e reformas de Macron

Adam Nossiter, The New York Times

14 de novembro de 2018 | 06h00

SAINT-SEINE-SUR-VINGEANNE, FRANÇA - Na qualidade de prefeito deste povoado da Borgonha, Louis Gentilhomme presidia uma comunidade aparentemente bucólica - algumas ruas com casas de pedra, uma igreja do século 13, uma padaria, não muito mais do que isso.

Mas no fim do ano passado, ele escreveu ao presidente Emmanuel Macron contando que o estresse era demasiado. Ele não suportava olhar para o seu vilarejo de 400 almas encolhendo ainda mais. “Depois de 30 anos, estou esgotado”, escreveu Gentilhomme, ex-mergulhador da Marinha francesa de 77 anos. “Os compromissos assumidos, as promessas não mantidas e o Estado que encolhe acabaram comigo, moral e fisicamente”.

Este ano, mais de 150 prefeitos franceses deixaram o cargo. As renúncias refletem o atual confronto entre a política de Macron, que quer sacudir as instituições por vezes arcaicas do país, e um estilo de vida que talvez tenha se tornado insustentável.

Os prefeitos são um dos esteios da vida francesa desde que os revolucionários de 1789 decretaram que onde quer que surgisse a torre de uma igreja, deveria haver um prefeito. Nenhum país do continente supera os 35.502 prefeitos da França. 

Vinte mil destes povoados têm menos de 500 moradores. Mas antes mesmo da eleição de Macron em 2017, a França enfrentava o dilema: até quando poderia permitir-se tantos pequenos feudos. Uma lei de 2015 obrigou as aldeias a se fundirem em unidades administrativas de pelo menos 15 mil pessoas. O poder real passou aos novos blocos.

Os prefeitos agora acham que comandar a prefeitura deixou de ser o que era. “Eles têm a impressão de ter sido abandonados pelo Estado, e de ser cada vez mais criticados por seus cidadãos”, disse Christian Le Bart, especialista em governo local da universidade Sciences Po de Rennes.

A saída dos 150 reflete a luta dos vilarejos na França rural para permanecerem vivas enquanto são apanhadas em uma espiral de receitas que encolhem e populações cada vez menores. “Nós fazemos de tudo”, disse Jean-Claude Bellini, que recentemente deixou a prefeitura da vizinha Chaux. “É sempre a mesma coisa: ‘fale com o prefeito, fale com o prefeito’ ”.

Acima de tudo, os recursos repassados pelo Estado aos povoados da França caiu para 30 bilhões de euros, ou cerca de 34 bilhões de dólares, em 2017, quando Macron foi eleito, em comparação a 42 bilhões de euros em 2014. Macron também prometeu cortar o imposto de hospedagem de hotéis, pousadas, etc, que representa 10% do orçamento da cidade pequena média.

“Existe uma ameaça real à autonomia financeira destas pequenas cidades”, segundo Ludovic Rochette, que dirige a associação de prefeitos do departamento da Côte d’Or da Borgonha. Os prefeitos, ele disse, há muito se sentem desrespeitados pelas autoridades de Paris, mas eles esperavam uma mudança. E prosseguiu: “O corte do imposto sobre hospedagem foi a gota d’água. Todos nós cortamos e não paramos de cortar, e agora chegamos ao osso”.

“A minha luta pela sobrevivência do meu povoado não foi compreendida, e quase não recebeu apoio”, escreveu Gentilhomme, em sua carta ao presidente. 

A carta que Macron escreveu em resposta prometeu simplesmente simplificar a reformulação administrativa. 

Mas era justamente contra esta consolidação que Gentilhomme lutara.

“Eu ia todos os dias a pé para a prefeitura”, lembrou Gentilhomme. “E eles não hesitavam em me chamar, ou mesmo em vir à minha casa. Eles acham que o prefeito pode fazer tudo”. E imitando o tom choroso dos pedidos: “Não há água, não há eletricidade, é preciso falar com o prefeito’”.

E acrescentou: “No nosso vilarejo, as pessoas acham que você é o senhor Deus. Mas na realidade, não pode fazer grande coisa”.

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