Philippe Ruault
Philippe Ruault

Casal francês recebe prêmio Pritzker por moradias a preços acessíveis

Depois de mais de trinta anos projetando novos espaços acessíveis a partir de estruturas existentes, Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal ganharam a maior honraria da arquitetura

Robin Pogrebin, The New York Times - Life/Style

09 de abril de 2021 | 05h00

Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal jamais demoliram um edifício para construir um novo. Os arquitetos franceses, que moram e trabalham no subúrbio parisiense de Montreuil, acreditam que toda estrutura pode ser reaproveitada, reinventada, revigorada. Agora, depois de 34 anos pondo essa abordagem em prática, eles ganharam a maior homenagem de seu campo: o Prêmio Pritzker.

“Por meio de suas ideias, de sua abordagem do ofício e dos edifícios resultantes”, disse a declaração do júri, “eles provaram que se pode buscar, sem nostalgia, o compromisso com uma arquitetura restauradora que é, a um só tempo, tecnológica, inovadora e ecologicamente responsável”.

Numa entrevista conjunta por telefone, Lacaton e Vassal disseram que há muito tempo se opõem a derrubar coisas. “Há muitas demolições de prédios que não são velhos demais, que ainda têm uma vida pela frente, que não estão fora de uso”, disse Lacaton, 65 anos. “Achamos que é um desperdício de materiais muito grande. Se observarmos com atenção, se olharmos as coisas com outros olhos, sempre haverá algo de positivo a tirar de uma situação existente”.

Vassal, 67 anos, disse que certa vez chegaram a construir em torno de uma floresta – sempre se certificando de integrar a paisagem natural e preservar o passado. “Nunca destrua, nunca corte uma árvore, nunca tire uma fileira de flores”, disse ele. “Cuide da memória das coisas que já existiam e ouça as pessoas que estão vivendo naquele espaço”.

Essa filosofia fica evidente em seus projetos, como a expansão do Palais de Tokyo em Paris, no ano de 2012. Ao escavar o porão com materiais crus e minimalistas, os arquitetos transformaram o que restou da Feira Mundial de 1937 no que é considerado o maior museu de arte contemporânea sem coleções da Europa.

Da mesma forma, ao atualizar o Tour Bois-le-Prêtre, projeto habitacional dos anos 1960, nos arredores de Paris, os arquitetos – em colaboração com Frédéric Druot – ampliaram os pisos para aumentar o tamanho dos quartos, acrescentando varandas e jardins de inverno.

“A arquitetura está ficando cada vez mais ligada à tecnologia, cada vez mais complexa, cada vez mais baseada nas regulamentações, mas nós tentamos evitar tudo isso”, disse Vassal, acrescentando que a dupla prefere “trabalhar com elementos muito simples – ar, sol – pelos quais não temos que pagar”.

Esse projeto habitacional foi apresentado em 2010 na exposição Pequenas escalas, grandes transformações, do Museum of Modern Art, e ganhou o prêmio de melhor arquitetura da revista de design Dezeen.

Lacaton e Vassal disseram que procuram dar ênfase tanto à liberdade quanto à função – deixando os espaços indefinidos, o que permite que os inquilinos sejam criativos.

Seus projetos não apenas se mostram mais baratos e ambientalmente sustentáveis, mas também evitam o deslocamento dos residentes durante a construção. Em 2017, os arquitetos – com Druot e Christophe Hutin – conseguiram transformar e expandir 530 apartamentos no bairro Grand Parc, em Bordeaux, sem exigir que os residentes saíssem de suas casas.

Em seus projetos públicos, Lacaton e Vassal também deixam os espaços deliberadamente desestruturados, para que as próprias pessoas determinem os usos. No desenho de um enorme centro cultural de seis andares para uma coleção regional de arte, FRAC Dunkerque (2013), os arquitetos anexaram um segundo salão que espelhava o original, permitindo que ele fosse usado como uma extensão do edifício existente ou como um edifício independente.

“É um lugar onde, no fim das contas, aconteceram as exposições mais interessantes”, disse Lacaton sobre o anexo, “onde os visitantes ficam mais relaxados e têm uma relação diferente com a obra de arte”.

Projetar moradias populares sempre foi primordial, disseram os arquitetos, porque a qualidade muitas vezes é sacrificada e os resultados ficam abaixo do padrão. Por meio do uso de designs simples e materiais básicos, eles desafiaram a noção de que espaço generoso e fundos limitados são incompatíveis.

Não se trata de uma engenharia de valores – reduzir certos elementos para diminuir o custo do todo – disseram os arquitetos. Em vez disso, a ideia é desenvolver aquilo que Lacaton descreveu como “uma atitude de observação cuidadosa”: investigar um local antes de correr para colocar sua marca nele, explorar o que pode estar funcionando antes de focar no que deve ser consertado.

Uma casa pode parecer “feia ou sem graça” para alguns, explicou Vassal. Mas olhe lá dentro e você encontrará “uma senhora que lhe oferece bolo e café. Atrás dessas salas, há vida”.

A importância que esses arquitetos sempre deram à habitação foi corroborada pela pandemia, disseram. Com as pessoas obrigadas a passar a maior parte do tempo em casa, “vemos como é importante pensar nas condições da vida cotidiana”, disse Lacaton.

Em alguns casos, sua marca envolve muito pouca intervenção. Sobre a praça Léon Aucoc, projeto de 1996, a declaração do júri disse: “sua abordagem foi simplesmente realizar o trabalho mínimo da substituição do cascalho, o tratamento dos limoeiros e uma ligeira modificação do tráfego, tudo para conceder potencial renovado ao que já existia”.

Os dois se conheceram na Escola de Arquitetura de Bordeaux no final da década de 1970 e em seguida passaram cinco anos trabalhando em Níger, no sul do Saara. “O deserto foi uma segunda escola para nós”, disse Vassal.

Foi lá que aprenderam o que ele chamou de “abordagem poética”: usar materiais básicos como madeira e tecido para criar sombra.

“Foi uma experiência muito importante”, disse ele, “e ainda a temos em mente”.

Sua equipe é bem pequena – cerca de dez pessoas, incluindo os dois. Ainda assim, concluiu mais de trinta projetos em toda a Europa e na África Ocidental, entre eles 53 unidades de apartamentos de baixo custo em Saint-Nazaire, França, e um edifício residencial e comercial em Genebra.

Alguns arquitetos têm uma assinatura clara – só de olhar dá para reconhecer um edifício projetado por outros laureados do Pritzker. Mas Vassal e Lacaton disseram que, de início, não se preocupam com a aparência final de um projeto. Em vez disso, disseram, eles projetam de dentro para fora, pondo foco no propósito ou uso de um espaço, confiando que o processo produzirá um resultado materialmente satisfatório.

“Não buscamos uma estética”, disse Vassal. “Essa ideia de que a estética é o resultado do processo de criação não é algo que temos que pensar no início. Achamos que a beleza sempre acontece no final”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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